terça-feira, 6 de março de 2012


É com a despedida do sol que os ratos jorram dos bueiros desesperadamente. Não podem mais queimar as patas com o concreto quente, não podem mais ficar cegos com a luz insuportável. Surgem exemplares de várias castas – há os ratos filhos de outros ratos, que apesar da linhagem pura, são os mais sujos, e os bastardos, que podem ser filhos de leões ou cavalos de carga, mas não se intimidam com o ambiente não familiar e vão compartilhar com os outros a dor que é não se encaixar muito bem onde nasceu.

Não há mais aquele holofote gigante para apontar qualquer movimento deselegante. Não há mais as senhoras e famílias com crianças e pessoas decentes lançando seus olhares inquisidores sobre todos os sem padrões. E mesmo que haja, os ratos são mais numerosos. São maiores. A pequena sombra concedid...a miseravelmente pelo sol cresce e toma todas as ruas.

Então o mundo é deles. O opressor agora – Ah, doce vingança! – são eles: os ratos. Bêbados, chapados, trincados, espumando de loucura. Todos em sua própria sintonia, diferentemente dos leões e cavalos. Todos fazendo transparecer seu interior, ao invés de escondê-lo atrás de uma boa aparência, morais e discursos preconceituosos. Esfregam merecidamente sua individualidade na cara da parcela disposta ao lado direito da balança social.

Entram e saem de suas tocas sujas, reviram o lixo, brigam entre si, bebem, fumam, cheiram, trepam, comem qualquer porcaria barata – alguns devoram as baratas propriamente ditas – que conseguem comprar com suas poucas moedas ou acham por aí esquecida no canto de algum poste de luz.

Então a manhã ofusca sua visão, o chão começa a ficar morno, o ar torna a se mostrar cada vez mais careta. É hora de voltar para os esgotos e esperar que a noite chegue mais uma vez. Serão reis novamente.

("Estudo sobre os Ratos")

Matheus A. Quinnan

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ossatura IV

uma bela boca, que carne contra carne apela?
os ombros, que arqueiam ou esquadrinham?
e bundas, barrigas e pernas?
e volumes?
volúpia?
dispamos o pudor
que a gente existe é para revestir os ossos
até que a morte nos convide a despi-los

Luciana Cañete
http://deusdobravel.blogspot.com/

domingo, 19 de fevereiro de 2012

eletro urbe fagocitoz

Gigo, Gigo

.
o tempo se dobra
com humor vítreo
engole o cronômetro
cospe o rolex

há gnose livre pelo ar

o ontem que já foi amanhã
se despe atrás do biombo
como se fosse hoje

bendizemos o chronomancer
batemos os dedos
na pele de seu tambor
em leque

a gnose flutua
gueixa com pavões na seda
de sua face

entre oriente e ocidente
dançamos
com o conde de saint germain & nietzsche

o conde está morto
nietzsche está morto

bang bang bang
fotamecus

ocultista e filósofo
nos sorriem
com suas mandíbulas de pixel

perdemos a hora
na acústica de um flash

espectro de cabala

no ecrã do movimento
poliedro
dos moinhos

há um coringa
no baralho
paralelo & luminoso
dos instantes

subconsciente

com ele
imantamos o jogo do tempo

o colapso na asa de uma mosca volante
é a prece

garbage in, garbage out
amém
.

Andréia Carvalho
http://habitoescarlate.blogspot.com/

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Rua Emiliano Perneta - Curitiba

rua com nome de poeta, e todos os poetas são pernetas.
Eu tenho saudade de Curita; conheço bem essa rua e a atravessei milhares de vezes; saudade de atravessar cada rua daquela cidade como fosse a minha própria cidade!
Curitiba, tambem é Rio de Janeiro.

T.S.
a
branquérrima pele fina
sem pelo do hermafrodita
- ex-homiceta
ex-homigina
ex-laleska -
à POLAQUINHA TRAVECA de utilidade pública
- face fácil para a saliva espessa
do celibato.

Por qué seremos tan perversas, tan mezquinas
(tan derramadas, tan abiertas)
y abriremos la puerta de la calle al
monstruo que mora en las esquinas, o
sea el cielo como una explosión de vaselina
(...)
por qué seremos tan desparratadas, tan obesas
sorbiendo en lentas aspiraciones el zumo de las noches
peligrosas
tan entregadas, tan masoquistas, tan
(...)


Bianca Lafroy

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Rua Duque de Caxias - Largo da Ordem - Curitiba

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

o suspiro da chuva
angustia a manhã.

O sol não se percebe só
sabe da presença pura
e ácida lágrima
amarga da fábrica
sangue translucido da natura.

O pranto seco das mães estéreis
sonham filhos de almas recusadas
acefalia falando aos espíritos
todas as ausências de todas as cores
do sol negro da fábrica a germinar
pastagens de espumas em lagos sulfurosos
em cada fio de fumaça um fantasma
como aquela criança pálida coberta de pústulas
que brinca em sua margem.

O amanhã.

Wilson Roberto Nogueira

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

estudo mineral para uma jóia

carbono elíptico.
único.
puríssimo (a sujeira toda da vida).


                               modo artificial de fabricação:


                               a) carvão
                               b) brasa
                               c) cinzas
        
                               d) o cheiro feroz nas roupas


* a última clivagem é restar,
                                do cheiro feroz,
uma lembrança


2. 


in natura


a gema


(anterior às 58
facetas) não veio


das minas negras de angola
nem arfou nas mãos
de lapidários belgas.


não foi desentocada
meticulosamente das
entranhas da terra;
              
por cuspe de gêiser mais
que fundo de cava,
da entranha das entranhas
     
prorrompeu:
                    


                           3.                            


verruga de
diamante, rastro de lesma,
pingente: lágrima quase invisível
no pescoço infinito
da mulher


Rodrigo Madeira
http://rodrigo-madeira.blogspot.com/

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Centro Cívico - Curitiba

Urbe[m] Samsara

Escatológica cosmogonia
a cada quadra

Urbe[m] Samsara

que pouco você vê
re significada

a cada Cosmo [de]

subjetividade
individualizada!

Ricardo Pozzo

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vila Capanema - Curitiba

Odd Man Out

A Mario Alberto Bautista

Bom. Agora escreverei as palavras para que você se entretenha com o exercício
de sublinhar.

Puncione a ferida no pulso esquerdo.

Vem do coração o sinal, a lenha, com a qual levarei ao ar este sinal
de fumaça.

Solidão amanhecida, manhã solitária, a sanha e nada nada nada nada.
Nada nada.
Nada nada nada nada nada.

Sublinhe a palavra que não corresponda:
nada nada nada nada nada nada tudo.

Sim, sublinhe tudo.
Circule o não circulável.

(O sinal.
A ferida futura no pulso esquerdo. Puncione).

Aqui eu fico.


Eduardo Hidalgo/ tradução Ricardo Pozzo

domingo, 5 de fevereiro de 2012


Incêndio da favela Moinho, região dos Campos Elíseos - São Paulo

Ao mendigo da Travessa da Lapa, que tirei do meio da rua por medo de que fosse pego pelo Biarticulado

Eu queria dizer que te respeito, camarada
Por ter lutado contra a servidão
Por escolher a pinga ao invés da enxada
Pela calçada à linha de produção

Emerson Peretti

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


B.O.

contrabando 
operação pássaro de cinco asas


numa rápida e ligeira atuação da polícia federal, no centro histórico de curitiba, foram apreendidos cem quilos de argumentos falsificados, uma porrada de discursos retóricos vencidos, teses mal fundamentadas, estética parnasiana, um sofista perdido no tempo e mais dois intelectuais da área de ciências humanas com baixa produção acadêmica.



Giuliano Gimenez

sábado, 28 de janeiro de 2012

chuva de verão. o domingo não tem margens. e olha eu aqui ensaiando uma orquestra de beijos, pedindo para dormir na parte de trás de seus joelhos. meu cérebro é um fosso, no fundo dele reside um bando de crocodilos vorazes sem cérebro. fazer o que se tenho a saudade frágil? isso vem da época em que eu tinha miragens nos olhos em vez de pupilas e retinas. chuva. e esse domingo é um péssimo dia para eu estar assim tão católico. francamente... faz muito tempo que não entendo absolutamente nada de nada, e não sei o que é a poesia. só sou um piá de bosta romanticão, meio punk rock meio vanerão, que a todo momento precisa justificar ao seu melhor amigo: ela só pode ser mutante, cada vez que a gente se encontra está mais bonita. devo falar isso fazendo a cara mais estúpida da terra, com a língua de fora e os olhos um pouco vesgos. malditos superpoderes (os que ela tem). tá bom, mais detalhes: ela tem a voz um pouco rouca, não bebe, não fuma (cigarro nem maconha). ela nada três vezes na semana (essa parte talvez seja mentira). ela só lê alta literatura, mas muito lentamente (vai que a cama de uma mulher solteira é a dor dessa mulher solteira). é inteligente e não é pedante. ela não tem um pai (nem irmão) filho da puta (isso ajuda). gosto do seu cheiro e de sua educação desajeitada. talvez ela seja mais doce do que precisaria. ela lembra muito a Penélope Cruz (isso talvez não bata bem). ela não é evangélica, nem santinha. ela é mais assim: seio bonzinho, seio malvado. e fica mais frágil em dias de chuva. bem, não sei mais o que dizer, às vezes acho que ela me ama menos do que ama o seu guarda-chuva (cito). ah, eu não devia escrever essas coisas e correr riscos (minha mão é o meu coração). mas domingo é um dia oco (Clarice, também tenho direito). sei lá, talvez eu seja um merda. talvez eu não seja o seu fodedor. sabe, o que a gente não consegue ser é também muito o que a gente é. talvez eu não passe de um seu cãozinho, seu rex. mas pelo menos hoje meu nome seja relax.


Luiz Felipe Leprevost

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Trabalhador da Prefeitura de Ipanema/ Pr

O Bico do Cisne

Ela queria achar sua tesourinha dourada de ponta de bico de cisne, mas somente achou chaves, umas chavinhas graciosas em um maço de três, dentro de um saco com velhos vidros e jarros, que foram todos para o lixo, e um cadeado vermelho, também com chave e um bichinho de pelúcia que ela mesma fizera, com um olho maior do que o outro. Ela pensou que talvez sua mãe tivesse um jeito mais doce e funcionário público de ser segura do que seu pai liberal e comunista angustiado,  que diferença fazia isso agora ao defrontar os fracassos da vida, mais um será possível, mas o fato é que o suco de mirtilos lhe parecia insuportavelmente artificial.  Tudo lhe parecia artificial.  Um suco colorido, continha anidrido sulfuroso, como ele dissera assim na lata.  Será que isso era uma tinta, uma cor, um gosto, um cheiro, um nada. Unhas passando pelo vidro.  O saco de velhos artesanatos continha vidros de amostras da Deirolle, Paris. Que coisa mais poeirenta e insuportavelmente poética, ela sabia que nunca, jamais poderia se desfazer dos frascos da Deirolle, sob pena de ser amaldiçoada para sempre até cair de vestido dentro de um córrego e morrer afogada com todos os cabelos flutuando ao seu redor.  O vestido era verde. O seu cachorro estava ficando cego mas mesmo assim os vaga-lumes brilhavam no jardim e tentavam entrar pela janela para morrer aos poucos apaixonados pelas lâmpadas elétricas.  Eles tinham o corpo comprido com duas listinhas como tantas sementes de girassol ; todavia, apesar de serem apaixonados pela luz, não brotavam quando plantados, apenas se deixavam ficar em passiva nitidez na estante branca quando ela os achava de manhã, pegava-os na mão e os colocava para fora, agarrados a uma folha da palmeirinha anã. Resignada com a cegueira remelenta, sem muito o que fazer, ela catou os Deirolle de volta da lata de lixo onde jaziam em meio a cascas de abacaxi. Rezando para o que o sol não os esturricasse, mas agora era noite, ora essa que brilhassem. Os vaga-lumes, não os frascos. Por que será que tudo isso era tão difícil as lágrimas iam escorrendo bobamente pelo travesseiro e ela via que as nuvens passavam, passavam na verdade muito rápido e havia as luzes de um avião entre elas, que passavam também, na direção oposta até que o quarto parecia estar voando. O cachorro cego talvez ainda fosse possível salvar, uma impossível dívida na veterinária que lhe dava chocolate na boca, mas os monstros de feltro velhos agora jaziam semi-mortos cheios de traças e nem mesmo a tesoura de ponta de grou ou de qualquer pássaro do bico pontudo ela não conseguira mais achar, para retirar uma etiqueta áspera que lhe agredia a nuca como um beijo de barba crescida. Quem dera. Uma simples amizade perdida. Qualquer lojinha barata de armarinhos resolvia isso em menos de cinco minutos. Era ela que o deixava tonto, ele dissera. A etiqueta raspava e ela jogou a blusa na cesta de roupa para lavar. Pronto.


Cláudia Lopes Bório

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ipanema / Pr

Fizeste bem em sair, Arthur Rimbaud!

Fizeste bem em sair, Arthur Rimbaud! Teus dezoito anos refratários à amizade, à malevolência, à estupidez dos poetas de Paris, assim como o ronronar de abelha estéril de tua família ardenense um pouco louca.  Fizeste bem em lançá-los para longe, colocá-los sob a lâmina de tua guilhotina precoce. Tiveste  razão para mudar o boulevard dos preguiçosos, as tabernas dos mijadores lírios, o inferno das bestas, o comércio dos astutos e o bom-dia dos simples.

Este impulso absurdo de corpo e alma, esta bala de canhão que atinge seu alvo fazendo-o explodir. Sim, a vida de um homem está bem no além! Não se pode, ao deixar a infância, estrangular indefinidamente o próximo. Se os vulcões pouco mudam de lugar, sua lava atravessa o grande vazio do mundo e lhe outorga as virtudes que cantam em suas feridas.

Fizeste bem em sair, Arthur Rimbaud! Nós somos daqueles que acreditam, sem provas, que a felicidade é possível com você.


René Char/ tradução do francês de Mario Bojórquez/ tradução do espanhol Ricardo Pozzo

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Fragmento do caderno poético [Urbe Fago Cito Z] de Ricardo Pozzo, lançado no Vox Urbe do Bar Wonka, janeiro de 2012!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

FICÇÃO - ananse (textos e imagens)


laguinhos brincam de balanço

no crochê de fio de prata

lendo as estórias de Ananse


Texto e foto: Susan Blum de Moura

domingo, 8 de janeiro de 2012

Ipanema - Paraná

sábado, 7 de janeiro de 2012

o silêncio vai raspando a pele  até cortar a veia do sentimento
o sangue verte irrigando  o sofrimento
que germina novas luas
de plácidos rostos em lagoas puras.

Jogo o anzol e só espero o prateado brotar peixe
faminto  não sinto dores nem o clamor da fome
não vejo a lua me olhando triste no fundo do lago
só o peixe  essa moeda da minha angústia.

palavras são foices ou seda, lã ou adaga
em mim elas saem como desespero de peixes
numa lagoa a secar no olhar de prata da lua
O sorriso plácido do silêncio é uma adaga

um sorriso que corta sem saber
corta o ar da gota prateada que se fez peixe
e não sabe por que seu mundo está a secar.
talvez ele já não saiba mais amar.


Wilson Roberto Nogueira

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Dicas para se visitar lugares sem fazer uso de papel moeda ou cartão de crédito

1. Relativizar a distância proposta e escolher entre pegar carona ou o atrevimento de ir caminhando.

2. Vigiar a noite.

3. Repousar de dia.

4. Cuidar para que não roubem seus calçados.

5. Frequentar os melhores restaurantes pela porta dos fundos, de preferência após as 14 horas, para almoçar sobras.

6. Improvisar talheres.

7. Perceber que o que é pouco pode tornar-se suficiente pois até a sobra pode faltar.

8. Usufruir o vento no rosto.

9. Discernir que a sobrevivência é feroz apesar de consistir naquilo que é simples.

10. Abdicar do rigor da higiene.

11. Consequentemente, abdicar do flerte.

12. Não frequentar estabelecimentos comerciais pela porta da frente, a não ser que esteja necessitando de adrenalina, porém aguente consequências.

13. Aguentar consequências.

14. Usar do filtro lúdico ao perceber olhares de estranhamento, pois eles diminuirão na medida em que você se tornará invisível.

15. Contemplar estrelas.

16.  Ao mesmo tempo, aguçar os sentidos frente aos perigos, ou seja, revitalizar o selvagem.

17. Escolher o coletor; abdicar do caçador.

18. Compreender a diferença entre o desprezo, o menosprezo e a compaixão*

19. Destilar as horas, sabendo que só há o hoje, cingido entre duas refeições [se houver sorte] e um lugar seguro para repousar.


Ricardo Pozzo

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

‎''E eu descobri: os portos de madrugada
preservam o exalar da recordação
daqueles que nunca caminharam por suas vielas."

Leandro Vicelli
Só deitando um pouco
no chão frio.
Apenas colando
a cabeça na terra
úmida e com cheiro forte
... de ferro.

Só encostando a alma
nas paredes do inferno,
ouvindo o fogo praguejar:
''não venha,
não chegue perto,
fique bem longe".

Apenas ouvindo
o crepitar
da lareira do mundo.
Cada estalo
é um passo meu
rumo ao infinito.
("Crepitar")

Matheus A. Quinan

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Dois poemas de Rafael Walter


Paisagem

disse-me que só o vagar lhe permitia 
a constância

não queria a certeza
queria a dúvida
expandida em caos e absoluto

a poeira contava o caminho,
não sabia dizer ao certo de onde viera
e  seguia

como poucos centavos no bolso festa ele fazia
dizia que viemos nus ao mundo
e que nada sabemos mesmo
e o resto era infinito

andava torto feito um ponto de interrogação
para endireitar os caminhos
seguia o vento
numa melodia
feito viola pela vida


haikai escatológico

escarro,  porque já não resta nada
e esse vício de saliva,  de esvaziar palavras
e emudecer o solstício ou a alvorada

Rafael Walter

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Praça Generoso Marques - Curitiba

Três Espadas

Ela lhe fala que existiu, trespassada por três espadas
Ele lhe faz sopa de letrinhas
Ela lhe fala que viu tempestades, ao chegar
Ele lhe faz molho de figos
Ela lhe fala que viveu em poeira, em dor
Ele lhe diz que há prazeres reservados
Ela lhe fala que trabalhou com as mãos
Ele deixa a louça por lavar, singelo
Ela lhe diz que sentiu as três espadas
Ele abre um livro, navio passando
Ela lhe diz de espinhos, de cabelos arrancados
Ele lhe diz de velhos cães, de poesia
Ela lhe diz de uma certa cura
Ele lhe serve torta, a massa trabalhada
Ela o beija, sincera, tonta, temerária
Ele espera, espera, espera, espera
Ela se espraia, como praia
Ele fica, e vem, como o navio ao cais


Cláudia Lopes Bório

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

quem se import?

Sid-Friaça (Pseudocanto III)

Sid-Friaça
sentado num canto do Madrugada
relata os lances que o fizeram
subir ao ascetismo.
Sid-Friaça
conta
sempre
com a sorte
pra pagar a conta.
No banco do boteco fétido
esconde e educa a prole
(a ser também asceta).
Por longos anos mourejou
na Índia, em Goa, em Moçambique,
levado pela esquadra do Restelo,
na empresa finda que o poeta canta
e que o Queirós queria reatada por Ramires.
Agora seu pendor heróico é morto
pelo excelso maquinário que o domina.
A fábrica.
A vida confinada
em meio ao torno e o ponto do relógio.

Sid-Friaça come
as moças mais insanas
de beleza e sina
oferecida aos gajos
que caminham retos
pela ponte de Bouvard
Moças gordas como pelicanos,

feias e disformes, com as banhas podres,
misto de deboche e maquilagem.
moças magras e miúdas,
pequenas e ossudas
como garças desesperadas,
gralhas presas atrás de grades.
Moças que debalde se oferecem
quando passo classe-média no Passeio.
Mas Sid não, que não é disso;
é forte e rijo
tomador do biotônico da vida
e da desesperança.
Sid ensina a todos que não há saida.
Que a moça oferta em frente à réplica
do pórtico do cemitério de Cães da cidade de Paris
é tão boa meretriz e faz gozar
como qualquer puta que há
no antro mais famoso e fino
de Campinas e Curitiba.

Sid-Friaça heróico
Sid-Friaça, ressurgido do Restelo
receita que somente presta a embriaguez noturna do bufão errante:

"A névoa não esconde todo o cinza da manhã
Seus olhos já revelam esta grave inquietação
Os ônibus lotados de fumaça e de cigarro
fedendo-lhe a miséria como lixo e como merda (...)"

Sid-Friaça
Vive
no Hades, com Elpenor.


Paulo Bearzoti, de Fator X (Cadernos Militantes nº 12, Curitiba, novembro de 2011)

domingo, 11 de dezembro de 2011

No Cabaré Verde

às cinco horas da tarde

Depois de uns oito dias a pé, perdi os coturnos
No caminho. Mas entro com tudo em Charleroi.
No Cabaré-Verde, torradas são o que há,
Com manteiga e presunto, em pedidos diurnos.

Feliz, estico as longas pernas sob a mesa
Verde e contemplo os toscos e rudes motivos
De uma tapeçaria. — Que agradável surpresa
Quando a vi, suas enormes tetas e olhos vivos.

É ela! Não existe um beijo que a apavore!
Risonha, traz a refeição sem que eu implore:
Manteiga muito boa, num prato do caralho,

Presunto róseo perfumado pelo alho.
Depois traz a cerveja, sem fazer farol
Pela espuma brilhante como um raio de sol.


Rimbaud
Outubro de 1870 (16 anos)/ tradução Antonio Thadeu Wojciechowski 10/12/ 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

LÉO 6

A Solidão

Eu venho de um outro mundo,
outro bairro, outra solidão.
Hoje como hoje, eu me crio atalhos;
eu não sou mais um de vocês,
tenho o aspecto dos mutantes; biologicamente me dou cabo
com a idéia de que sou feito da biologia: mijo, ejaculo, choro.

Antes de tudo
devemos elaborar as nossas idéias
como se fossem artefatos. Estou pronto para os moldes.
Mas ...
A Solidão...
Os moldes são de uma nova matéria, advirto,
estão fundidas desde a manhã do amanhã.
Se você não tem, deste dia o sentido relativo
da sua duração,
é inútil se atravessar
é inútil procurar
à frente de você,
porque de frente para trás, a noite é dia
mas...
A solidão...

a solidão, a solidão, a solidão !!!

Antes de tudo
as lavanderias automáticas,
aos ângulos das estradas
são impertubáveis
assim como o vermelho e o verde dos semáforos.
Patrulhas de detergente
irão declarar onde será possível
lavar isso ou aquilo que você crê.
A consciência não é outra
senão uma sucursal daquele facho
de nervos de que lhe serve o cérebro.

E portanto...
A Solidão.

O desespero é uma forma superior de crítica,
por agora nós a chamaremos ''felicidade'',
porque as palavras que vos usam
não são mais do que palavras; mas uma espécie
de condução através da qual os analfabetos têm a consciência posta.

mas...
A solidão....

Do código civil falaremos mais
tarde. Por ora eu queria
codificar o incodificável
queria medir o poço de São Patrício
de vossas democracias.
Queria imegir no vazio absoluto
e me tornar um não dito, o não advindo, o não virgem
por defeito de lucidez. A lucidez
a tenho
nas calças, nas calças.

(Poema de Léo Ferré)
tradução: Tullio S.B. Sartini

AVISOS

Em caso de incêndio
não utilize elevadores
use escadas
salvo instrução contrária

Não fume
Não jogue lixo
Não defeque
Não ligue o rádio 
salvo instrução contrária

Por favor, Aperte a Descarga
Após Usar o Sanitário
Exceto Quando o Trem
Estiver Parado na Estação
Seja Atencioso
Com O Próximo Passageiro 

Avante Soldados Cristãos
Trabalhadores do Mundo unidos
não temos nada a perder, mas a nossa vida
Glória ao Pai
.............................. E ao Filho
ao Espírito Santo
salvo instrução contrária

A propósito 
afirmamos estas verdades evidentes
que todos os homens são iguais
que foram dotados por seu criador
de certos direitos inalienáveis
entre eles a Vida
Liberdade

......... & a busca da Felicidade

E por último mas não menos importante
que 2 + 2 são 4
salvo instrução contrária



Nicanor Parra/ de Poemas para combatir la calvicie. Antología. (Santiago, 6ªed., Fondo de Cultura Económica, 1998)/ tradução Ricardo Pozzo

sábado, 3 de dezembro de 2011

O pequeno burguês

Aquele que quer ir ao paraíso
Do pequeno burguês deve trilhar
O caminho da arte pela arte
E tragar porções de saliva:
O noviciado é quase infinito.

Lista do que você precisa saber.

Dar, com arte, o nó da gravata
Fazer deslizar o cartão de visitas
Sacudir por luxo os sapatos
Consultar o espelho veneziano
Estudar-se de frente e de perfil
Tomar uma dose de conhaque
Distinguir uma viola de um violino
Receber visitas de pijama
Evitar a queda dos cabelos
E tragar porções de saliva.

Tudo deve ser arquivado.
Se sua esposa está entusiasmada com outro
Recomendo as seguintes dicas:
Barbear-se com navalha
Admirar a beleza natural
Farfalhar um pedaço de papel
Sustentar uma conversa telefônica
Disparar um rifle
Fazer as unhas com os dentes
E tragar porções de saliva.

Se deseja brilhar nos salões
o pequeno burguês
deve saber andar sobre quatro patas
Espirrar e sorrir ao mesmo tempo

Dançar valsa na beira do abismo
Endeusar os órgãos sexuais
Despir-se na frente do espelho
Desfolhar uma rosa com um lápis
E tragar toneladas de saliva.

A tudo isso uma pergunta
Jesus Cristo era filisteu?

Como se vê, para alcançar
O paraíso pequeno-burgues
É preciso ser um acrobata completo:
Para chegar ao paraíso
É preciso ser um acrobata completo.

Não admira que o verdadeiro artista
Entretenha-se matando libélulas!

Para quebrar o círculo vicioso
Recomendam ato gratuito:

Aparecer e desaparecer
Andar em estado cataléptico
Dançar valsa nos escombros
Embalar um ancião nos braços
Sem tirar os olhos de seus olhos
Perguntar a hora à um moribundo
Esculpir no oco da palma da mão
Apresentar-se de fraque aos incêndios
Lançar-se com o cortejo fúnebre
Ir além do sexo feminino
Levantar a laje funerária
E ver se, dentro, cultivam árvores
Atravessar de um lado a outro
Sem referências ao porquê ou quando
Somente pela virtude da palavra

Com seu bigode de galã de cinema
Na velocidade do pensamento


Nicanor Parra


De [Versos de salón] (Santiago, Nascimento, 1962) tradução Ricardo Pozzo