domingo, 16 de julho de 2017

AS ABORDAGENS



A uma lanchonete pequena cheguei, cumprimentei as poucas pessoas que estavam lá, pedi uma cerveja e como já conhecia alguns iniciei um bom bate-papo.
Pouco tempo passado, eu ainda na primeira garrafa, chegaram dois fardados que entraram, olharam nossa cara, os cantos do estabelecimento e embaixo da mesa de sinuca localizada no centro daquele espaço. Saíram sem nada perguntar ou dizer, mas, com cara de poucos amigos. O silêncio que tinha tomado conta do ambiente começou a se dissipar.
Dois rapazes que estavam mais próximos ao portão da lanchonete foram para fora e andaram até a curva da esquina, olhando para onde tinham ido, e de onde vieram os dois fardados.
Retornaram rápido sob meu olhar e dos amigos que estavam perto de mim. Disseram apenas: estão voltando, e se sentaram de novo, onde estavam.
Chegaram os dois fardados e mais outros três com armas em punho, direcionadas a nossas cabeças, gritando: mãos na parede, abram as pernas vagabundos:
- Tem alguém armado?
- Você neguinho, tem passagem? - (não se tratava de passagem de ônibus para os desinformados e afortunados por nunca terem ouvido isso com a gentileza costumeira).
Coturnos encontrando tornozelos, como fazem os zagueirões pra defesa dos goleiros... no meio do campo, com a força dada por Deus.
Uns aiai, senhor..., outros gemidos..., uma perna solta na tentativa de aliviar o impacto foi percebida. O dono dela recebeu um gancho na costela. A geral foi dada entre o medo e terror do que poderia nos acontecer. Esculacho..., seria o de menos. Infelizmente já vimos e vivemos coisas piores, em outras ocasiões como esta.
Passada aquela ação truculenta, alguns foram embora, sentindo falta de dignidade e um com costela quebrada, mas..., vivos.
Calejado após muitas luas, pedi outra cerveja, porque, a primeira tinha esquentado. O dono da lanchonete me atendeu e pediu desculpas, como se ele fosse o culpado daquele tratamento. Eu disse a ele para ficar tranquilo, que estava tudo bem, mesmo sabendo que aquilo não era natural, apesar de ser normal em todas as periferias, pois somos apresentados cedo àqueles tipos de profissionais do estado.
O bate papo reiniciou com lamentações, mas, bola pra frente..., e massagem nas canelas.
Um tiozinho chegou e logo foi desafiando todos, a uma disputa na sinuca, mas, em melhor de três. Claro que arrumou um oponente e o clima começou a melhorar. Com isso desceram mais cervejas, conhaques, rabo-de galo, amendoins...
Palpites começaram a surgir como se o Rui Chapéu, estivesse ali, instruindo um aluno, fazendo sempre um dos jogadores ficar com raiva, enquanto o outro sorri. Minha cerva era a terceira.
Já tinha dado algumas risadas também, afinal tinha sido pra isso que fui à lanchonete..., bater papo, tomar uma gelada e me divertir, principalmente, com a derrota dos times de futebol..., dos outros, mas, como tem dias que parecem noites..., dobraram à esquina outros homens fardados. Alguns deles a pé, e alguns a cavalo. Os cavaleiros ficaram em frente à lanchonete, apostos, os outros entraram, com armas à mão, mas, apenas dois deles, sendo que não tinham nossas cabeças como alvo.
O que entrou primeiro pediu os documentos e verificou um por um, com outro fardado ao lado, que tinha uma metralhadora niquelada em punho, mas, mantinha um olhar tranquilo.
Chegando minha vez, ao se aproximarem entreguei a identidade que conferiram e um deles perguntou de quem era a mochila sobre a mesa. Respondi que era minha. Ele pediu para abrir os zíperes e olhou todo o interior. Esticou a mão, pegou um objeto que estava no fundo e perguntou:
- Isso aqui e do seu filho?
Respondi que não, que aquele objeto era meu. Tinha comprado de um artista de rua. Um artesão que faz lindas obras de arte com alicate e arames. (Era uma aranha com o dorso de pedra vermelha).
Ele pediu para fechar a mochila e foi se afastando com a aranha metálica na mão. O guarda-costas dele, sempre ao lado. Chegando à porta da lanchonete, retornou a minha direção, esticou a mão sorrindo e me devolveu a aranha metálica.
Saíram, ele, os cavaleiros que estavam do lado de fora, o guarda costa e os outros fardados, tranquilamente, nos deixando com a mesma paz que estávamos, antes da chegada deles. Fizeram o trabalho que tinham a fazer e nos desejaram, boa noite. Todos desejamos o mesmo.
Existem fardados que se orgulham de servir, proteger e fazer corretamente, o que escolheram de oficio. A eles, todos os cidadãos de bem, desejam as bênçãos de Deus.

Marcio Gleide Nunes dos Santos
Curitiba-PR 16/07/2017

Revisor: Olinto Simões


domingo, 9 de julho de 2017

Procuro no esgoto um quilate de ouro.Não esgoto nenhum sonho que bate à porta até cair.
D'outro lado o lodo revela o peso d'uma morada de sórdidos escombros a morder
um'alma moribunda.
Procuro no esgoto o sol de um olhar que não seja de abismo tal qual este cá que estou a cair.
Quilate d'ouro está no dente dos meus dias.



Wilson Roberto Nogueira

sexta-feira, 30 de junho de 2017

“Paizinho”...!?


-Sim “mãezinha” ?!

-Vamos fazer um “incestozinho”?!

Com esse tempero o casal transou como não desde o momento em que ela dera a Luz, jazem lustros.Os gritos da mulher acordaram o filho que assustado,subiu para socorrer sua mãezinha;assim que se deparou ,emudeceu,correu até um cinzeiro no criado mudo e estava prestes a bater na cabeça do peludo que a estava machucando quando ela gritou o nome do menino e o pai virou-se ; recebeu o golpe na fronte e desmaiou .O menor ficou desesperado e chorava convulsivamente "papai,pai..."A mulher transtornada ,colérica urrava enquanto cobria-se e pegava a pesada cinta que vergastava com a fivela as costas do "parricida"."Você não é meu filho, aberração,não pode ter saído de mim,monstro!"Contudo não demorou de se cansar de bater e, agarrou aquela trouxinha humana largando-o dentro de um orfanato.O corpo da criança chorava o que seus olhos fundos já recusavam.

Quando ela voltou pra casa quase morreu ao ver o marido de pé ; sofrera apenas um desmaio ocasionado pelo esforço anterior e o susto de ver o filho pronto a agredi-lo, quanto a sangueira toda, o pivetinho acertara uma veia,já tratou (era médico ) .Agora sentia seu útero rasgar pelo que tinha dito e feito ao seu único filho, enquanto o pai perguntava onde o molequinho tinha se escondido, ele procuraria uma maneira de explicar que não estava "machucando " sua mãe.

Desesperada contou para ele o que tinha feito com seu primogênito .Levantou a mão para bater nela ,mas a trouxe para junto de si e entre os seus braços procurou confortá-la.


Foram ao orfanato.Manhã cinzenta ofegando fumaça.Bateu no portão o pai explicou a freira o ocorrido.Entraram no quarto onde a criança estava .Com os olhos afogados ,com as mãos vermelhas com róseas gotas de suor ela implorava balbuciando perdão para o filhinho que afirmava "Essa não é minha mãe , meu pai morreu ".

(O que uma mãe teria feito nessas circunstâncias ? )Seu peito sangrava , a dor era tanta que era ficara cega por alguns momentos ,dilacerada.O marido a carregou para fora daquele lugar.sem saber se um dia aquela fina lâmina cortara os laços de sangue.O garoto aceitara a 'orfandade " sem pesar.

Quando seus pais iam sendo engolfados pela névoa e o portão a se fechar...Jogou-se do leito para o chão e não sentiu mais nenhuma dor correu , correu atrás daquela possibilidade."ser adotado por uma nova Família " .

Wilson Roberto Nogueira

O filho de 22 anos do policial aposentado, foi surpreendido por uma saraivada de balas; morto por policiais. Filhos talvez de ex-colegas de seu pai. Ele, o elemento ,preparava-se para assaltar um empresário estrangeiro ,que despreocupado passeava com a amante no parque pouco iluminado. A polícia descobriu por intermédio de informante,o qual cobrara pela delação uma pedra de crack. O pai convalescente da químio aguarda para morrer.Tem pressa para inquirir o filho. Onde eu errei !





Wilson Roberto Nogueira
O PM verificou o pente e o encontrou sem balas.Queria provar seu amor incondicional a amante.Ele a levou ao motel.Depois das preliminares,sacou a arma e disse que ia provar o quanto a amava.A bala estava na agulha.



Wilson Roberto Nogueira
Estava a caminhar. A sola apaixonou-se pelo asfalto,
grudou nele como que a beijá-lo, e, seu dono lá de cima,pensou:


"tenho o que comer no almoço, que belo filé!"




Wilson Roberto Nogueira
Ela estava no supermercado e lhe perguntou se ele lembrava daquela música...


Absorto em seus pensamentos não respondeu; recordava que Anna outro dia insinuara para assistirem a uma película.Sutil convite desconversado por seu bolso vazio e orgulhoso.Puxando o carrinho conduzia para mais uma escada longe do coração dela,o qual resfriava-se à porta de saída, com um pé a sair e outro com pena de si por ter perdido tanto tempo.




Wilson Roberto Nogueira
No denso lençol de água


ele foi tragado para o útero da Rua dos Chorões.

Dia cinzelando lagrimas em Curita.

Wilson Roberto Nogueira

Afogados na Cidade 
Na calçada ao lado da sua companheira de trabalho o motoboy é assistido por algumas pessoas.



Em volta, como velas humanas de devoção a banalidade.



"A ambulância virá em um minutinho".



"Você chamou ?".



"Não , a bateria do meu cel acabou. ".



"Bom, pelo jeito ele pode esperar."



"Você sabe,eles não tem responsabilidade, um dia isso tinha que acontecer mesmo a um deles".



"Vai ver mereceu"



"Deus do céu,não fale assim !".



"E eu aqui no chão tenho que ouvir isso, e ninguém me escuta !"



Chega a ambulância e partem todos, menos o morto que partira antes ou estavam todos ;voltando a suas casas como fantasmas sem lançar sombras aos passos .



Wilson Roberto Nogueira


Feliz ano novo Quim querido !
Joaquim olhou no fundo dos olhos de Maria e disse "Não me lembro, quem é você?"
A moça virou-se e foi embora dizendo baixinho,com o sal de sua alma "quinzinho...".
Ela vivia em sua memória e seria eterna enquanto ele vivesse, enquanto ele vivesse.
Viver já não vivia e para fazê-la viver sua própria vida decidiu matá-la na memória
Arrastava sua existência de bar em bar e a encontrava sempre no fundo do copo
desde que acreditara tê-la visto numa sombra de paixão com outro alguém ou com outra ?Agora ela voltara como um fantasma.

Caminhava na chuva sem enxergar sob o lençol de gelo fino da manhã ,ensopada olhou para trás ,
para o espelho que refletira seu amor .amor que era só dela.

Wilson Roberto Nogueira

Urbe Cínica II
Perder alguém e cair a fixa muito tempo depois é f..a.

Mas já estou acostumando-me com a idéia. Hoje

em dia é tão simples, basta deletar.Farei isso a partir

de algum dia da semana semana que vier.

Ao menos rendeu uma crônica. Mini-conto ?

A vida um mini-conto rasgado e molhado pelo suor da alma.

Algo eslavo " mas não cigano.Ex sou algo ou o ego agora me engoliu

de um vazio que não sonhara até a hora em que ela partiu.

Que ela vá para puta que a pariu. Não. Ela pariu uma puta dor e sumiu.

Ela não sente nada. Lava a vadia com água o sangue que derrama,

finge drama e mata mansamente com gelo e sobras doadas.

Levar o que da lembrança. Lavar.

Lavar , mas se rasgar não perderei as letras

as letras voam na minha janela enquanto o tempo corre

e fico parado com meu olho do coração .Morto.



Adeus ...



Bang !!



(Faroeste na tv)




Wilson Roberto Nogueira
Dentro da tela do computador moravam mensagens de amor e amizade.
Precisou de uma mão; de um não quando se jogou da janela.
Sua foto foi parar no zétube com milhões de acessos.
O espelho da fama da jovem modelo banhada de vermelho.

Wilson Roberto Nogueira

-Aquela motorista !


-Qual motorista?

-Você foi pra lá e tinha uma motorista do bus...?

Os franceses não são simpáticos com quem não fala francês.”Pardón,s'il vous plaît"



A motorista que fumava feito uma chaminé e dirigia xingando os outros motoristas até cair o cigarro na calça e...ela não gostou

Homem, O que você  está esperando?

O bus passar com outra motorista, bonita e que não fume;

agora só vejo aqueles de cara de travesseiro amassado;

já algum tempo longe do sol, sabe como é...? estou igualzinho !

Disseram que preciso andar no parque, enquanto tiver sol...

Quando sai, vi um gato imenso de gordo que subiu com espantosa agilidade o muro de uma casa.Perguntei, como é que o chinês não viu .Quantas esfihas não daria !Fiquei com raiva. não consigo mais me abaixar sem que minhas costas protestem.

Wilson Roberto Nogueira


O cano de um revólver na cabeça de um aluno em frente a escola.Correria,angústia, desespero.Trocam passos incertos ,pés em todas as direções sob pernas tremulas.Ouvem tiros que explodem no desespero do silêncio, imaginando dor e sangue, que sentem em suas entranhas.Pavor.Professores como pastores tangem seu rebanho para a segurança (?) das salas.Professoras procuram armários inexistentes para se esconder, alunas gritam e choram sem saber, sem ver.Do alto de uma janela a diretora impassível perscruta o drama.Homem armado ameaçou aluno, mesmo sendo esse aluno o Maeda, não merece tal violência.As vísceras do infortúnio sorriem, um prazer sádico abre uma avenida nos lábios da professora de português.Enfim era só um policial à paisana.
Mais um dia rotineiro da escola brasileira.

Wilson Roberto Nogueira


Os dentes da madrugada curitibana rangem enquanto uma montanha de panos velhos aproxima-se de um apressado pacato burguês e sua sacolinha de remédios."Uma moeda por favor ".Sem desviar o rosto da estrada deserta, responde:"Lamento,minha última moeda gastei nos meus remédios ".Não perde seu precioso tempo procurando algum rosto entre aqueles trapos ambulantes e levanta o braço mostrando a sacola da farmácia, enquanto com a outra em punho cerrado ,aperta a moeda com a efígie do presidente JK. Passos apressados na escuridão sem o farol dos carros ,passa a andar no meio da rua.Como o tempo pode ser tão longo!


Wilson Roberto Nogueira

sábado, 29 de abril de 2017

Sexta Extincão

O humano raciocina este planeta esquecido que a luz do RacioSímio é a que escapa por trás das ripas numa rótula.

Ai, quando a ventania furtar os ferrolhos das janelas e perceber que tal abrigo, na real, está ao topo do Gólgota.


Ricardo Pozzo

domingo, 19 de março de 2017

Mueve la sopa,
la tibia sopa de legumbres
que era mi vida después que te fuiste.
Vuelves y la mueves.
Casi sin quererlo,
echas sal y cardamomo.
Echas recuerdos y dificultades,
retos y esperanzas.
Ya me veo tan en la sopa
movida, tan en el hirviente
líquido que se vuelve a sazonar
que ya siento el apetito retornar.
La lengua se desamortigua
Y empieza a echar saliva.
Bueno o malo el sazón,
la sopa movida es
lo mejor de la vida.

Luciana Cañete
Es triste ver un amor
deshacerse como el
azúcar en la taza umeante de
té.
Tú que me parecias
existir tan sólido como los dulces granos
se derritió en el calor
de mis líquidos.
Y no hay como cambiarlo.
Eres ahora parte de mí,
y endulza.
Ya no hay como evitarlo,
El té no se puede separar
del azúcar una vez echado.
Luciana Cañete

I´m not perfect.


Medos mudos.
Minha pele é sensível,
se espalham em mim dores.
Meus olhos às vezes acordam tristes.
Meu cabelo: não é nem bom nem ruim,
e também grisalho.
Haverá espaço pro que não é perfeito?
Esse espaço, onde?
Não o lugar comum – no mundo...
Em mim, há espaço pro imperfeito?
Descarto tudo que tem defeito.
Descarto tudo.
A solidão: única incorrigível coisa.

Luciana Cañete

Tudo tem hora certa

Tudo tem hora certa,
intui, respira, aperta
suspira, conspira
e acerta.

Fecho uma porta torta,
Pra ele entrar pela reta.
Nunca tranco a janela
Do que não se vê,
pra espiar pela fresta.
Um veio e foi,
Outro vai,
Aquele volta.

Deus escreve cartas belas
Em linhas tortas cheias de amorosas palavras.
Ou junta tudo pra sempre, sem volta.
Ou me descola as almas agora,
Me desconsola.
Me deixa sola,
surda e muda,
Pra ver se eu aprendo de vez que amor
É mais silêncio que poema.

Luciana Cañete

NO BRASIL APRENDI A VOAR



Derretendo
Por dentro em sufoco
Num país inóspito aos filhos da própria terra
Talvez servidor do estrangeiro
Em Luanda me achei calado.

Num mundo apocalíptico
Onde o medo predomina por causa do opressor
Que à um cidadão pacato que reivindica
Bradando apenas por justiça,
A bala nele não se poupa
Assim somos obrigados a engolir sapos vivos!

Com medo do terror
A voz do poeta se emudece
O talento em sua alma se morre!

Na África, de onde eu vim... me achei calado no meu mundo vago,
Por medo, onde as feras despedaçam as aves indefesas,
Que não têm asas pra voar!

Mas...
Em Curitiba, Capital Paranaense
Entre os escritibas na rua
Em saraus poéticos e canções melódicas
ora em goles do guaraná e risadas eufóricas entre os amigos
No Brasil aprendi a voar!

Em Curitiba migrei
Navegando em suas marés serenas e apaziguantes
Nada igual às marés agitadas e turbulentas
De Luanda-Angola minha terra de onde eu vim!

Oh, Brasil
Migrei em ti em plenitude de corpo e alma
Qualquer dia
De ti só levarei lembranças boas
De sua gente amável e gentil
Pois, daqui, é onde ganhei as minhas asas
E aprendi a voar em liberdade!

Em Curitiba, Capital Paranaense,
Numa roda plenária entre os artistas
Em saraus poéticos de alegria folguedo
Aprendi a voar

Com os amigos
Conselhos e lições estratégicos de Olinto Simões eu bebi
Completando a minha total audácia
Para poder voar
Voar
Voar
Voar
Sim, Voar em Liberdade!

Qualquer dia, de ti Brasil, só lembranças boas comigo levarei!


Moisés António (Curitiba aos 19.03.2017)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pan and Syrinx - Edmund Dulac

Hino de Pã

Das florestas e fragas,
     Chegamos, chegamos;
Das ilhas fluviais onde as vagas
     Vão se calando
               Por ouvirem meu doce flauteio.
O vento nas canas e juncos,
     Abelhas nas flores de timo,
As aves e os murtos juntos,
     Cigarras nas copas ao cimo,
          E os lagartos embaixo no solo,
          Emudecem igual ao vetusto Tmolo,
               Por ouvirem meu doce flauteio.

Fluido, o Peneu corria,
     E todo o Tempe fundo
À sombra do Pélion cobria,
     Pela tarde, o sol moribundo,
               Veloz com meu doce flauteio.
Os Faunos, Silvanos, Silenos,
     E as Ninfas do mar e silvados,
Às margens de aquosos terrenos,
     E o limiar de grotões orvalhados,
          E todos que, atentos, me favoreceram,
          Por amor, como vós, Apolo, emudeceram,
               A invejar meu doce flauteio.

Cantei da dedálea terra,
     Cantei dos astros em dança,
E o Céu — e a gigântea guerra
     E Amor e Morte e Esperança —
          E então mudei meu flauteio,—
Cantando como encalcei a donzela
     No menáleo vale e agarrei um caniço.
Deuses e homens, eis nossa mazela!
     O logro que o cor faz sangrar, quebradiço:
          Fora vós, o olhar de todos mareja,
          Não tivésseis frio o sangue por anos e inveja,
               Pela dor do meu doce flauteio.

Percy Bysshe Shelley/ tradução de Adriano Scandolara


Hymn of Pan

From the forests and highlands
     We come, we come;
From the river-girt islands,
     Where loud waves are dumb
               Listening to my sweet pipings.
The wind in the reeds and the rushes,
     The bees on the bells of thyme,
The birds on the myrtle bushes,
     The cicale above in the lime,
          And the lizards below in the grass,
          Were as silent as ever old Tmolus was,
               Listening to my sweet pipings.

Liquid Peneus was flowing,
     And all dark Tempe lay
In Pelion’s shadow, outgrowing
     The light of the dying day,
               Speeded by my sweet pipings.
The Sileni, and Sylvans, and Fauns,
     And the Nymphs of the woods and the waves,
To the edge of the moist river-lawns,
     And the brink of the dewy caves,
          And all that did then attend and follow,
          Were silent with love, as you now, Apollo,
               With envy of my sweet pipings.

I sang of the dancing stars,
     I sang of the daedal Earth,
And of Heaven — and the giant wars,
     And Love, and Death, and Birth,—
               And then I changed my pipings,—
Singing how down the vale of Maenalus
     I pursued a maiden and clasped a reed.
Gods and men, we are all deluded thus!
     It breaks in our bosom and then we bleed:
          All wept, as I think both ye now would,
          If envy or age had not frozen your blood,
               At the sorrow of my sweet pipings.

Percy Bysshe Shelley


Hino a Pã 

Vibra do cio subtil da luz,
Meu homem e afã
Vem turbulento da noite a flux
De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
A mim, a mim!
Vem com Apolo, nupcial na brisa
(Pegureira e pitonisa),
Vem com Artêmis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da àmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho exul
No bosque enredo, nos nás que espalma
A árvore viva que é espírito e alma
E corpo e mente - do mar sem fim
(Iô Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
Da primavera!
Com frautas e avenas vem sem conto!
Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte leão -
Vem, está fazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
À espada corta o que ata e dói,
Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E da coxa áspera o toque erecto,
Ó Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,
Deus grande! Meu Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.

Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!

Mestre Therion [Aleister Crowley]/ tradução Fernando Pessoa


Hymn to Pan

ephrix erõti periarchés d' aneptoman
iõ iõ pan pan
õ pan pan aliplankte, kyllanias chionoktypoi
petraias apo deirados phanéth, õ
theõn choropoi anax
SOPH. AJ.

Thrill with lissome lust of the light,
O man! My man!
Come careering out of the night
Of Pan! Io Pan!
Io Pan! Io Pan! Come over the sea
From Sicily and from Arcady!
Roaming as Bacchus, with fauns and pards
And nymphs and satyrs for thy guards,
On a milk-white ass, come over the sea
To me, to me,
Come with Apollo in bridal dress
(Shepherdess and pythoness)
Come with Artemis, silken shod,
And wash thy white thigh, beautiful God,
In the moon of the woods, on the marble mount,
The dimpled dawn of the amber fount!
Dip the purple of passionate prayer
In the crimson shrine, the scarlet snare,
The soul that startles in eyes of blue
To watch thy wantonness weeping through
The tangled grove, the gnarled bole
Of the living tree that is spirit and soul
And body and brain — come over the sea,
(Io Pan! Io Pan!)
Devil or god, to me, to me,
My man! my man!
Come with trumpets sounding shrill
Over the hill!
Come with drums low muttering
From the spring!
Come with flute and come with pipe!
Am I not ripe?
I, who wait and writhe and wrestle
With air that hath no boughs to nestle
My body, weary of empty clasp,
Strong as a lion and sharp as an asp —
Come, O come!
I am numb
With the lonely lust of devildom.
Thrust the sword through the galling fetter,
All-devourer, all-begetter;
Give me the sign of the Open Eye,
And the token erect of thorny thigh,
And the word of madness and mystery,

O Pan! Io Pan!

Mestre Therion [Aleister Crowley]

domingo, 30 de outubro de 2016

CyberSattwa

Do 7. E Ele te achou a vagar em busca D´Ele e Ele te guiou para o Si Próprio,
As Horas da Manhã [Al-Duhã] Alcorão
Causa, o sangue, o flagelo sobre a cidade [de Tebas].
Édipo Rei, Sófocles
a criança/ num salto/ vence a própria sombra, tempo de agir,
Sérgio Rubens Sossella 


Os alicerces da cultura ocidental nos ofertam
uma verdade tão efêmera quanto o brilho das
palhas de aço nos pipers dos vagalumes
que se agacham no mocado das esquinas.

Uma verdade com o aval da psicanálise
que promove a eternidade do desejo e a
impossibilidade humana da compreensão do Real.

São esses dogmas que sacralizam o consumo.

Enquanto cavo trincheiras por sobre o basalto,
meu raciosímio exercita-se
no decorrer desta peleja, fragmentada
pela mídia através dos noticiários.

Das cavernas das pluri espécies humanas à
urbe homo sapiens
ou do ambiente selvagem ao ambiente
controlado, enquanto perdia
seus predadores naturais, o gênero humano
tornou-se predador de si mesmo.

Teria sido Abel, neandertal?

Presa ou predador!

Eis o destino inexorável ao qual, para purgar ao
rei de Élida, Édipo vai ao encontro,
na estrada entre Tebas e Delfos.

Eis a psicopatologia derivada do exílio do
Jardim das Delícias,

o synthoma do banzo do paraíso perdido.

A maldição de Caim atinge o auge no
lançamento da bomba atômica
sobre Hiroshima e Nagasaki.

Em um suposto Princípio de Realidade
ontogênico da espécie humana
qualquer argumento que defenda a necessidade
imperiosa de armas atômicas
nos conduz à uma impossibilidade lógica.

Essa antinomia de opostos interiores, esse duplo
vínculo civilizatório ou duplipensar,
no vocabulário orwelliano, tem origem
a partir do frame mitológico da cisão da horda
hebraica, entre Moisés e Jeroboão,
a Lei e o totêmico. Entre o humano e o bestial.

Sob leis mosaicas, a civilização ocidental adora
aquilo que dá forma ao primogênito minotauro,
o bezerro de ouro.

a mega exploração e queima de combustíveis
a mega exploração dos recursos hídricos,
o uso desenfreado de agrotóxicos,
a destruição de ecossistemas.

O duplo Sapiens contemporâneo, enrodilhado num sheol
de quinquilharias virtuais, não decifra metáforas,
pois a modernidade nos fez espectadores desprovidos do espanto

Querubins guardam o leste do Éden com a lâmina flamejante
que oscila
para tornar inacessível a trilha que conduz à Árvore da Vida!

A integridade psíquica do humano reside no selvagem.

Reintegrar o selvagem é nosso dever e nossa salvação.


Ricardo Pozzo


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A varanda é a mordida da casa
uma mordida de afeto que sangra.
Cai o pranto do dia num amargo.


Wilson Roberto Nogueira
Através da Copula do olvido o que antes era esquecido
no assoalho da razão a visão da alma voa pro infinito
nuvens negras negaceiam nas esquinas do firmamento
toca a viola um sólido lamento
O sol da alma não aquece o sofrimento.


Wilson Roberto Nogueira


domingo, 21 de agosto de 2016

Culpa


Essa  é a principal prisão
as correntes da consciência
rasgando as veias da alma
afundando em sangue os sonhos
dourados sonhos de outrora
cúmplice de crimes risonhos
um dia
um dia abrira baús de promessas
e só sorriram diamantes
nos dias amantes os cadáveres
nos espelhos da memória
reluzem azuis nos silêncios da cela
das grades nuas das cordas desejadas
Urra uma maldição
VIVA.

Wilson Roberto Nogueira


domingo, 31 de julho de 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

Cansaços


Nas profundezas da noite
Um encontro brando
de cansaços
Enleia
numa sensível sensualidade,

o silêncio da íris 

Andréa Motta

estrada

 (a um amigo)

Foi quando então
Ele desapareceu entre as estrelas
Ficando aqui dentro de nós
Todas as marcas de seu trabalho 
E a dor é apenas uma etapa
Do grande aprendizado 
O sofrimento
É o que nos dá polidez 
E a alma dos que ficam continua
Porque essa era a sua luta 
Manter-se aqui
Para quando estivesse lá
Permanecesse aceso 
Em todas as mentes que buscam
O fim da estrada
E o começo da glória 
Foi quando então
Ele desapareceu entre as estrelas

Alessandro Jucá

Inferno Astral



Ah, esse mundo distante!
Onde a arte é semente de tudo
Onde a flor reascende a poesia
E a vida é movida de amor 
Sim, esse mundo esquecido
Que ascende o sonho da alma
E a dor revivida no tempo
Confundiu-se com o próprio temor 
Mas se agora no inferno dos astros
Eu pressinto os dias de outrora
Com a luz que guiava meus passos
Vou embora! 
Sim, eu volto...
Em um belo dia de agora


Alessandro Jucá

O céu olha pro chão

             
É como se a estrela mais antiga  
me olhasse intensa lá do alto
e nesse mesmo espaço, a vida  
fitasse seus olhares no asfalto 
o que pro céu talvez seja guarida
para mim talvez um cadafalso 
e as coisas que eu via no cinema
me acenam suas cores da montanha
enquanto rezas recitadas em novenas
me envolvem em suas teias de aranha 
o que pro céu resolve um teorema
para mim as chaves são estranhas 
A origem do universo me fascina
E arte, criação que me alimenta
A beleza que atrai minha retina
Não se explica, se entende nem comenta 
o que pro céu talvez seja uma sina
Para mim talvez o que se inventa 
E assim eu sou feito de metade
Parte céu que me olha do infinito
Parte “chão” que sou eu, humanidade
Coração entre o mal e o bendito 
O que pro céu talvez seja vaidade
Para mim talvez o mais bonito

Alessandro Jucá

Laços


      Para Cláudia (Cacau) Gonçalves e Lu Oliveira

Chove em meus olhos
sempre que o gris da manhã
encobre a cidade e os pássaros calados
se escondem nos galhos do abacateiro
Chove em meus olhos quando o azul matinal
floresce múltiplas canções
Insistente a chuva rega minha face
sempre que a saudade invade o universo
traz o frescor do alecrim e muitos potinhos de sol

Andréa Motta

Enlevo


derramadas as palavras
no centro do infinito
com que ternura te encontro
comprometida com o vento
tocada pela magia
da arte
ouso em teu nome,
poesia
compor a tristeza
e a alegria
que deslumbra
os sentidos.

Andréa Motta

Bramido


Ao abrigo do sol
a voz febril dos sonhos
oculta
a cada novo fonema,
o canto do melro
o vôo da borboleta indefesa
- grita a essência

                  da palavra – 

Andréa Motta

Rico e Plural


  À Hilda Hilst e Octávio Paz 


Isso de ti
tem um quê de saudade
um contínuo transcender-se
um quê de intimidade
um permanente imaginar-se
Isso de ti
meio mata meio mar
os olhos
não conseguem decifrar
Isso de ti
sei lá porque
tem um quê de insano
um constante desvendar-se

Andréa Motta

Cambraia


Vistosa em sua transparência
vestimenta de cambraia
é sensível às intempéries
do tempo
Perde o brilho natural.
Rota, amarela, por vezes,
assemelha-se ao homem.
Torna-se áspera.
por águas e lavagens,
perde do olhar a candura
Não há cerzimento
que devolva-lhe a maciez
perdida do uso ao descaso.

Andréa Motta

Apogeu


Nas manhãs de inverno
quando a exuberância do azul
transborda do céu descortinando
o incompreendido e louco
destino dos homens,
ouça no borbulhar do silêncio,
a supremacia da natureza,
a essência inenarrável da paz.

Andréa Motta

Íntima Fração



                Para Rubens da Cunha

surdos meus pés
gritam a distância
disfarçada
curvos
adjetivados
pela hora tardia
das estranhas noites
contam espinhos
obscenos
turvos
semeiam
e colhem a palavra

Andréa Motta

Ao sabor do pensamento


O olhar cego começa um poema
desenha a trama.
Com mãos impolutas
despeja desejos
cria amores
e abandonos
em estranhos jogos
de memória
cogita
sangra
sonha interminavelmente
derrama sobre o papel
armadilhas inequívocas
do pensamento
Sorri
vertiginosamente
sorri até a exaustão
um sorriso marginal.
Etéreo
tece ilusões
e finda o poema.


Andrea Motta

Estrelas e Sal


Lanternas esquálidas escarlates
A navegar escamas de Netuno.
Despejam o fluxo de outros mundos
Paridos em noite fria entre os lilases.
Atmosfera imersa em breu soturno,
Lançando redes de nylon, pescando sóis.
Gigantescos navios espaciais consumindo-se
Aprisionados no visco salino

Do enferrujado lastro dos anzóis. 

Angela Gomes

ASSIM, ASSIM

Assim, assim,

Eu vi o tempo passando por mim.
Pedras de cristais,
Gotas, temporais.
Abismos e montanhas. Mas,
Penso no que forma o tempo.
Penso que sem mim,
Que sentido lhe restaria?
Levo comigo o tempo
E todas as passagens que me permiti.
Sonho apenas com as lembranças,
Penso tê-las guardadas em mim.
Vim para esta “terra” resgatar as heranças,
E as grandezas de tudo o que eu vivi.
Se sinto uma montanha,
Nela me transformei.
Hoje sei que sou estrela,
Sou tempo e a eternidade,
E tudo o que jamais sonhei.

Angela Gomes

Artemporal


Gravado na fronte
Da fronte do tempo,
Em segredo, sagrado de cores.
Perpetuando homens e animais...
Grafismos idiossincráticos, virtuais.
Observando olhares.
Subvertendo paisagens.
Transgredindo, movimentos e imagens.
Nas rochas, poesias atemporais.

Angela Gomes

Apesar


Apesar de o sol
ser a estrela do centro do Sistema Solar,
na fraca faixa de luz
através do céu noturno, habitamos.
Entre estrelas e nebulosas
passeamos os dias na Via Láctea
e preferimos astros artificiais
e luzes frias e solitárias.
Giramos em meio à poeira cósmica
sem atingir o núcleo.
Apenas conhecimentos elípticos
à velocidade do som
nos aproximam das constelações.
E quase sentimos
Os hemisférios juntarem-se.
Mas a composição atmosférica
Não tem energia suficiente para interagir.
Então emitimos
Fracos raios espectrais sem cor, nem calor.
E brilhamos pouco e sozinhos
Em nossas próprias estrelas.

Deisi Perin


Ser



Crânio e face.
Corpo e alma.
Protegidos por ossos e cinto de segurança
Da cintura escapular até a pélvica.
Braços, mãos e tórax
sustentados por coxas, pernas e pés.
Unidos por articulações e cartilagens.
Seguindo o fluxo das sinapses
e das substâncias branca e cinzenta.
Humano e desumano.
Anjo e demônio,

contradições de uma matéria em decomposição.

Deisi Perin

Galo


Em cima do telhado
apontando para o Norte,
está o galo sossegado.
Não liga para mim
nem para a sorte.
Passa dia, passa ano
e o galo ali parado
sempre tão altivo e forte.
Às vezes a vida se torna
vazia e solitária.
E o galo pensa na morte.
Ele que parecia tão decidido
ensandeceu.
Virou repentinamente para o Sul
Duvidando dos ventos.
Será que este galo
Está tão perdido quanto eu?

Deisi Perin


Agricultura



Arei sulquei
Cavei adubei.

A semente era eu
Plantada no tempo.
Cortei as raízes,
Nasceram asas.

Mas ainda
não aprendi

a voar.

Deisi Perin

A luz de velas


Universo de espuma.
Água fresca
banho e limpeza.
Roupas jogadas
úmidas de suor.
Sobras do jantar
a luz de velas.
Taças de vinho tinto
xícaras de café.

Pilhas de pratos e panelas
limpeza e arrumação.
Quem dera um
jantar romântico.
Mas
apenas
faltou luz.

Deisi Perin