quinta-feira, 24 de setembro de 2009

três inscrições para uma noite

1.
aramos nossos corpos
hasteamos a carne
naufragamos os ossos
afiamos a pele

jardinamos os pelos
vozeamos as unhas
rasuramos os lábios
semeamos os dentes

desfazemos em tempo
os nós de cada dedo
elastecemos os

tornozelos acróbatas
abrimos as gavetas
dos olhos e cabelos.

2.
quando eu a vejo,
esparramada
na cama, rama
de musgo e líquen,

de perfil – por
trás de seu ombro –,
também por dentro
de suas coxas,

desejo entrar
na eternidade,
mesmo sabendo

que a faz tão bela
exatamente
o fim das coisas.

3.
você paloma
se esbate cega
em minha pele,
luta e lençol.

lhe oferto um cravo
e nada mais.
nós morreremos?
meu endereço

é a minha carne.
mordemos drágeas
dos amanhãs

ou cianureto.
acordo, no(u)
mau hálito de amanhecer

(e foda-se o soneto), com
um soco de perfume.

Rodrigo Madeira

2 comentários:

Magamim disse...

o teu brilho é o do sol, Poeta.

eu
rosno uivo minha indignação à lua

salivando, feito cão sarnento
ao relento por vias decoradas.
nu de corpo e alma lameada
bebo da poça da calçada
a chuva que ainda não chegou.

Tullio Stefano disse...

Um aroma envenenado no ar;o suicídio de cada manhã, respondendo que tudo começa porque termina.
Ah o soneto como ''soco de perfume''maneiro paca!