sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Ela, que contraiu matrimônio com Tânatos, e nos deixou cedo demais

Oisive jeunesse
À tout asservie;
Par délicatesse
J' ai perdu ma vie.

Arthur Rimbaud; Chanson de la Plus Haute Tour

atino em eufórica
sensação de escombro:
mais importante que ser feliz
é estar vivo!

Rodrigo Madeira; lanterneiro


para i. v.


Réplica de Walter
Benjamin,
sem poder cruzar
fronteiriças regiões
psíquicas,
em ágil e instantâneo
movimento,
você deslocou a
vida para fora de si.

Restou o nó na garganta,
os pés no vazio,
desfraldado pavilhão
do desperdício.

Retorna o sol manso,
de inverno,
aquecendo outra
manhã de segunda

(só você não viu?)

das rotinas sonâmbulas,
do mesmerismo coletivo
vendido por oneroso
suor à indústria
da mídia.

E suas carnes não mais ninho
de ávidos amantes,
nem seus ouvidos para 
only rock and roll
but we like it,
nem seu paladar
a saborear colheres
de chocolate com amêndoa,
ou lúpulo fermentado.

Nem o colo
inestimável,
imprescindível
para suas meninas

(suas meninas, meu derradeiro
argumento)

Só o monstro do Real
agora lhe devora.

Restei, com essa cara
de panaca
que me olha do
lado do mundo de Alice
e um ar tão denso
quanto um derramamento
de óleo.

Não bebi do mesmo
copo para medir
as perspectivas da escolha
porém, você também
não bebeu dos que,
no dia seguinte,
foram convertidos a
meras estátuas de sal,
sem filha,
sem mãe,
sem irmã,

nem igual.

Se, símile ao torna-lar e
ambidestro na Arte,
próximo à rocha
onde os rios ecoam,
consagradas oferendas
ao cavado fosso,
invocada licença
aos guardiões do Érebo,
pudesse ver sua ânima,
estaria você mais sábia?

E, estando mais sábia,
desvelado Tânatos e seu
enfadonho mistério,
rogaria à Perséfone ou
à qualquer Orishá balê,
que voltasse à matéria
por apenas uma noite,
no verão,
para, com suas filhas,
poder simplesmente
admirar sóis longínquos
e com elas rir,
sem nenhum motivo.


Ricardo Pozzo



2 comentários:

rodrigo madeira disse...

dom pozzo, não é por retribuição a esses meus versinhos acacianos aí na epígrafe...
o poema ficou muito, muito bom. triste, mas tbm uma beleza...

twelvetribes disse...

Passos em direção aos portais inconscientes da responsabilidade solitária e midiática do pop star evocado a substituir o Gianechini. Suas lentes não captaram a aurora progressista da terceira guerra nuclear explodindo pastéis chineses de boiadas sertanejas embascadas em frente à Rede Globo e à televisão paradigma americana. Ricardo pagou com a mesma moeda de spams cyber-ativos de suas lágrimas raras em estrutura cognitiva frágil na cadeira-elétrica da sexualidade brasileira que é a produção pseudo-intelectual, pseudo-diplomática, pseudo-humanista carioca que trazem para Curitiba a estimular nossos Daltons a ligar a mesma hipnose da televisão em nossas faces européias, inconscientes gestos de amizade no novo mundo à mesma solidão de respostas teológicas efetivas à salada cultural midiática oferecida aos consumidores de literatura.