terça-feira, 24 de novembro de 2009

Informes Culturais Poeteias

MEDIEVAL:

Olá, os convido para mais uma apresentação de música medieval.

TABERNA FOLK - Cosmópolis, Sp
(Música Medieval)

Abertura com:

Vevila Veldicca - Curitiba, Pr
(Música Celta)

Dia 28/11/2009 - 19:00h - Centro Paranaense Feminino de Cultura R$10,00
(Rua Visconte de Rio Branco, n° 1717 - Centro - Curitiba/Paraná - Fone: 3232-8123)

Ingressos antecipados à venda para o dia 28: De Kroeg Bar (Av. Jaime Reis, 320 - São Franciso - Curitiba)

Em frente ao estacionamento do Ópera 1.

Também pelos fones: Henrique: 9914-5547 / Robson: 9608-8721 / Eduardo: 9671-1923

ou pelo e-mail: folkloricstorm@gmail.com

Ingressos no local APENAS na hora do evento.


Dia 29/11/2009 - 18:00h - Café Parangolé R$07,00

(Rua Benjamin Constant, 400) - Fone: 3092-1171(próximo a Reitoria da UFPR)


HAVERÃO
Camisetas e CDs a venda nas datas das apresentações
 
Lúcia Gönczy

sábado, 21 de novembro de 2009



Curitiba

Informes Poeteias

- aos amantes da poesia:


"Um novo projeto que visa colocar em evidência
a poética curitibana, incentivando a produção
literária e a narração da poesia"


O evento será quinzenal. Estarei lá com minhas poesias ao lado do poeta Edson Falcão, nesta primeira edição.

- Edson Falcão publicou dois livros de poesia:

- As musas do Canal Belém
- O Ossário de um Ferreiro.

Prepara seu terceiro livro para breve.

...

Café, Leite Quente e Poesia

O Sublime x O Pitoresco

Edson Falcão e Bárbara Lia

dia 21/11
16h

Café do Paço - Paço da Liberdade
Praça Generoso Marques, 189
Curitiba - PR -



Bárbara Lia

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

MIOPIA SOCIAL

Anoitece
e o último quadro pardo,
um homem comum
maquiado de escravo,
gravado...
na impressão de quem esquece.


Do singular que caminha,
do transeunte...
o que cambaleia nos rumos dos sapatos
e borda a rua
às vezes sem destino...


Ri dum cansado
como quem suspira.
Trágico ensaio,
como quem suporta
a morte eterna batendo à sua porta.


Altair de Oliveira
– In: Curtaversagem ou Vice-Versos.

cantos gregorianos

décima 1


poetemos o PT:
se quando ética existia,
sarney era uma rapina,
vigarices da mercê,
agora força esquecer.
lula na verdade é polvo,
sépia nos olhos do povo,
espreguiçando os tentáculos
por onde lautos repastos:
remessas, repasses, soldos.

décima 2

só se relaxando o esfíncter,
leva-se no magro cu
da boa-fé – norte a sul –
fala-falo/em-falso-em-riste.
alma e virtudes de pinscher,
ocultando ossos no armário,
cagando mole no erário:
à Postiça Social,
mau-caráter carnaval,
só com surra de caralhos.

décima 3

ou se com boa boquinha
de chupeteira na teta,
uniforme de estafeta
onde a Estrela Boazinha,
anjos co´asas de galinha;
só com sangue de chacal,
rigor de débil mental,
no refeitório das ONGs
prum miojo com mensonge,
pra concluir: “menos mal".


Rodrigo Madeira

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


Você

Ainda me falam de você. As mesmas garotas que um dia treparam comigo. Elas não sabem o quanto você significou pra mim. Não sabem o que eu ainda sinto. Acham que vou aos bares pra flertar e me divertir. Uma porra. Eu vou pra fugir de mim. De Deus. E de todo mundo. De um mundo todo que me assusta. Assusta tanto quanto assustou àquele cara com cabelos loiros e casaco de lã. Aquele que deu um tiro dentro da boca. Dá medo. Essas garotas não sabem de nada. Nunca souberam de porra nenhuma. Quem sabia era você. Sabia tanto que me deixou assim. Desarmado. Desamado. Aimeudeus. Agora invento palavras e não me importo com nada. Por onde você anda? Ah, eu sei. Isso não é da minha conta. É que eu sempre me importei. Minto, fingindo que não ligo. Mas, penso em você todos os dias. Desde o primeiro. Não sei se será assim até o último. Isso ninguém sabe. O que sei é que todo homem tem uma mulher pra lembrar. Uma que ficará pra sempre ali, guardada. Sempre com uma tristeza que não cessa. Mesmo com filhos, esposa e família. Sempre tem uma mulher que fica na cabeça. Aquela que fodeu sua vida em algum momento. Todo homem tem uma mulher pra lembrar pro resto da vida. A merda é que eu acho que já tenho a minha.


Wilton Isquierdo

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Cáustica


você tem razão
quando diz que está
me fazendo mal

ainda bem...

afinal, o que seria

deste meu
incauto vício de lutar
guerras perdidas?

e deste oscar
de pior roteiro adaptado
o que seria?

the day after
ocaso, o caos, apocalipse
então?

pois é...

você tem razão
quando diz que está
me fazendo mal

garçon:

por favor
outro coquetel de dores
na mesa oito


RAUL POUGH

Efêmera

I.

Vênus veio.

Um oi,
um x,
um selo.

Depois foi...
O adeus de um deus do amor
nunca me foi tão terreno.


II.

Seus olhos exalavam tanta vida
que ao vê-los
achei que salvaria a minha
Seus lábios foram tão quentes
com tão pouco
que quis tê-los para sempre.


III.

Vênus taurina
por que chegaste na minha vida
se já estavas de saída?


Adriano Smaniotto

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Advérbio de intensidade terminado em mente


Devia ser umas onze horas. Ligou o chuveiro e tirou a roupa bem devagar para que a água tivesse tempo de esquentar. Entrou de uma só vez, viu a tinta preta dos seus cabelos escorrendo pelo corpo. O mundo é mesmo uma merda. Ela não queria tomar banho, só ficar ali. Sentou no chão e a água começou a bater absurdamente quente nos seus joelhos, deixando-os vermelhos. Masoquista. Como as músicas que ouvia para ficar mais triste. Como roer as unhas até sair sangue. Unhas. Gostava delas carmim como estavam porque parecia mais puta, logo mais despudorada e confiante e moderna e confiante e feliz. As putas deviam ser felizes. Desespero. Procurou algum resquício de ilusão. Gostava de se iludir, de sentir-se falsamente protegida por alguém que pouco se importava com a sua existência. Existência. Se tivesse uma banheira, cortaria os pulsos e morreria afogada na água vermelha, como naquele filme. Começou a rir sem controle, porque na película a menina suicidava-se ao som de alguma coisa da Mariah Carey. Ou seria Whitney Huston? Estúpido, not for her. Ela queria morrer com estilo. Edith Piaf, talvez. Então pensou nas manchetes dos jornais baratos: jovem desiludida corta os pulsos em uma banheira ouvindo Piaf. Precisava de um papel para escrever um bilhete para alguém. E não podia ser um bilhete qualquer, mas sim, um como aquele do Almodóvar. Espero que nunca me entenda, porque se compreenderes estarás tão desesperado quanto eu. Alguma coisa assim, não lembrava direito. E tinha aquela cena com vinil, Ne me quitte pas e uma frase qualquer bonita. Seus joelhos estavam ardendo. Desligou o chuveiro e saiu. Não tinha uma banheira.


LETICIA FONTANELLA

leticiafontanella.blogspot.com

sábado, 14 de novembro de 2009


película digitalizada

Crepúsculo

Apresentei dia desses a um camarada meu de Curitiba, algumas das famosas praias do Rio de Janeiro: Flamengo, Urca, Leblon e Arpoador, interessante, pois já me sentia pouco à vontade ou desacostumado com vários aspectos bem próprios dos litorâneos, inda mais dos cariocas e fluminenses, meus conterrâneos, as vezes cidadinos tão vaidosos de seu litoral, cuja fama e beleza é proporcional a desfiguração da cidade, mascarada para o mundo de Globo e Olimpíada. Contudo, aqui existem pedras e existem orlas, praias onde não fiz castelos de areia, mas, caminhei sobre os avatares do horizonte; a mais de seis anos não subo os mirantes que dão ornamento às encostas e quebra-mares, que, para mim sempre foi a parte mais fascinante de um litoral, assim como a marisia da noite; ironicamente nem mesmo os meus pés se equilibram naquelas pedras com a mesma flexibilidade de antes, me esqueci até o simples hábito de lavar o chinelo no mar e tirar a areia enquanto se anda descalço no calçadão, ex-carioca mesmo; revisitar um lugar, parece uma nova permissão, a distância nos veta a presença física, regressos, somos licenciados da distância, no entanto agora, apesar da licença, sinto-me embargado no estranho deslocamento da memória. Por fim, tivemos o brinde amargo do calor e o crepúsculo de um sol anátema;dizem os metereologistas que estamos sob um pico extraordinário de calor, provavelmente dirão o mesmo ano que vem.Ah o sol,causticamente desolador, implacável tal qual o amanhecer que te chama para o cotidiano e não para o mar, esse mesmo sol gerador do calor que de tão quente morrerá como o escorpião suicida quando cercado pelo fogo; sossegados, isso é para daqui a dez bilhões de anos, ele se transformará em carbono e tudo será uma senescente estrela anã branca.

Tullio Stefano.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009


Galo

Em cima do telhado apontando para o Norte,
está o galo sossegado.

Não liga para mim nem para a sorte.

Passa dia, passa ano,
e o galo ali parado
sempre tão altivo e forte.

Às vezes a vida se torna
vazia e solitária,
e o galo pensa na morte.

Ele que parecia tão decidido, ensandeceu.

Virou repentinamente para o Sul
Duvidando dos ventos.

Será que este galo
Está tão perdido quanto eu?

Deisi Perin

informes poeteias


sábado, 7 de novembro de 2009

Ensaio

guardei teu azul
nas vidrarias e na porcelana.
no cadinho, coloquei para secar.
teorias e ensaios.
teu azul coloriu de sonho
o que não havia para sonhar.
acordo mudo mútuo refratário.
no cadinho, coloquei para secar.
no laboratório de ensaios
as vidrarias quebradas
as cruzes retorcidas
tudo já foi usado.
em qual vidro restará
o que não foi apagado?
em qual estudo ressurgirá
do cadinho de porcelana trincado
o resto da tinta do teu olhar?

Angela Gomes

quinta-feira, 5 de novembro de 2009


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Terra Deserta

NALDOVELHO

Terra deserta de sonhos
não se presta ao cultivo de gente,
e as coisas que ali acontecem
alimentam sentimentos estranhos.

Por lá não florescem gerânios,
samambaias desmaiadas padecem,
azaléias ressequidas não crescem,
e o que nos resta é semear desenganos.

Em terra deserta de sonhos,
o canto dos pássaros destoa,
as horas de tão lentas enjoam,
e o dia nunca amanhece.

Vidas desertas de sonhos
não se prestam ao cultivo de homens,
que por dias, meses e anos,
aprisionados às sombras não crescem.

Profana


A cor do amor é branca,
e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto
e o amor me olha como alguém
que jamais vai tirar a minha calcinha
e gozar o céu dentro de mim.
O amor sempre vai me olhar
como se eu estivesse num altar de papel.
Para o amor, eu sou uma rima
e rima não tem vagina.
Para o amor, eu sou uma ode
com uma ode ninguém fode.
Eu sou um verso alexandrino
jamais tocado pelo herdeiro deste nome.
Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus
Deus ninguém come, mas,
será que beber
pode?


BÁRBARA LIA

in: NOIR (edição independente - 2006)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Você é o que consome ?

sábado, 31 de outubro de 2009

Letras Celestiais

caído do céu poema azul
ácido pássaro
abatido de gozo e riso
banido do paraíso
ferido em tombo preciso
letra de fado
ritmo de samba
soar colorido
feito blues
de branco tingido
que deus me prove
vai que o céu é mais ao sul
e deus me love
e deus me livre
de ser eu
a besta do após calipso
vai que eu sei
que viro a mesa
luso-afro-brasileira
de madeira nobre
expondo os restos coloniais
desta nação de hipócritas
mostrando o rastros
desta história corrompida
vai que sei
não estou só
e não é só meu esse nó
e esse bom gosto
na língua.


rodrigo mebs


visite: http://frutafarta.blogspot.com

quinta-feira, 29 de outubro de 2009


Humano

Agora,
não igual aos instantaneos
amarelecidos
que fixaram o já visto, sou.

Sagrado & obsceno
Obscuro & sereno, em Si.

Ricardo Pozzo

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Bubble

Aqui não tenho destino; enxergo, ainda faminta, um pequeno cristal rompendo a penumbra daquelas noites tão ensurdecedoras. Desses dias moídos, o corpo gritando inutilmente, - um alento - a pedra ou a faca vertendo o céu em um prazer único, aquele que nunca virá. Recortes de construções, reformas paleozóicas, grandes passos contorcendo o corpo e chegando à Europa, distante... Noites próximas: na minha reconstrução, o que virá? Ouço o silêncio dos flashes, pequenas ondas quebrando na areia e o distender do joelho esquerdo, enquanto o direito jaz. Juntando sempre pedacinhos de papel, pois a palavra é sem destino, tanto quanto isto aqui, e a mão que conduz, e o corpo derretendo a cada instante quando "não" e ainda se precisa estar. Uma expansão ressonante, enquanto a menina densa encolhe seu corpo e acomoda seus cabelos sobre o travesseiro, o sol chega batendo nas plantas, chacoalhando as asas, engolindo o canto dos pássaros, destruindo a percepção de anteontem e estremecendo as pálpebras. A mão branca feito papel e recheada por um labirinto febril e nervoso que pulsa: a íris ainda é multicolor.

Petit J

http://aospecadossilencio.blogspot.com/

Deus afia a espada no dorso do esquálido firmamento e abre um buraco vermelho no céu, primeiro caem as cabeças dos justos, depois cai Ícaro e suas asas são negras vertigens - o desassossego do anjo que grita como asno enquanto avista o buraco azul no centro da terra, onde as sombras agarram-se às frestas esperando a morte de suas consciências, entre a lava e o dilúvio nenhuma árvore erguida, os olhos dos homens arregalados ou fechados para sempre.

Camila Vardarac

http://vaga-lumens.blogspot.com/

domingo, 25 de outubro de 2009



Praça Tiradentes - Curitiba

sábado, 24 de outubro de 2009

E-ma il


----- Original Message -----
From: Antirreformista
To: Reformista
Sent: Saturday, October 24, 2009 3:18 PM
Subject: O Sequestro do Trema


não, não me interessa

a garota de ipan ema
as tranças da irac ema

o trem pra saquar ema

o whisky no gogó da ema
o canto enduetado da siri ema

a clara, tampouco a g ema

a pomada pra ecz ema
pra h ema toma ou ed ema

ema ema ema emador, quero ver depressa...

o incenso azul da alfaz ema
amalgamado na fumaça do cr ema tório

se o tal rômulo realmente r ema

se o fígado do ad ema r
requer epocler ou epar ema

se minhoca é macho ou f ema

definir o esqu ema
escolher o estratag ema

se - ordem e progresso - é l ema

entender o teor ema
sobreviver ao sist ema

se bell deu aquele telefon ema

se me repito em fon ema
estereótipo ou embl ema

se tudo é questão de s emâ ntica

se engordou a emma thompson
ou se i ema njá ema greceu

se eutanásia é razão extr ema

pra um roteiro de cin ema
talvez, quem sabe, um po ema

não; não discuto nenhum t ema

só me incomoda um dil ema
um único probl ema:

o sequestro do trema
 

RAUL POUGH

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Oficina de Crônicas


Na próxima quarta-feira, dia 28/10, no Paço da Liberdade (Praça Generoso Marques), terá início uma Oficina de Crônicas, ministrada pela escritora Gloria Kirinus. Terá duração de 4 semanas (4 quartas-feiras), no horário das 19:00 às 21:00. Sem custos! Inscrições no local ou por telefone, 3234-4207, com Elisson ou Liliam.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Desterro


imagens passam como póstumas
obras de um cinéfilo desvairado entre os anjos
estrelas de sangue e luz brotam da tela
quanto se tange o inatingível
quando se tinge o intangível
e o possível é só coincidência
ou lembrança destas bestas que me cercam
ciência só já não me explica
imagens lavram o poema
e a palavra fogo
trança os olhos de quem pensa
pensando o quê mero poema
palavrinhas são areias
destas praias tão estranhas
pensando o quê mero poeta
que entre folhas entre galhos sóis e sombras
caminha um monge nada casto
enquanto uma lua virgem e nua
lhe adorna a testa
pensando o quê mero palhaço
que entre montanhas verdes e dunas
o monge claro escorre quase líquido
e carrega em seus braços uma sereia de sal
e suas pegadas profundas e largas
são lagoas e mais lagoas de mágoas
imagens varam a retina
e a escrita cristalina já não existe em meio ao sangue
a areia então vermelha vira mangue
e quem sabe entre os carangueijos albatrozes e abutres
haverá um deus pra traduzi-las

Rodrigo Mebs

por quê, meu filho


Eu comecei a ter fome. Foi assim, pai, que tudo começou. Pé de moleque no bar da esquina não matava as bichas. Não mais. O senhor sabia que cedo ou tarde eu ia partir por essa bandas aí acima com o peito aberto de cicatrizes ao vento, desbravando o morro de Vera Cruz. O que foi que encontrei pelo caminho, ainda me pergunta. Onde tu, pai, foi que me jogastes? Eu te pergunto. Euzinho! Num oásis imenso feito por encruzilhadas que nunca mais acabava. Fui simbora, sim, convicto, não conto ao senhor? Caminhei léguas alternando a noite e o dia, um após o outro, sol, chuva, frio, intempéries; dormindo sobre paralelepídedos, catando o que comer, fumando bitucas, até chegar ao cume do que ambicionava. Lá, os dez mandamentos como o senhor prescreveu. Habitei-me na escuridão da noite de dentro das cavernas vazias de estrelas entre lobos, ursos, chacais e morcegos. E habituei-me sem as palavras. De quem é o coração mais selvagem? Por ti, pai, para provar a sua morte e a minha glória, sangrei os dedos ao escalar a colina, cuspi no cálice pra ter o que beber; comi até o Bambi, numa das noites de lua cheia e uivos caninos, pai. O senhor não acredita? Pois não? Eu blasfemo e muito sabe o senhor enganado que com esta taça de barro, esta mezona de carvalho trincado ao meio, este cachimbo, o fogão a lenha mais a tentação de Maria do Rabo Rico na cozinha, podem me comprar. Engana-te, velho! Seu eu conseguisse me despregar daqui de cima, ah! se eu conseguisse, eu mostraria ao senhor com quantos paus se faz uma cruz de ponta cabeça e riscaria no chão, em nome do Capeta, o Curumim. É.


GIULIANO GIMENEZ

aguerradasimaginacoes.blogspot.com/

Ex(cripta), nas estrelas?


Casou-se com um arqueólogo que a trocou por outra múmia. A caminho do Egito, para restauro, foi resgatada de naufrágio por pescador que teima haver encontrado uma sereia. Naturalmente enrolada, necessita de um oftalmo que a oriente para o ocidente, onde a sua alma repousa no sarcófago sem o seu grito, digo, mito.


ANGELA GOMES

domingo, 18 de outubro de 2009


(...) Bem que eu tentei despistar a governanta...


porém a poesia pinup poppins veio voando de sombrinha
___e um verso jason me perseguiu até o fim da linha –
tinha uma rima ali muito na sua que também tava na minha
___feito alguma avezinha suavezinha que se avizinha
quando você já despachou o vizinho e refugou a vizinha
___só pra ler sossegado o seu jogo da amarelinha
e aí chega a sua gostosa atrás do açúcar que você nem tinha
___e então vocês passam a noite toda trocando figurinha,
lendo, anotando, interpretando e comentando
___a carta de pero vaz de caminha

Ivan Justen

ossurtado.blogspot.com/
 

sábado, 17 de outubro de 2009

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Submerso...


Sem mais cansar-se...
Assim, mais adiante, digo a mim mesmo para hoje ouvir...
Enquanto árvore e sorriso de polvo, entre recifes de sonhos...
Pois o fundo se expressa onde sem mais pressa existe-se...
Nas razões sem luz, nos mundos nascidos na escuridão profunda...
Distantes do que se sabe por consciência...
Onde não se sabe, onde multidões semiológicas aproximam-se e afastam-se...
Sais de logos são partículas na fluidez do imenso...
E o movimento entorna, revolto com toda a intensidade por onde quer que exista...
E no inteiro de seu som, recortam-se pedaços de silêncio profundo...
Onde movem-se uma infinidade de céus...
As criaturas incomunicáveis em presença fazem-se todas uma...
Assim, submerso posso experimentar as imagens que se criam...
Na imensidão de instantes...
Onde em cada recorte do silêncio, em cada fragmento de silêncio está uma pintura...
Em ânimo próprio, tais fragmentos do silêncio autorecortam-se e unem-se...
Sempre de modo inusitado...
Há em cada uma de suas partes o desvio do entendimento...
E a percepção nas profundezas afóticas, se apresenta...


MOSIAH SCHAULE

terça-feira, 13 de outubro de 2009

domingo, 11 de outubro de 2009

Pensão não, barraco!


O sr e sua aposentadoria esperam no barraco;
A noiva abre o zíper.
Chove lá fora, alaga ainda mais.
Tem barro, limo, sujo.
As mães não dão mais banho aos sábados nos piás;
Jogam o lixo o cachorro Uóchitom Buxi boiando com a barriga inchada.
A noiva fecha o zíper,
Sai do barraco,
Na poça reflete a porta do carro abre.
Abre o zíper:
A noiva cospe,
Corre de manhã pra casa do piá tem cherinho e as pedras que ela quer.
Bate cinza na lata furada,
Os homens da noite que acaba viram fumaça,
O chão do quarto é seu espaço.
O fantasma Chico admira a noiva da janela a lata vai além:
Pousa no Belém.


RODRIGO CECCON

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Plágio


A campainha barulhenta tocou. Odiava quando a campainha barulhenta tocava. Aliás, devia estar velha mesmo: odiava qualquer coisa que não fosse boa música ou bom filme, ultimamente. A campainha barulhenta tocou de novo. Vestiu uma camiseta e foi atender.
– Oi.
– Oi.
– Oi.
– Eu estava com saudades.
– Eu estava dormindo. Entra e fecha e porta.
Beija. Com sono, com pressa, sem vontade. Ele ainda fala:
– Passei pela loja ontem e vi um disco do My Bloody Valentine. Lembrei de você, mas, tava caro. Um dia eu compro pra nós.
– Cadê a merda dos meus cigarros?
– Aqui.
Acende, coloca uma música para tocar.
– Hey, você comprou o disco dos Smiths?
– Comprei. Surtos consumistas. Odeio consumismo.
– Me beija.
– Eu estou fumando agora. Espera.
– Eu não ligo.
– Eu não quero.
Algum tempo e o silêncio. Ele não consegue suportar:
– Terminou o livro?
Cinzeiro em uma mão, começou a arrumar as coisas no lugar.
– Não, dormi. Acho que vou ao médico, semana que vem.
– Está sentindo alguma coisa?
– Sono. Odeio sentir sono.
– Todo mundo sente sono, não precisa ir ao médico. Está sentindo mais alguma coisa?
– Não. Vou ao médico, odeio sentir sono.
– Devem ser esses seus remédios...
– Eu não vivo sem eles. Quero outro para não sentir sono. Tem remédio pra tudo hoje em dia.
– Tem Buscopan.
– Assistiu ao filme ontem?
– Sim.
– Ok. Não conheço mais ninguém que nunca tenha visto Fellini.
– Não exagera.
Colocou vodka pela metade num copo de estrelinhas. Terminou o cigarro.
– Quer?
– Quero. Eu gosto de você.
– Eu sou insuportável.
– É. Mas, eu gosto de você.
Sentou no mesmo sofá que ele estava sentado.
– Eu sou insuportável e tenho sono.
– Cala a boca.
Ele a beijou. Ele sorriu. Ficaram abraçados por alguns instantes. Tonta, levantou para fazer café.
– Quer café?
– Não. Eu queria você.
– Clichês agora?
– Pra te fazer sorrir.
– Odeio clichês.
Ela levantou e foi até a cozinha. Estava incomodada, olhava para a água fervendo no micro-ondas. Café solúvel, leite desnatado, adoçante. Voltam para o mesmo sofá. Ele a beija. Ela o beija. Daqueles beijos devagar, mordendo os lábios, com os olhos abertos para poder olhar. Deitam-se no chão. Ele tenta beijá-la. Ela olha para o teto.
– Não vivo mais sem micro-ondas.
Ele continua beijando.
– Eu tive um sonho engraçado essa noite.
Ele continua beijando.
– Pára.
– Desculpa.
– Eu tive um sonho engraçado essa noite.
– Você não dormiu à noite.
– Modo de falar.
– Você estava com alguém ontem?
– E se estivesse?
Ele sorri:
– Eu não iria embora.
– Eu não faria isso.
Mentira. Tinha problemas com relacionamentos: não conseguia ficar com ninguém porque alguém melhor podia aparecer.
– Com o que você sonhou?
– Coisas estúpidas.
– Não vai contar?
– Não.
– Por que começou então?
– Não comecei. Odeio contar sonhos. Preciso dormir.
– Posso dormir com você?
– Não sei.
Mais tempo e mais silêncio.
– Ok, fica. Mas, eu preciso dormir.
Deitam, ele a abraça. Ela sorri e fala:
– Ok. Eu gosto de você.
Ele sorri.


LETICIA FONTANELLA

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Ibiscos

Ibiscos
Entre raízes, caules e folhas me perdi,
na fotossíntese entendi
sobre flores e inflorescências aromatizadas
polinização fertilizada
frutos carnosos
frutos secos
germinação e reprodução
plantas de deserto
plantas aquáticas
carnívoras, epífitas e parasitas.
__ Esse pedúnculo vem sempre aqui?
Estigma de aluno aéreo.
__ Você está com o estame de fora!
Zero em biologia
Já pra secretaria
Nem te ligo
Floema e xilema funcionam bem...

Deisi Perin

domingo, 4 de outubro de 2009

Dicas Culturais Pó&teias

Amigos,


mando o link do Karaoke Coral na Gazeta: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/sobretudo/
se puderem comentem no blog sobretudo, quem sabe não ganhamos uma matéria no dia 07?


Beijos e espero vcs la!



Celeste Fernandez
www.karaokecoral.com

sábado, 3 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Mais uma noite sem sono


É estranho estar acordado na escuridão. É como estar consciente sem saber do quê. A lâmpada fluorescente é como se fosse a lua, e o interruptor a primeira estrela no céu. Dizem que, quando vemos uma estrela no céu, às vezes ela não está lá. É que ela fica tão longe, mas tão longe, que a luz leva alguns milhares de anos pra chegar aqui. Se todas as pessoas, quando ficassem deprimidas, pensassem que as estrelas podem nos pregar esta peça, talvez deixassem escapar um sorriso, nem que fosse o riso frio dos que riem só pra mostrar que entenderam o raciocínio, mas ririam assim pra si mesmas, como quem raciocina sozinho, ao ler um texto, por exemplo. Ler um texto é sempre muito solitário, sobretudo quando se vê, pelo reflexo da janela no seu monitor, que constroem muros do outro lado da rua. Mas, cá entre nós, que sabem eles das estrelas? É uma questão de lembrar que uma estrela existe, mesmo que esteja bem longe, e que ela pode brilhar, mesmo que não exista. Sim, porque as estrelas têm o humor que só os suicidas sabem ter, os suicidas que deixam sobre a mesa apenas um bilhete engordurado dizendo "fui", talvez "adeus" e quem sabe até "I love you, I love you, I love you". E o leitor que não ria: sofresse da insônia que eu sofro, também transformaria seu quarto num planetário, onde há apenas a lua e uma estrela, que não existe. Mesmo que descobrisse depois, num artigo de Astronomia, que era tudo mentira. Afinal, que sabem os astrônomos das estrelas? Talvez eu ainda possa contar esta história num desses muitos momentos da vida em que nos falta assunto. Quero dizer, não quando se está conversando e a conversa esfria, digo quando nos falta assunto a nós mesmos, quando se está sozinho no escuro, às três da manhã, e não há mais nada pra pensar. O telefone está cortado, ninguém irá ligar e dizer: "eu sabia que você estava acordado, eu também estava..." Não, o telefone já não pode inspirar mais esperança que uma lâmpada fluorescente. Logo mais, às quatro horas, o jornaleiro virá de moto e eu ouvirei o som do jornal caindo no chão, e o barulho da moto irá diminuindo, diminuindo, até sumir. E eu finalmente fecharei os olhos, devagar, e pegarei carona com o jornaleiro. E iremos, então, até o infinito.


OTÁVIO KAJEVSKI JR.