segunda-feira, 4 de abril de 2011

sobre a temível máquina de escrever

william burroughs sentado
com os dentes já gastos
por revelar sonhos
à um gato persa
que lhe ignora
desde 1964

foi assim também
com o papel contínuo
preenchendo sete aposentos
numa perspectiva vertical
(o relógio de de Chirico levantando ventos
com o passante de calças abertas)

a tinta lentamente de preta à cinza
o tac
tac
tac
trrIiiimm
(volta o horizonte ao ponto inicial na qual o olho

está em pleno repouso,
quase a sensação de alívio que trazem os divórcios)
uma xícara preta de café
& a lista com afazeres:

.psicanálise às 11:30
. alimentar a esperança com alface
.sorrir ao Sr. Parolla (que tem alzheimer)
. esquecer definitivamente

ler no jornal pousado sobre a mesa que o vazamento de radioatividade se espalha
ter a certeza de que tudo o que é lido em qualquer jornal deve ser aumentado dez vezes
passar a camisa preta que gosto
o mais rápido possível
para que o ponteiro dos segundos
não impeça que eu chegue atrasado ao lugar que
estou indo

ao caminhar pela rua não posso levar
meu piano imaginado
& nem a velha máquina olivetti sem tinta
devo me frustrar por não andar de trem
e nem ter um mar dentro de uma ampoula de colírio
a voz impossível da humanidade batendo batendo
com a língua na máquina de fazer objetos úteis
o crânio de william shakespeare em teatros escolares
to be or not to be
too much
for you and me
que não somos, afinal,
dramaturgos do séc. XVI
nem temos uma concepção de tempo
que abarque a possibilidade de um romance sincero
o que nos resta é talvez
um vaso triste de Van Gogh


Augusto Meneghin

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