quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

‎''E eu descobri: os portos de madrugada
preservam o exalar da recordação
daqueles que nunca caminharam por suas vielas."

Leandro Vicelli
Só deitando um pouco
no chão frio.
Apenas colando
a cabeça na terra
úmida e com cheiro forte
... de ferro.

Só encostando a alma
nas paredes do inferno,
ouvindo o fogo praguejar:
''não venha,
não chegue perto,
fique bem longe".

Apenas ouvindo
o crepitar
da lareira do mundo.
Cada estalo
é um passo meu
rumo ao infinito.
("Crepitar")

Matheus A. Quinan

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Dois poemas de Rafael Walter


Paisagem

disse-me que só o vagar lhe permitia 
a constância

não queria a certeza
queria a dúvida
expandida em caos e absoluto

a poeira contava o caminho,
não sabia dizer ao certo de onde viera
e  seguia

como poucos centavos no bolso festa ele fazia
dizia que viemos nus ao mundo
e que nada sabemos mesmo
e o resto era infinito

andava torto feito um ponto de interrogação
para endireitar os caminhos
seguia o vento
numa melodia
feito viola pela vida


haikai escatológico

escarro,  porque já não resta nada
e esse vício de saliva,  de esvaziar palavras
e emudecer o solstício ou a alvorada

Rafael Walter

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Praça Generoso Marques - Curitiba

Três Espadas

Ela lhe fala que existiu, trespassada por três espadas
Ele lhe faz sopa de letrinhas
Ela lhe fala que viu tempestades, ao chegar
Ele lhe faz molho de figos
Ela lhe fala que viveu em poeira, em dor
Ele lhe diz que há prazeres reservados
Ela lhe fala que trabalhou com as mãos
Ele deixa a louça por lavar, singelo
Ela lhe diz que sentiu as três espadas
Ele abre um livro, navio passando
Ela lhe diz de espinhos, de cabelos arrancados
Ele lhe diz de velhos cães, de poesia
Ela lhe diz de uma certa cura
Ele lhe serve torta, a massa trabalhada
Ela o beija, sincera, tonta, temerária
Ele espera, espera, espera, espera
Ela se espraia, como praia
Ele fica, e vem, como o navio ao cais


Cláudia Lopes Bório

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

quem se import?

Sid-Friaça (Pseudocanto III)

Sid-Friaça
sentado num canto do Madrugada
relata os lances que o fizeram
subir ao ascetismo.
Sid-Friaça
conta
sempre
com a sorte
pra pagar a conta.
No banco do boteco fétido
esconde e educa a prole
(a ser também asceta).
Por longos anos mourejou
na Índia, em Goa, em Moçambique,
levado pela esquadra do Restelo,
na empresa finda que o poeta canta
e que o Queirós queria reatada por Ramires.
Agora seu pendor heróico é morto
pelo excelso maquinário que o domina.
A fábrica.
A vida confinada
em meio ao torno e o ponto do relógio.

Sid-Friaça come
as moças mais insanas
de beleza e sina
oferecida aos gajos
que caminham retos
pela ponte de Bouvard
Moças gordas como pelicanos,

feias e disformes, com as banhas podres,
misto de deboche e maquilagem.
moças magras e miúdas,
pequenas e ossudas
como garças desesperadas,
gralhas presas atrás de grades.
Moças que debalde se oferecem
quando passo classe-média no Passeio.
Mas Sid não, que não é disso;
é forte e rijo
tomador do biotônico da vida
e da desesperança.
Sid ensina a todos que não há saida.
Que a moça oferta em frente à réplica
do pórtico do cemitério de Cães da cidade de Paris
é tão boa meretriz e faz gozar
como qualquer puta que há
no antro mais famoso e fino
de Campinas e Curitiba.

Sid-Friaça heróico
Sid-Friaça, ressurgido do Restelo
receita que somente presta a embriaguez noturna do bufão errante:

"A névoa não esconde todo o cinza da manhã
Seus olhos já revelam esta grave inquietação
Os ônibus lotados de fumaça e de cigarro
fedendo-lhe a miséria como lixo e como merda (...)"

Sid-Friaça
Vive
no Hades, com Elpenor.


Paulo Bearzoti, de Fator X (Cadernos Militantes nº 12, Curitiba, novembro de 2011)

domingo, 11 de dezembro de 2011

No Cabaré Verde

às cinco horas da tarde

Depois de uns oito dias a pé, perdi os coturnos
No caminho. Mas entro com tudo em Charleroi.
No Cabaré-Verde, torradas são o que há,
Com manteiga e presunto, em pedidos diurnos.

Feliz, estico as longas pernas sob a mesa
Verde e contemplo os toscos e rudes motivos
De uma tapeçaria. — Que agradável surpresa
Quando a vi, suas enormes tetas e olhos vivos.

É ela! Não existe um beijo que a apavore!
Risonha, traz a refeição sem que eu implore:
Manteiga muito boa, num prato do caralho,

Presunto róseo perfumado pelo alho.
Depois traz a cerveja, sem fazer farol
Pela espuma brilhante como um raio de sol.


Rimbaud
Outubro de 1870 (16 anos)/ tradução Antonio Thadeu Wojciechowski 10/12/ 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

LÉO 6

AVISOS

Em caso de incêndio
não utilize elevadores
use escadas
salvo instrução contrária

Não fume
Não jogue lixo
Não defeque
Não ligue o rádio 
salvo instrução contrária

Por favor, Aperte a Descarga
Após Usar o Sanitário
Exceto Quando o Trem
Estiver Parado na Estação
Seja Atencioso
Com O Próximo Passageiro 

Avante Soldados Cristãos
Trabalhadores do Mundo unidos
não temos nada a perder, mas a nossa vida
Glória ao Pai
.............................. E ao Filho
ao Espírito Santo
salvo instrução contrária

A propósito 
afirmamos estas verdades evidentes
que todos os homens são iguais
que foram dotados por seu criador
de certos direitos inalienáveis
entre eles a Vida
Liberdade

......... & a busca da Felicidade

E por último mas não menos importante
que 2 + 2 são 4
salvo instrução contrária



Nicanor Parra/ de Poemas para combatir la calvicie. Antología. (Santiago, 6ªed., Fondo de Cultura Económica, 1998)/ tradução Ricardo Pozzo

sábado, 3 de dezembro de 2011

O pequeno burguês

Aquele que quer ir ao paraíso
Do pequeno burguês deve trilhar
O caminho da arte pela arte
E tragar porções de saliva:
O noviciado é quase infinito.

Lista do que você precisa saber.

Dar, com arte, o nó da gravata
Fazer deslizar o cartão de visitas
Sacudir por luxo os sapatos
Consultar o espelho veneziano
Estudar-se de frente e de perfil
Tomar uma dose de conhaque
Distinguir uma viola de um violino
Receber visitas de pijama
Evitar a queda dos cabelos
E tragar porções de saliva.

Tudo deve ser arquivado.
Se sua esposa está entusiasmada com outro
Recomendo as seguintes dicas:
Barbear-se com navalha
Admirar a beleza natural
Farfalhar um pedaço de papel
Sustentar uma conversa telefônica
Disparar um rifle
Fazer as unhas com os dentes
E tragar porções de saliva.

Se deseja brilhar nos salões
o pequeno burguês
deve saber andar sobre quatro patas
Espirrar e sorrir ao mesmo tempo

Dançar valsa na beira do abismo
Endeusar os órgãos sexuais
Despir-se na frente do espelho
Desfolhar uma rosa com um lápis
E tragar toneladas de saliva.

A tudo isso uma pergunta
Jesus Cristo era filisteu?

Como se vê, para alcançar
O paraíso pequeno-burgues
É preciso ser um acrobata completo:
Para chegar ao paraíso
É preciso ser um acrobata completo.

Não admira que o verdadeiro artista
Entretenha-se matando libélulas!

Para quebrar o círculo vicioso
Recomendam ato gratuito:

Aparecer e desaparecer
Andar em estado cataléptico
Dançar valsa nos escombros
Embalar um ancião nos braços
Sem tirar os olhos de seus olhos
Perguntar a hora à um moribundo
Esculpir no oco da palma da mão
Apresentar-se de fraque aos incêndios
Lançar-se com o cortejo fúnebre
Ir além do sexo feminino
Levantar a laje funerária
E ver se, dentro, cultivam árvores
Atravessar de um lado a outro
Sem referências ao porquê ou quando
Somente pela virtude da palavra

Com seu bigode de galã de cinema
Na velocidade do pensamento


Nicanor Parra


De [Versos de salón] (Santiago, Nascimento, 1962) tradução Ricardo Pozzo

Eu Nunca Estive Em Creta

Mas quando despertei
tinha os pés molhados
de uma luz
que atravessa
a persiana
________zarpa
e, a estas horas banha
teu rosto que flutua
- esqueceste do Nívea -
sobre as listras verdes 
do Egeu


Carmen Camacho/ tradução Ricardo Pozzo

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Recolhe os olhos aos pés
quando o sol amanhecer,
e com ele se fizer
meu sermão.

Acorda a alma a gritos,
sem despertar o mal
que com ela descansa
entre os vãos.

das portas,
das casas,
do túneis abrigados
no fundo das veias.

furadas,
vazias,
drenadas para ficar
loucas com a escassez

Respira com cuidado,
atento à própria vida
e aos movimentos frágeis
do pulmão.

Retira a própria pele
e mascara o semblante,
para não parecer mais
com seus irmãos.
("Autoridade")

Matheus A. Quinan

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

domingo, 27 de novembro de 2011

Perdas

Perdas
Pedras pretas
presas
caixas-pretas
sob o carvão de corpos
prêsas do destino
do desalinhavado destino
pedras em desatino
esmagando pulmões
libertando pulmões
libertando vozes de agonia
em meio ao humo
a humedecer de prata liquida
olhares incendiados de fogo invisível
olhares sem prumo de celerados animais
horda huna sem rumo
invadidos pela lua uivam várias adagas de agonia
animais vagando no pranto anônimo da noite
novos pratos fartos
de vis visceras
na saborosa ceia das feras
fitando o horizonte com olhos famintos
viver sob o manto da morte



Wilson Roberto Nogueira

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Fênix

dentro
de cada
um de nós
tem uma
fênix

dentro dela
fogo cromo ródio
lilases rododendros
dentes asas membros
de amor e de ódio
sobre tons de
ônix

dentro de
cada tom
violetas vivas
roxos de morte
anéis cristais pós
e algo ainda
e cada vez
mais forte
dentro de cada
um de seus
nós

Ivan Justen

terça-feira, 15 de novembro de 2011

ESTADO DE SIGNIFICAÇÃO Gaza. (de origem e destinação incertas).

um. feminino.
Nó em lágrimas, desatado
nas extremidades. Obrigado a dobrar-se,
a não-ser, ensanguentada mordaça.
Serve para enganchar ou cingir
a isca do Ocidente,
naco de raiva,
espada de Israel

e logo suspendê-las do nada.


dois. feminino.
Circundar o arame farpado,
as mãos abertas, caminhar
o pó para alcançar
o templo ou escritório

ou como quer que se chame
o lugar onde o Homem do Lobby
ventila cinzas
da Sarça Ardente.
Emoldurar a nota fiscal de seu míssil.


três. feminino.
Pássaro negro que ao sulcar
La Franja esta noite
me desperta
e diz em seu grunhido

que choveram estilhaços,
tantos quanto o quilo de pombas brancas,
que o meu silêncio mata.


Quis chegar até sua porta, Palestina.
Para devolver-lhe minha calma venho.


Carmen Camacho/ tradução Ricardo Pozzo

Obsessivo

Voltas eternas gozando sozinho
Prozac me ajuda a soltar e reter
Sou vaca girando um grande moinho
Como saber o que vem de você?

Tantos pensamentos em labirinto
Sou ou não sou? Só sei de soslaio
Em Creta, em Tebas, sempre sentindo
A culpa de ter enforcado Laio.

Um dia declaro, em alto e bom som:
“Não vou ao seio potente voltar!”
Mas logo, baixinho, devo acrescentar
“Um Mestre me ajude, prometo ser bom!"

Felipe Spack

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O amor acaba?
O cara disse. Numa esquina, num domingo, depois do teatro e do silêncio, na insônia, nas sorveterias, como se lhe faltasse energia. Ele não volta? Não deixa rastro ou renasce? Na esquina em que se beijaram uma vez, lá está, na sombra apagada pela luz, na poeira suspensa, na revolta da memória inconformada. Na solidão, lá vem ele, volta, com lamento, um quase desespero, e penso nos planos perdidos, que vida sem sentido… Na insônia, o amor cai como uma tonelada de lápide, e se eu tivesse feito diferente, e se eu tivesse sido paciente, e se eu tivesse insistido, suportado, indicado, transformado, reagido, escutado, abraçado? Na sorveteria, ele volta, o amor, em lembranças. Porque aquele sabor era o preferido dela, aquela cobertura era a preferida dela, aquela sorveteria era a preferida dela, aquela esquina, aquele bairro, aquele clima, aquela lua, aquele mês, aquela temperatura, aquela raça de cachorro, aquele programa de fim de tarde e aquele horário sem planos… No elevador, quantas saudades daqueles segundos em silêncio, presos na caixa blindada, vigiados por câmeras camufladas, loucos para se agarrarem, rirem, apertarem todos os botões, tirarem a roupa, escreverem ao lado do Atlasado: “Eu te amo”. Saudades é amor. Não se tem saudades do que não se amou. O amor não acaba, porque tenho saudades, me lembro dela, me preocupo com ela, torço por ela, e se sonho com ela, meu dia está feito. O amor não pode acabar, porque sem ela ou sem a esperança de revê-la, até a chance de tê-la de volta, não vejo a paz. Ela é uma trégua na minha guerra pessoal contra a minha paixão por ela. Amá-la me faz bem. Mesmo que ela não me ame, amo amá-la. Continuei amando desde o dia em que terminou. Passei meses amando como se não tivesse acabado. Ficaria anos amando mesmo se não tivesse voltado. O amor não acaba, muda. O amor não será, é. O amor está. Foi. Nas tantas músicas que ouvimos, que dançamos colados, trilhas das noites frias em que você sentava em mim nua, enquanto os meus braços imobilizavam os seus. Amor. O não-amor é o vazio. O antiamor também é amor. Eu te amava quando você respirava no meu ouvido. Lembra do meu dedo dentro de você? Amo-te, amo-te, amo-te. Instante secreto, sua boca incha, seus olhos apertam, suas unhas me arranham e você diz: Eu te amo! O amor acabou quando você se foi? Você sentiu saudades das minhas paredes, das cores das minhas camisas, da umidade da minha boca, do cheirinho do meu travesseiro, da minha torrada com mel, das noites pelados assistindo à tevê, dos vinhos entornados no lençol, do café da manhã com jornal, você sentiu falta de atravessar a avenida comigo de mãos dadas, de correr da chuva, de eu te indicar um livro, do cinema gelado em que vimos o filme sem fim, torcendo para acabar logo e ficarmos a sós, você sentiu falta da minha risada, inconveniência, de eu ser seu amante, noivo, amigo e marido, dos meus olhos te espiando, dos meus dentes mordendo e mastigando, ficou tanto tempo longe e pensou em nós especialmente bêbada ou louca, queria me ligar, me escrever, meu cheiro aparecia de repente, meu vulto estava sempre ali, acaba? Diz que acaba. Como acaba? Não acaba. Diz, não acaba. Repete. Falei? Não acaba. Pode virar amor não correspondido. Pode ser amor com ódio, paixão com amor. Tem o amor e o nada. Ah, mais uma coisa. Antes que eu me esqueça. O amor não acaba. Vira. Se acabar, não era amor

Greyce Bruna

terça-feira, 8 de novembro de 2011

vem ser feliz

Ácido Malabar

Frente à platéia inevitável de automóveis, o franzino malabarista realiza des ofício; bailarino opanijé. Apenas o cão, a cada intervalo, aplica-lhe o emplastro de saliva, anti profilaxia do ectima.

Em seu refúgio de alumínio e fibra [de vidro] a madame suburbana emociona-se, sem saber o quanto deixa de compreender  frágeis fractais, vertentes de inconfessáveis planos.


Ricardo Pozzo

domingo, 6 de novembro de 2011

A companhia custara apenas o preço de um cafezinho. Passavam horas que se diluíam no silêncio dos olhares. Um procurava encontrar no olhar do outro o próprio olhar. E juntos dançavam.

Hora de pagar a conta. As luzes se acenderam e só viram o mármore e as moedas caindo no chão. A dança acabou. Mais uma vez ela pagou a conta. E nunca mais voltou.

Agora ele gira moedas na mesa da cafeteria e só tem a sombra da lembrança a orar por ele.


Wilson Roberto Nogueira

Não era para tanto "ma garçonne" (o cabelo curto acentuou a cor dos teus olhos). O Pavel low profile como sempre não esquentou, não queimou o radião, quedou-se tranquilo. O embrulho foi de outra ordem, não era propriamente quanto ao grupo, a discussão que se arrastou foi oportuna contudo, mas o curto-circuito teve suas faíscas exageradas. No que se refere ao texto de seu existir, é uma questão de estilo apenas, não devemos levar tanto a ferro e fogo. Acredito na proposta de Deus e suas oficinas inter-cambiáveis, mas esta é uma outra história,

A tua obra lerei com mais vagar e te darei o retorno durante a semana.

Assinado: O Foiceiro

Wilson Roberto Nogueira

Praia da Joaquina - Florianópolis

Da Dificuldade em Capturar uma Mosca

A dificuldade em capturar uma mosca
reside na complexa composição de seu olho

É a mais próxima ao olho de Deus

Através de uma rede de ocelos diminutos
pode observar-lhe a partir de todos os ângulos
sempre disposta ao voo

Parece que o grande olho da mosca
não distingue cores

Provavelmente também não faça distinção entre você,
que tenta capturá-la, e os restos descompostos em que pousa


Rómulo Bustos/ tradução Ricardo Pozzo

terça-feira, 1 de novembro de 2011

As Crianças#1

Pequeno pequeno pequeno. Mas já forceja de sol a sol o sísifo interior, das coisas ajuntadas e divididas por desrazão, em categorias. Taxônomo pré-mirim, compila selos sem ter selos e borboletas sem borboletas. Chora, para, sorri. Talvez seja o maior, e o menor, colecionador de coisas invisíveis em todo o universo. Leiloou na imaginação a vai adquirindo: marafonas que falam, trapos de nuvens, armas para a guerra aos irmãos, namoradas das folhas de revistas, monstros de césio, roupas ideais das matinês de carnavais, aves marias aos domingos, cães de montaria, cantigas de dormir, desaforos, ouro do nariz, frieiras e verrugas, formigas e apocalipses, trevos estrelas urtigas, lençóis floridos, bichos sob a cama, pedras de rios que não passaram, olhares sem piscar pelo buracos de fechadura. Coleciona os dias, um maior que o outro, um mais novo que o outro, mais bonito.
A mãe chama para o jantar. Ele não vai. Não pode perder a conta de seu tesouro. A mesada foi toda gasta em balas-chiclete e, mastigando, trabalha o raciocínio: "...um dia vai valer uma fortuna. Vou trocar por um baú de moedas. Vou enterrar numa ilha deserta. Vou fazer um mapa". Não atina com a possibilidade de perder, mais do que os álbuns da coleção, perdidos em si, o ânimo de colecionar impossibilidades.
Certamente vale muito, certamente só dá para isso: os olhinhos acesos no rosto do homem, e uma saudade que atravessa a rua.

Rodrigo Madeira

publicado no segundo livro de Rodrigo Madeira [pássaro ruim]. Curitiba: Medusa, 2009, pág 140

domingo, 30 de outubro de 2011

Praça Generoso Marques 
Multiplural etnica e cultural anarquia
Babel de vozes que só se espelham no verde oliva dos uniformes
Laica e secular a olhar por sobre o Muro das Lamentações aos religiosos
de ossos de aço e ocos corações que modelam no barro os Golens
que perambulam nos sábados a assassinar os sonhos
vestidos de verde oliva e do vinho da vida de estranhos
estrangeiros. Religiosos envenenando a verdade nas suas
orações de ódio e rancor. Cacofonia de angústias, medos
e ódios aos gritos saltando dos olhos para as mãos
Israel minúscula nau dos insensatos a agarrarem no humor
a bóia da lucides com as pernas em sangue a atiçar os tubarões.
Oh Isra'El da estrela de Davi estilhaçada, não pise em seus cacos.
Rostos da diáspora de tantos sabores e olores, dores
e alegrias desesperadas à procurar tateando na diversidade,
no estranhamento a alteridade imperscrutável da unidade espinhosa.
A qual cobra o sangue e o sal de Israel. O sangue denso e doce de seus filhos.
Oh Israel, você se encontrará novamente? Caminhos estreitos no Oásis.
O humanismo judaico estará em extinção em Israel ?
O Guardião de D'us (Isra'El) ouvirá a D'us antes de ouvir a espada?

Shalom.


Wilson Roberto Nogueira

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Vizinhos

http://doxlucchin.blogspot.com/

tortione

quando há paz
foge o poema
:
o cárcere amargo
exige do amor
uma torção
de rocha
:
viajar para longe
é um convite
para aliviar
os ossos
:
pedras têm asas
anjos têm telefones
:
a primavera em mim
tarda a vida

Augusto Meneghin

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Vox Urbe Internacional

clique na imagem para ampliar!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

DAI A DALTON O QUE É DE JÉRSON, E A TREVISAN, O QUE VEIO DE IVAN


Que vampiro? Gênio aonde?
Vai seguindo sempre em busca
dum estilo que se esconde
numa angústia tão patusca
que nem chega a ser de velho:
um fraquinho autoevangelho.

Sabe apenas pôr o dedo
na ferida se é a alheia:
provavelmente isso é medo
de pulsar a própria veia,
que mete nesse inseguro
pavor do claro e do escuro.

Mas não rimarei com dalton
nenhuma rima biônica.
Faço rimas só pros nêutrons
da prosa dele chatônica:
nem mil anos na salmoura
nem biotônico fontoura

não elevarão o status
deste literato cactus,
pois a lei de Jérson é
diminuir o cacife
pra ver se ainda para em pé
o seu conto de patife.

Assim prestei homenagem
a este Jérson Trevisan,
dos Daltons tem bandidagem,
muita prosa e pouco elã.

E o polaco que me aguente
pois ponho um pingo num i:
ninguém xinga impunemente
Emiliano e Kolody.

Ivan Justen

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Receita de Bomba Caseira


basta juntar 2
motivos que se excluem

(mesmo um único
ingrediente:
                  esquizo
                  frê
                  mito)

basta deixá-los se amando
na folha, como briga

ou lar(galos aurorescentes 
ao mesmo tempo
sobre o giz da rinha).

deixa-os
se fundirem no ataque

e olha.

não desperdices teus olhos

           
2.

não há de durar muito. 

a coisa toda (de opostos)
explode
no ar no teu rosto:

PÁSSARO

(sempre em suma
antes que suma
da vista

o arame das palavras
e a harmonia)

estrepitosamente aberto
na altura do peito, feito
um jornal de impossíveis


Rodrigo Madeira

terça-feira, 11 de outubro de 2011


Aquariano, apreciador de majestosas epopéias. Uma certa criatura prática que se desnuda em prol da graciosidade de qualquer Lolita púbere...  Maldito seja o cavaleiro de parecer pérfido que me arruína a alma por este instante, fazendo-me escrever disparates de irrelevante azo. Eu deveria agourar este aleivoso matrimônio com minha competência e astúcia de ninfeta perversa, mas este quisto senhor talvez não tenha mérito para ter meu corpo e muito menos meu coração... Meu coração... este sim necessita ter mais cautela... Escrevo e escrevo, um pouco em vão, estas deveriam ser palavras em cartas manuscritas, onde o pressionar da tinta despeja o teor veemente sentimental. Perdoe-me por qualquer impropério, mas ainda vaga em meu corpo, em pensamento, a tua face... teu beijo... tuas mãos... e teu falo, abarrotado de masculinidade como criatura provedora. 
Um suspiro forte.... profundo... uma intensa excitação me consome o corpo todo neste momento... e em outros que ainda virão enquanto você não me consome por inteira... enquanto não pressiona intimamente meu corpo no seu...
Como fizeste bem a sua mão acariciando meus seios e me fazendo abrir a boca de desejo imediatamente, desejo de encostar a língua em teu corpo, de beija-lo impetuosamente...  de ficar nua... de mostrar a minha pele... de lhe entregar meu corpo de menina com curvas perfeitas para o deleito de seus olhos... de me colocar em seu colo e enfim... ser completamente tua...  
Almejo respostas válidas para minha pele ou para o meu coração... Sinto-me agora arrebatada, (apaixonada?) e talvez, meu lord, isso passe em breve, ou custe a passar...
Um beijo em seu coração.
De sua menina

Lailana Krinski

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Esconderam

esconderam o som
e a árvore atrás de um cartaz esconderam
os corvos de van gogh na morte da arte
esconderam os sacos de pipoca amarelo
e colocaram as pipocas todas
para flutuar em um lago sujo
tão sujo que
seu reflexo morria
antes de atingir o céu
o arco do céu era exatamente como a tampade coca cola
os motores pariam
uma ejaculação como o palanque do presidente
notas de dólares já não valem nada
taparam o sol eterno sol  com suas milhares de explosões
que um dia engolirá o universo com uma foto meio sépia esverdeada
de abraham lincoln
(& eu não sei quem foi abraham lincoln para
estampar uma nota de dinheiro se temos a possibilidade de olhar toda a história da arte do passado & escolher as mais belas figuras)
eu colocaria macunaíma na nota de dez reais
allen ginsberg já colocou alguém no parlamento ou
alguma imagem nas notas de dinheiro
eu quero colocar minha mãe na nota mais valiosa
pelo simples fato dela cultivar tão belamente suas orquídeas
que tenho certeza que nenhum herói ou papagaio
seria capaz de fazer o mesmo
mas isso porque esconderam os animais
e proibiram o circo e as mulheres barbadas
então tudo agora desfila na bela rua da democracia
com gays vegetarianos anarquistas punks & operários
todo mundo fala alguma coisa em direito de falar outra coisa
mas esconderam a voz em algum lugar
esconderam a voz na música de comercial
esconderam a fotografia em que todos pareciam felizes
agora todos parecem vestidos em jeans eróticos
com imensos pênis impossíveis de penetrar um cu
& mulheres com tantos litros de silicone
que fazem inveja aos seios de verdade
esconderam a bunda de verdade
colocaram uma bunda falsa no lugar da bunda de verdade
só existem agora bundas falsas
& investidores da bolsa querendo
mulheres & homens com bundas falsas
agora, para mim,
     O mundo parece uma bunda falsa
caminhando em direção à vitrine de liquidação mundial
esconderam os preços atrás
da casca das frutas
vigiaram o nível de água das correntezas
& prenderam a mulher do índio num
programa de alfabetização do governo federal
esconderam tudo: a aldeia a canoa a mandioca
o descascador de abacates
o pênis do menino indígena
esconderam a montanha na qual sopravam flautas
& vertiam o sangue de um animal
em homenagem às suas vidas
fizeram isso & fizeram uma proganda de cerveja
colocaram mais silicone
até letras tem silicone
escorre silicone pelas letras
porque esconderam o sentido das palavras
e precisaram de borracha pra chamar a atenção
esconderam alguma coisa sobre o que acontecia no universo
os astronautas falam muito pouco
todos sabem que a terra é azul que
ela gira tem tantos tantos e tantos tantos
de coisas assim conhecidas desde a primeira enciclopédia
e a ciência não avançou um terço na explicação do mundo
exceto na fabricação de celulares
e esconderam as cartas longas e longas declarações de amor
por cartas fúnebres de telemensagens
& gente idiota falando de coisa alguma
no fumódromo de alguma boate
esconderam a poesia em algum canto sórdido de disciplina
fizeram bombas mais reais &
esconderam o efeito em algum acordo de bunda de silicone
os jovens desejam ganhar mais dinheiro
querem fama sucesso um carro novo um emprego uma namorada
um casamento com direito à embriaguez pelo menos uma vez na vida
uma apólice de seguro que ateste que ele não morrerá de alguma doença desconhecida
ou despedaçado como um bife na batida de um carro
os jovens querem tudo o que o dinheiro pode esconder
mas esconderam o dinheiro
esconderam tudo
para que alguém encontrasse
e fizesse um poema

Augusto Meneghin

domingo, 2 de outubro de 2011

uma igrejinha


nada é mais patético e belo
e difícil
que a igrejinha abandonada:

o capim no altar, as goteiras
a infiltração das estrelas

e as velas gastas
como pequenos pilares
do escuro.

nunca vi
uma igrejinha baldia
mas

se agora a vejo
(as lembranças tomadas de mato
e uma única açucena)

algo em mim que remontasse
campeia por dentro
                    monta ali acampamento
                    ou indigência

    e me lembro
                                
                    da poesia,
                    do amor que não se lembra


Rodrigo Madeira

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011


LIQUIDEZ DA PALAVRA MIGA


ELÉTRONS
NA DANÇA INQUIETA
DO ESPAÇO
ALTERAM
A SUBSTÂNCIA
ENCANTADA
DO SUBSTANTIVO
AMIGA


ÁTOMOS
 DE ARESTAS IMPRECISAS
PROCURAM
ESSÊNCIA DE HUMUS
NOS PLEXOS
 HUMANOS
DA PALAVRA
 M I G A


DESATINO
DE PARTÍCULAS
 DECANTAM
ANEXOS DE VIDA
NAS MARGENS
ÁRIDAS
DA PALAVRA
INIMIGA

NO CENTRO E NOS
 EXTREMOS
DA PRÓPRIA
LIRA

M I G A

 NÂO SABE
SE RIMA  MILAGRE
DE PRECES
 OU APARECE NOVA
COMO PEDRA
LAVADA
NA CORRENTEZA
VIVA

QUE DIGAM EM VERDADE
- SÁBIOS E POETAS -
OU MESMO
 DIGAM EM MENTIRA
 NEUTRONS DE
TODOS OS DIAS

MIGA
PODE SER
AMIGA?
OU PODE VIRAR

INIMIGA?


IMPERMANENTE
IG
FLUINDO
NO CENTRO DO
 ENIGMA

INSEPARÁVEIS
FOTONS
 ILUMINANDO
CANTOS DE PREFIXOS
E OUTROS ANEXOS

QUE EM CASO DE
 CIRCUNSTÂNCIA
IMPREVISTA
PELO SIM,
 PELO NÃO,
PELO QUASE, PELO ENTANTO
SEJAM GUARDADOS
 CONTORNOS DA PALAVRA
MIGA

ENQUANTO NAVEGO
 ONDAS DE PESCA
OU DE PESQUISA
NO MIRANTE DOS
 MARADIGMAS.


   GLÓRIA KIRINUS

terça-feira, 27 de setembro de 2011

História da Fome

. primeiro sintoma

não ter fome de si:
início das ferragens monetárias
cobrindo o aposento dos olhos

recorrer às artes retinianas

discorrer longamente sobre um marxista não
traduzido do russo

desaprender pianos
colocar luz em quase todos os textos

desde a invenção do
D (origem na escrita hierática egípcia,
seu ancestral mais antigo recebeu o nome de deret (mão),
quando os fenícios o adotaram o mesmo passou a se chamar daleth (porta).)
é que a mão tornou-se uma porta
e porta sinônimo de burrice,
como dizem alguns

mais à frente
com o transcurso da consciência
e a introjeção dos conceitos puros
a fome
(como palavra)
enquadrou-se no biológico

a partir disso
a mão não leva o alimento à burrice
mas apenas
à boca

segundo sintoma
apagar a memória do universo com
o tempo presente
invocar a sordidez das citações
em bibliografias extensas

citar

reproduzir com a permissão do autor
conhecer a boca em silêncio
tirar xerox das mãos agradar
o olho e não o tato

com a invenção da roda
o homem achatou o pé
e viciou-se em coca-cola

o uísque só é servido aos pilotos de Hiroshima


.terceiro sintoma
acordar pela manhã
e não ter tesão pelo sexo
tomar banho
justificar as guerras
sofrer em silêncio pela
perda de si

quarto sintoma:

a pele não sofrerá
a pressão do cotidiano:
os punhos serão suaves
a inteligência prudente
a câmera digital baterá fotos em espelhos:
tomarás sua imagem como a essência do ser
mas isto é gravura

sintoma 5
prescrição de um médico escroto
olhar as fezes
recolher argumentos
ignorar a invenção da letra D
alimentar-se exclusivamente pela boca
dormir em paz e sem paixões loiras
evitar o sexo oral
investigar as questões teológicas
sufocar definitivamente os pássaros itinerantes
colecionar aviões metálicos
& jogar video-game
jogar video-game

os dedos conhecerão
silício
mas não a profundeza dos chips
saberão que verde
é uma cor
apenas isto
bastará ao espantalho do amor
sorrindo em sua altitude
de homem medíocre

Augusto Meneghin

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Encantada fada verde
Espalha vida e me ensina.
Voa da minha janela
Contemplando o azul, a lua, o sol.
Adensa-me as raízes o teu vôo
Pássaro de folhas,
Fada Verde Macieira
Se lançando ao ar

Angela Gomes

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ZOZ


sempre fumando o primeiro
do último cigarro

rente à caravana dos sete

com uma luva chroma key
a lustrar o pó
das carcaças deterioradas
pelo sopro incansável 
do universo
cineasta

uma forma inédita para o lavar de mãos

a carne gelada de um pentagrama
na face
a máscara do geômetra
e do ilusionista

tudo é aberração
cromática, sonora

o caos é um cerebelo em sublimação
o paraíso é azul-hematoma
colagem epifânica

link sobre link
a perdição dos atalhos

com um velho idioma na língua
serpentina
enrolada
no vocábulo
spare

kia, a primeira
selada
na coluna
binária

cavalgando páginas e páginas
de sílica & mímica

no dorso, no dorso
do monstro imaginário


Andréia Carvalho 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011