sexta-feira, 1 de junho de 2007

O X DE BRASÍLIA

livro "Aranha Castanha e outras tramas" (Editora Cortez, Gloria Kirinus)


Para Mário e José Carlos

Por que será que cada cidade tem sua consoante? Não, não vou perder tempo, neste momento, enumerando a consoante que predomina em cada cidade que visitei nesta vida. Ficarei com Brasília e sua inseparável letra X.
— Siga pelo eixo, pelo eixo, pelo eixo! — grita alguém da janela do carro, interrompendo a minha reflexão em torno de letra tão complexa de anexos.
— Por onde? Xiiiiiiiiiii, será que esta cidade tem nexo?
— Pelo Eixo Norte, duas vezes, e mais duas, pelo Eixão.
— Vejamos, eu não entendi: faço o contorno da tesoura que assim, aberta, tem cara de X. Logo, deparo com o Eixinho Sul e depois, você explica, que devo contornar o Eixão? É isso mesmo? Será que não existe maneira mais simples de indicar caminhos?
Saí de Brasília em linha reta com receio de encruzilhada. Quero dizer, tentei sair. Logo apareceram outras letras e a primeira impressão desconexa sobre a cidade começou a ganhar outros eixos. É que alguém me orientou com muita calma:
— Quer sair da cidade? Então, procure a W3 no sentido L2.
— Não entendi, desculpe, poderia ser mais claro?
— Veja, minha senhora: a W3, Norte e Sul, na verdade é uma só. E a L2, Norte e Sul, na outra verdade, é também uma só.
— Estou começando a compreender. Quer dizer que as retas que se cruzam fazem um enorme X. É isso aí?
Recortei o resto da explicação com a tesourinha e refiz o caminho seguindo novo rumo. Quando vi estava no mesmo lugar, dando volta ao mundo.
Espera aí, Brasília tem forma de avião, superquadras de um lado, quadras menores do outro. Seguirei a lógica das asas e do corredor no meio, claro. Mas a cabine apontando o Congresso está no extremo Norte ou no extremo Sul? Bem, isso depende das voltas que deu o avião. Ou será que depende das voltas que eu mesma dei?
Pressinto que a confusão é mais subjetiva que objetiva. A verdade é que Brasília prende seus visitantes, no fluxo de seus corredores internos e também externos. Prende nos seus contornos pares e ímpares, nos seus pontos fixos e sufixos.
Bem, já que Brasília não me deixa sair, vou ficando por aqui, aproveitando para conhecer as outras letras. Xiiiiiiiiii... acho que me perdi no trânsito e no alfabeto. Qual era mesmo o X da questão?

Publicado no livro "Aranha Castanha e outras tramas" (Editora Cortez, Gloria Kirinus)

Mário, Feliz Aniversário!

3 comentários:

Andréa Motta disse...

Mário

Feliz Aniversário!!!
saúde, amor, paz poesia e muita felicidade em seus caminhos!
Beijos.


Glória.

Belissima Crônica, parabéns!
beijos.

Andréa

Pó & Teias disse...

FELIZ ANIVERSÁRIO, MÁRIO!!!!!

E Glória...sem comentários...rsrs

Mario Auvim disse...

eae gente... brigadão... amu vcs todos... b-jus e abraços nos seus corações