quinta-feira, 7 de abril de 2011

4 peças para ferrugem

a)

     parafuso
    
não de rosca soberba
para chapas de metal.
    
segurou quadros? fixou
     sextavado o esqueleto da cama?
     emprenhou porcas, coadjuvou
     dobradiças e roldanas?
    
     um tendão de aço
     que não vale
     nada sobre nada
    
existirá
     sem qualquer bênção de deus
     centenas de anos

b)

skol cerveja pilsen
beijou os lábios da mulher
no verão de 85?
   
esta veio dar na praia

as axilas do tétano
cheiram a ferro de sangue.

quando o sol bate
no último cm²
brunido e intato
da folha-de-flandres

brilha mais que diamante

c)
      quem já viu
      um arpão
      oxidado
      no meio
      de uma cidade
      sem praias?

d)
        o quarto objeto
        é um poema.

        não costumam ser
        inventariados em capões
        ou ferros-velhos
        comidos de ferrugem
        os poemas.

        mas ninguém o leu
        ninguém
        sequer o escreveu
baldio
sem o que ter sido ou dito
        ninguém diz:
                              um poema!
       
        mais agora
que a lepra
do metal o faz
 – no chão vermelho
ervas rasteiras do alfabeto –   
ainda mais patético          
e ilegível


Rodrigo Madeira

3 comentários:

augustomeneghin disse...

& que esta ferrugem exalada do poema carregue um vírus nascido em 1789, um vírus que, adormecido, esperou que o fim fosse anunciado. que ele torne os homens em inúteis, porém sonhadores.

Anônimo disse...

e há tempos há ferrugem nos sorrisos e só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção

o poema está supercalifragilistic espiralidoucious

n.

Neysi disse...

Pó, teias e ferrugem? Pode ser, mas eu gostei!