sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Uma Criança Arde nos Campos de Ñu Guassu

Há uma criança
carbonizada;

o fogo evaporou
a lágrima.

Ela tem não só o
sangue guaraní;

é negra, polaca,
jogada por aí.

Quem verá o vento balançar a macega?
Ou crispar desconexa língua de fogo?

Vulto amontoado,
pequeno;

lentamente
alimentado com veneno,

[serve]

a generais covardes,
inatingíveis

e seus heteromorfos
dirigíveis

Quem verá o vento balançar a macega?
Ou crispar desconexa língua de fogo?

Em estreitas veias da urbe
a banhar-se em chorume,

o cadáver carbonizado
sob cobertor acinzentado.

Era aqui, era lá?
A República do Guairá?

Quem verá o vento balançar a macega?
Ou crispar desconexa língua de fogo?


Ricardo Pozzo

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

foto by Filipe R. Silva
foto by Angela Gomes

Lembrete a um moribundo

Se você quer pensar na dor de morrer, lembra do teu corpo.
O corpo é que completa a morte.
Só no mundo ele foge do vazio,
do próprio corpo.

Mas se é pela vida que você teme, lembra dos teus sentimentos.
Os sentimentos não completam nada.

A morte esvazia. A vida não engana.
Os sentimentos não cabem em poemas.

Nils Skare
foto by Angela Gomes

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Era uma Vida

(Escrito na mesma hora em que meu pai corria para outra vida )


Era uma vida
que corria para o mar
Era uma vida
sem hora marcada
Era uma vida
feita de terra, ar e areia
Era uma vida
onde havia de tudo
emoções e sentimentos
sombras e luzes
Flutuavam vontades
Lá e cá
Um desejo não fala com o outro
não se olham
e confundem a vida
um acredita
outro desmente
um é atento
outro, aventura
um é lenha
outro, fogueira
um é sol
outro, lua
um cochila
outro, desperta.

Qual aparece ao sol ?
Qual prefere a lua ?

Era uma vida
com muitos desejos.

Deisi Perin
(Proyecto Cultural Sur-Brasil.vol7. Outubro; 2008 )

Refletindo silêncio

Para longe de mim
Equilibrando-me
sobre o fio esticado
entre sonho e juízo
prestes a estatelar-me
na rudeza dos fatos
prestes a alçar vôo
rumo a pouso impreciso

Para longe de mim
A ressonância da tua voz
provoca tremores
muda o curso da libido
no murmúrio raso
do discurso fluido
que escorre
para minhas profundezas

Para longe de mim
Que a figura
debruçada na janela irreal
seja a imagem colhida
pela menina em meus olhos
a ostentar indiferença

Estrela longínqua
refletindo silêncio
no mar

Iriene Borges

terça-feira, 28 de outubro de 2008

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um Dia depois de Antes

Acendo uma vela,
as paredes dançam,

na meia-luz,
as lembranças:

o trânsito escondeu-se todo
na ambulância do meu desespero

que rodou, rodou num viaduto

irresoluto e rezou luto

na veia,
glicose, dipirona e antis

na seringa cheia

nada,
nada de imediato se absorve

Ivone F. Santos


http://ivonefs.blogspot.com/

domingo, 26 de outubro de 2008

Sobre os Modos de Madamme Lucille

Madame Lucille, composta por matéria brilhosa, principalmente boca e olhos, arrasta pelo imundo chão de um bar de quinta seu casaco de veludo e plumas provenientes de gansos negros. Gargalhadas entorpecidas são invocadas de seu âmago lubrificado com gás hélio, desfila entre os dedos da mão direita uma piteira dourada do século passado ao mesmo tempo em que sua mão esquerda gira um copo de Teacher's. Mulher segura essa madame Lucille para limpar os dentes com a lingua desse jeito, como quem acabou de calar o apetite. Caminha com seus sapatos de meretriz aposentada sobre as poças de cerveja e mijo largadas pelos homens despreocupados. Madame Lucille, elegantemente fora de contexto, dança um cabaret de Toulouse enquanto ao fundo toca um samba de raiz.

Camila Vardarac

http://vaga-lumens.blogspot.com/

Quando a Gata Comeu a Minha Lingua


Preso no peito está o melhor que posso oferecer. E na garganta as palavras que teimo em não dizer. Você veio e até sorriu. Eu fiquei ali. Estático. Preso num canto do bar. Cigarro e copo na mão. Olhos tristes de quem não dorme e não come direito. Olhos de quem não ama. Um peso nos ombros que me afunda mais a cada dia. Uma mentira. Ou um segredo? Eu não conto. Nem canto. Pranto. Tanto. Quase todo dia no escuro do meu quarto ou no eco do meu banheiro. Lágrimas que rasgam o peito. E o lugar onde o meu melhor está guardado vai apodrecendo... dia após dia. Lágrima após lágrima. E, enquanto o meu mundo desaba, eu permaneço ali. No canto daquele mesmo bar.
Wilton Isquierdo

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Jurei-me no espaço
da casa de barro
furtado da terra.


Rubra vergonha
em face menina
de outro destino
ao seio fitar-me.

Loriel S Santos

domingo, 19 de outubro de 2008

Dia 23/10 - Bisbilhoteca - 19 horas


O Sapato Falador

Numa insólita enchente, o encantamento acontece: sapatos que falam estendem as mãos (ou seriam os pés?) para um menino flagelado. Então, solidão e solidariedade, desespero e esperança, Sul e Norte, esquerdo e direito, individual e coletivo, real e imaginário, como se fossem antigos amigos, promovem a comunhão dos opostos e o clarão de um olhar renovado. E, para completar, ternura e poesia também enlaçam as mãos e movimentam sentidos e sentimentos, numa cantiga final.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Foto by Angela Gomes

Síndrome do Desencantamento

"...que agora que eu tô nessa situação eu sei, o único amor que existe é o amor de mãe"
Lindemberg Alves, 22

Olhos tristes, naquele rosto jovem. Não adiantava querer explicar ou tentar salvar qualquer espécie de esperança no futuro. Numa relação a dois, o amor não é tudo.

Ele, com aquela cara de cão sem dono, imerso em suas incertezas perante o mundo, mal chegava a percebê-la, enquanto ela, fingia proteger-se em seus braços ao notar que ele exibia um certo orgulho de envolvê-la, julgando-se macho, em inspiração adolescente, sutil e trágico, desesperançado e crente.
Ricardo Pozzo

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Praça Zacarias

sábado, 11 de outubro de 2008


estencil de Jaime Vasconcelos (ou Jãime Vaisshconceluishzz)

Aphaville e a Cidade Desconhecida

Estava decidido. Louise se mudaria para longe de Alphaville. E de fato há tempos vinha se mudando aos poucos. Não podia mais com aquela gente que lhe exigia tanto. Tudo ali requeria uma geometria exata e tudo o que fazia parecia, aos olhos de todos, algo tão diferente do esperado. Olhavam-na assim como se a algo raro de tão incompreensível e sua produção espiralada ou circular eram objetos quase não identificados pelas convenções. Não podia repetir quaisquer de seus atos, pois nada se adaptava ao formato local, tendo ela sempre que criar uma nova ação na esperança de se fazer entender. Sentia-se então quase estrangeira, mas lembrava-se de um lugar tão diferente em sua infância, e para lá ia sempre que a vida lhe deixava de sorrir.

Começara nos fins de semana. A distante cidade era um recanto com bosques, rouxinóis e tudo o que torna uma paisagem perfeita, parecendo um dos desenhos que entregara à professora do jardim, há muitos anos. Usando o balanço do parque, seu corpo se movimentava em sincronia com seus pensamentos e com o movimentar da folhagem. Ali não precisava explicar nada, talvez pela simplicidade das pessoas, que não lhe exigiam grandes formalidades. Tudo era aceito e eram raros os tons cinzentos e as formas retilíneas. A cor da infância finalmente voltara, sobrepondo-se ao cinza em que vivera até agora. Via uma qualidade lúdica na paisagem, as flores e árvores animavam-se à sua passagem, a cachoeira fria era mesmo agradável e podia compreender tudo o que lhe cantavam os pássaros.

Desvencilhando-se de tudo, mudava-se para aquela terra sem nome, que sempre conhecera. Nada ali era adverso e todos lhe sorriam como se nela também reconhecessem algo familiar. E assim viveu, por muito tempo, ao sabor das ondas de harmonia que emanava o lugar. Mas se em sua crença tudo seria sempre assim, alguns fragmentos obscuros, que recordava em vislumbres e sem desejar, insistiam em aparecer. E subitamente um inseto tão estranho e cinzento invadiu o cenário antes conhecido. As asas eram retorcidas e ela podia quase ver pequenos olhos encarniçados a lhe espreitar. Em vão procurou se livrar da criatura desconcertante que a perseguia por toda parte. O antes agradável clima da primavera trouxe um vento inóspito e numerosas nuvens escuras se reuniram sobre as árvores. Tudo acontecia tão rápido e ela sentia que perdia tudo. Aquele lugar que parecia lhe pertencer se esvanecia sob os olhos e novamente ela sentia que Alphaville, a qual já havia quase esquecido, ressurgia mais rapidamente do que podia suportar. Toda harmonia que vivera era deixada pra trás, como se nunca houvesse existido realmente.

A contragosto, Louise estava de volta. Não pôde imaginar que viveria ali novamente, junto aos seres autômatos que jamais puderam enxergar as verdadeiras formas e cores do mundo. De nada adiantaria lhes falar de tudo o que vira e sentira, pois estavam condenados a crer que seu mundo era o verdadeiro, e o dela, uma ilusão que somente os remédios curam. Quisera ela que inventassem cápsulas de ingresso à cidade desconhecida, para ministrar àqueles que jamais teriam uma chance de visitá-la. Quanto a ela, bastaria burlar os enfermeiros, escondendo seus remédios, e retornaria espontaneamente à cidade desconhecida
Juliana Correa

segunda-feira, 6 de outubro de 2008


Segredos para Lottie

Se o tempo parasse, para então eu juntar todas essas coisas perdidas nos pântanos, a vida seria melhor, Lottie. Tronco luxurioso. E os meus olhos se enchem de lágrimas, e as minhas lágrimas se enchem de alguma coisa secreta, que vem do delta no seu paradoxo venusiano e inatingível; tornei-me incansável nas investidas de olhares avessos e retóricos. Pois sou eu quem se cala sempre e quem se despede sem um aceno, vou indo de leve, de mansinho, deslizando no infinito, como se a mim fosse tudo confidenciado: o prelúdio do fim.

Tiraram-me as mãos dos antebraços, tiraram-me os braços dos ombros e as pernas para que não eu possa chegar até a ti. Tenho olhos culminantes e até o mais distante e grave deslize consigo gravar na retina, fotografar por detrás dos cofres encharcados de sal e água quente. Vim do mar porque não tive outra escolha, e por isso meus olhos são cristalinos, moles e líquidos.

Coro as bochechas, a face nua inteira. Vejo-lhe sem saber exatamente o que és. Sigo a estradinha que me leva até o caminho do encantamento, até o portão aberto e depois a casa toda sem móveis e as janelas abertas, redemoinho de poeira e cabelos louros subindo, subindo, dançando no meio da sala de jantar. E aqui sou o som de tudo em volta, sou os passos, e sou a mobília e sou os convidados e sou a própria comida. Faço-lhe o favor de me calar.

Ando percebendo – sem andar – aqui mesmo, bem como o mundo é... petit Lottie, a vida traga-me num desajeito tão grande, num desgosto imenso e eu, enquanto só eu; quero remendar tudo, sair costurando as nuvens, os grandes buracos acinzentados que percebo quando olho para o céu nesses dias de setembro. Embora toda a chuva e ventania e toda a eletricidade pairando no ar me cause um êxtase e felicidade enorme, sinto vontade de sair remendando tudo, deixando as coisas como deveriam ser, ou todas brancas, como se o céu fosse todo de algodão ou todo azul, profundo e tácito.

Mas não, eu não seria capaz, sei que há a volatilidade. E também sei que as coisas giram, e por tudo isto, desisto. Mas não morro. Continuo, e não disse quase nada, fico atrás do pensamento. Falo no destrambelho a mim mesma, porque contudo há o que sobra, palavras perdidas nas entranhas, grudadas na mucosa, na relva, nas plantas selváticas perdidas por entre os dedos de Lottie, que me espera, adormecida na cama enquanto penso que ela me ouve.

Falo e falo sobre o dia, sobre a brisa da manhã, sobre a volta, o porvir e o amanhã. Mas, não, Lottie é só uma menina e já está dormindo há pelo menos uma hora num sono profundo, mas leve, leve... a mãozinha encostada no rosto, mechas louras perdidas por todo o travesseiro e o corpo todo desprendido do resto, como se flutuasse no ar, mesmo em cima da cama, atrás de mim. E eu, uma egoísta, tenho vontade de acordá-la, sacudi-la e contar tudo sobre o mundo, sobre todo mundo e lhe dizer que, apesar de, há esperança e “apesar de, se deve amar”.
Valentina Baker

sábado, 4 de outubro de 2008


do filme “o assassinato de jesse james pelo covarde robert ford”

jesse James, antes de matar um de seus comparsas, sob um céu escandalosamente estrelado, ouve dele:

- eu nem sei o que é uma estrela.

jesse responde:

- seu corpo sabe. é a sua mente que esqueceu.

e instantes depois o alveja pelas costas.


Rodrigo Madeira

quinta-feira, 2 de outubro de 2008


Salmodiando

Telefone em punho
aos gritos.
Frio e touca o olhar perdido na fonte (praça?)
Feliz Aniversário,
Tainá!

Deisi Perin

Praça Tiradentes

Foto by Angela Gomes

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Praça Tiradentes


" As sombras da cidade se admirando no espelho da praça."
WN
Foto by Angela Gomes

Delírio

No pensamento a tua ausência é leve.
A tua ausência é lisa, tua ausência é rasa,
e desmancha-se no meu corpo em brasa
como inúmeros brancos flocos de neve.

Nos meus sentidos dados à minúcia
a tua ausência tem um peso de aura,
um porte de musa, uma doçura rara,
silêncio de prece, delirante fragrância.

E ela é tão suave, mesmo sendo constante
que às vezes em devaneio me surpreendo
dando atenção à idéia errante

de que existe um elo permanente.
E nem por força da vontade me desprendo
da sensação de que estás presente.

Iriene Borges

http://www.bardoescritor.net/ezine.html#Del%EDrio

domingo, 28 de setembro de 2008

Imaginário do Envolvimento/ Desenvolvimento

XV Ciclo de Estudos sobre o Imaginário
Congresso Internacional 7 a 10 de Outubro 2008
Park Hotel / Hotel Vila Rica - Recife - Brasi

Mesa Redonda II
Coordenação: Gloria Kirinus – pós-doutoranda CEAQ/Sorbonne
Tempo de Maradigmas

Gilbert Durand coloca, a respeito do “trajeto antropológico”, que a tensão entre dois pólos é responsável por qualquer dinâmica sociocultural. Envolvimento e desenvolvimento são aqui considerados como pólos entre os quais estão incluídas as dimensões da vivência que diz respeito a diversos campos: o político principalmente, mas também o da consciência de cada um quanto às suas responsabilidades sociais, tais como, questões éticas, morais e inclusão/exclusão social. Não se trata pois de estabelecer mais uma dicotomia, mas de perceber estas dimensões como polaridades dinâmicas.

O tema surgiu no Ciclo de Estudos anterior que tratou das dimensões imaginárias da natureza, onde se pôde observar, entre outros, o tratamento dado à natureza em função de projetos de desenvolvimento. Por outro lado, observa-se que os governos vêm propondo planos de desenvolvimento sustentável e de crescimento acelerado. O que significam estas propostas em termos de vivência e de futuro do planeta?Na imprensa e nas publicações científicas têm se multiplicado as críticas a esse desenvolvimento dito sustentável*. É assim que em 2003 é publicado um livro de Stéphane Bonnevault “Desenvolvimento insustentável. Por uma consciência ecológica e social”, onde ele diz “se ninguém escapa ao desenvolvimento, é que o ocidente autorizou-se a embarcar, sem aviso prévio, o resto do mundo em sua cruzada aberrante, o crescimento econômico a todo custo, sem se preocupar com os amanhãs – que estão longe de ser radiosos, senão para alguns raros privilegiados. Deveríamos nós deixar comprometer o devir do planeta para que alguns possam impunemente assegurar seu delírio de dominação da natureza e satisfazer os desejos de seu gigantesco ego econômico?".Quando se trata de sociedades não industrializadas, a tônica da vivencia é o envolvimento: diz Virgílio M. Viana em seu artigo “Envolvimento sustentável e conservação das florestas brasileiras” *, a respeito dos caiçaras: “Des-envolver para as populações tradicionais - não apenas a caiçara - significa perder o envolvimento econômico, cultural, social e ecológico com os ecossistemas e seus recursos naturais. Junto com o envolvimento, perde-se a dignidade e a perspectiva de construção da cidadania. Perde-se ainda o saber e com ele o conhecimento dos sistemas tradicionais de manejo que, ao contrário do que normalmente se pensa, podem conservar os ecossistemas naturais de forma mais efetiva do que os sistemas técnicos convencionais. O processo de degradação ambiental se acelera com a expulsão - às vezes violenta - das populações tradicionais de suas terras. Obviamente essas conseqüências do desenvolvimento não são coerentes com a busca da sustentabilidade do nosso Planeta. Segundo o dicionário Michaelis, desenvolver significa tirar o invólucro, descobrir o que estava encoberto; envolver significa meter-se num invólucro, comprometer-se. Dessa forma, poderíamos dizer que desenvolver uma pessoa ou comunidade significa retirá-la do seu invólucro ou contexto ambiental; descomprometê-la com o seu ambiente”. Considerando que os projetos de desenvolvimento dizem respeito a uma visão de mundo específica, e levando em conta as bases míticas destas visões, o objetivo geral deste Ciclo de Estudos sobre o Imaginário é discutir, a partir das dimensões simbólicas, arquetípicas e míticas, as relações entre estes dois termos relativos às diversas alternativas de organização sócio-econômicas ambientais.
Ambiente e Sociedade n.5 - 1999

quinta-feira, 25 de setembro de 2008


(in)significante

no limite da poesia
a palavra é sua canção.
ou um significar
que não significa
se não significar o som.

“silêncio”, por exemplo,
pede silêncio.
a palavra “pássaro” tem
o tatalar de asas dentro.
“sexo” é em si clandestina,
sussurrada pelos namorados
nas escadas e esquinas.
“jangada” é aquela
que vai, lenta,
levada pelo mar e pela brisa. etc.

não é o caso de “pulcra”.
apenas no dicionário
e na lapela do professor
“pulcra” é da elegância
a eruditíssima flor.
“pulcra”, dessas palavras
que significam em negação,
pois no interior de sua música
é fétida, repugnante,
em franca decomposição.

no limite da liberdade
as palavras, que voam
como aves selvagens
em seu próprio som,
estercam na calva
sisudez da semântica,
fazem pouco dos poleiros
da significação.


Rodrigo Madeira

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Mormaço

Pálpebra pesada
Da janela sonolenta
pende a fuligem preta

O castelo de nuvens
tornou-se borrão
na vista cinzenta

Mormacenta e embaçada,
atmosfera lúgubre
precede a tormenta

Opaca letargia
vai escorrer
da vidraça

Eu choro
sempre que preciso
de luzes

Iriene Borges

segunda-feira, 22 de setembro de 2008


você

eu que por pouco não sou transparente
apesar de minha solidez aflitiva
filho de todas as razias
eu que por mais um pouco seria invisível

que saio de casa para entrar no mundo
que enxergo, como henrika,
peixes nas poças de chuva

eu que sou um franciscano brutal
que alimento os pombos com parafusos
um relógio onde o tempo se estraga
que nunca superei as drogas
que não venci aquela paixão
que não posso ver uma mesa de cartas

eu que como papel entre
tragos de tinta
que tenho a chave para as praças da cidade

eu que bebo com os cavalos as águas estigiais
que oxido a lua de urina
que construí escadas que vão dar no teto – como
madame winchester –
que inventei janelas inacessíveis
construí mansardas sem alicerces
na mudança meus fantasmas
e uma mitologia de cães cegos

eu que sou esta florescência de miasmas
cuja alegria é uma careta
cujo sangue é de auroras
cujos ossos são de tijolos e a alma
de querosene

meu sonho será apodrecer
exalando música

eu que guardo uma gaivota na traquéia
que tenho cabelos no coração
e rins de diamante

que saio pelas ruas, charanga de calúnias
que vadio as estrelas
que desconfio dos poderes sobrenaturais
da linguagem
e ainda assim digo, grito desesperadamente as coisas
como arrastado por um desacampamento
de ciganos, como se uma guerra (ou uma saudade)
começasse por minha causa
como se um mágico tirasse moedas de minha
boca e as esferográficas guardassem a velha
herança das navalhas ruins,
como se houvesse fios de alta-tensão
entre nossos corpos

eu que vivo o precário vaudeville dos instantes
que aprendi a dar cambalhotas
com os bobos
de shakespeare e os retardados
cujo bom-senso é o estopim da combustão
cujo reino é uma cratera
cuja coroa é o nariz
do palhaço, e o assassinato um ressuscitar-se

eu que sou, às 4:00 da manhã,
a única janela acesa que me intoxico de deus
que perdi a identidade, o ônibus, a graça
e os sisos e o bilhete premiado
e o fio de ariadne,
a lembrança do inferno e do paraíso

e volto para casa sangrando
como quem assobiasse

eu que faço parelhas aos afogados
que sempre quis ser o poeta de tróia
o poeta da boca-de-fumo, o poeta de porta-de-cadeia
o poeta dos obituários, o poeta oficial das alvoradas,
o poeta oficial da vila hauer
e que, ao fim, não sou poeta oficial
nem de mim mesmo

eu que toco trombone
dentro de uma piscina vazia
eu que tenho queimaduras de terceiro grau
por dentro
que cato os rebotalhos da cultura materialista
e reciclo
do jeito que dá e não dá
e junco de esperança
todos os impedimentos

eu, exilado do país infinito
que manipulo venenos, que enlouqueço sozinho
um ser fronteiriço
entre azul e precipício
e subo a montanha
como um profeta que engoliu a língua

eu que escovo os dentes
com chuva e maçarico

eu, meu corpo
que tenho a espessura da vida
e o peso exato
de minha morte

eu
coluna de fumaça
espelho quando mente
ferragem retorcida
rosto em branco, sem traços (como um edifício ou um anjo
transitório)
minha cara inconfundível

uma palavra
(r
el
âm
pa
g
o) que não acaba nunca


Rodrigo Madeira

domingo, 21 de setembro de 2008


O Guardião das Horas

Não sou feito de aço,
eu enferrujo, por isso evito ventos fortes
lágrimas à toa.
Como da primeira vez.
Pareço feito de areia,
então escorreguei por entre seus dedos.
Mas foi a última vez.

Sou um bandido alado, impreciso,
roubo a substância do abstrato.
Me comunico em
panfletos colados nos postes, cartazes nos tapumes,
muros piccahdos, estampas de camiseta,
adesivo de carro.
Tenho apenas cincosentidos,
todos voltados para a contra-mão,
e mesmo assim reconheceria a sua voz até no inferno.

Eu viajei vezes e vezes por você
sempre um segundo atrasado
leve, leve, leve
e esperei...
as 7 voltas nas muralhas de Jericó
os 3 dias pela ressureição
os cem anos de guerra e solidão
os nove meses no ventre da tua mãe
mas somente aprendi as leis do tempo
quando li as linhas da tua mão.

A poesia não espera pela inspiração
o amor não espera amadurecer
a dor não espera o perdão
a fome não espera a sede
a vida não espera o fim do expediente
o sol nunca espera pela lua
e eu não espero mais por você.

Luiz Belmiro Teixeira

Primeiro de Agosto

Agosto nasce envolto
emplacenta fria
de garoa tóxica
saindo do ventre
do tempo que o pariu;

fuzis, pistolas e escopetas
dão boas vindas
ao cachorro louco.

Entre "clicks" e
giroflex, uniformes
e incubadoras
alternativas,
amamentado à diesel
e gasolina,
certificado e testamentado
à erva,
pedra e
cocaína.

Carlos Sousa

o inseto

o soneto
fechou-se à
verborréia,
fez careta

ao discurso
tem agora
o hemistíquio
dos insetos

dissecados,
e entreabriu-se
aos desvãos,

por mais mínimos,
como quem
se abre ao mar.

2
o inseto de
palarva e tinta,
multiplicado
por suas asas,

despega da
margem esquerda.
magro e comprido,
no afã de ser

fero e revivo,
deixará a página
(conta se morre

pouco depois?)
pelas paredes
sem transcendência.

3
antes de pousar
de uma vez por todas,
o sonitinseto
revela-se inteiro

à sanha suctória
nas dermes da vida:
imos, méis e conas.
morto, vai feder

quase impercebido:
micromiliabismos
seu registro no

papel será como
a abelha esmagada
correndo no vidro.

4
ou a fribólise
carne do susto,
e não do sono,
mil folhações.

duma crisálida
renascerá:
sangue de tinta,
asas-sulfite,

a carnadura
de gosma e âmbar.
para queimar

no ar e nas veias,
como um veneno,
como o verão.

Rodrigo Madeira

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

domingo, 14 de setembro de 2008

A velhice renova o terror até ao infinito. Ela faz regressar o ser, sem cessar, ao princípio que entrevejo à beira do túmulo é o porco, que nem a morte nem o insulto podem matar em mim. O terror à beira do túmulo é divino, e eu afundo-me no terror de que sou filho.

Georges Bataille.