quarta-feira, 17 de junho de 2015
Muros II
Países abandonados canibalizam suas populações expurgando
cada fibra humana, empilhando em pesadelo seus restos transformados em
diamantes, urânio, ouro, petróleo, mais além de seus rins, fígados pulmões e
sangue, o sangue verde de sua pujante riqueza tropical, da biblioteca contida
em suas raízes culturais, na tradição de seus autóctones patenteados, que
jamais terão suas moléstias curadas em prol da saúde e a prosperidade das
fortalezas setentrionais.
Aos pés dos muros, fugitivos da angústia, expropriados de
seus órgãos, de suas famílias famélicas se arremessam à luz esfumaçada da
França, Espanha, Itália e são devidamente expelidos após serem usados. Caem aos
montes, às moscas da carniça de seus sonhos, a desilusão, o sonho de fazer a
América, que quer braços e não bocas sobram presídios cinco estrelas para
aqueles que não terão vaga nesse arame farpado estendido no alto dos
arranha-céus onde as feras do desemprego fazem suas vítimas.
Muros onde cada tijolo é um auto-engano da boa sociedade
burguesa, hipócrita, purgando suas consciências, dando esmolas, atuando no
teatro paternalista de medidas paliativas, de politiqueiros de plantão, na
cordialidade estudada de preconceitos velados, manifestos no vidro de seu
caviar, se espraiando dos incluídos nas calçadas, ignorando o direito de ir e
vir da massa amorfa e pútrida das não pessoas.
A elite nos países desmoronando tal o peso de seus muros
sociais, econômicos, psíquicos.
Os construtores das barragens para conter a barbárie não se
veem bárbaros, sua autofagia virótica, porque anular no outro o resultado do
flagelo que provocam, escondem no sótão o quadro purulento de seus excessos, o
poder produzido através do acúmulo pela expropriação, pela concentração das
riquezas a partir da contração de oportunidades, sem olhos para ver a luta
ciclópica, caminham para o suicídio, atentam contra o seu próprio status e
privilégios no arrancar da esperança da massa, tão estupefata em suas delícias,
tão delirantes em suas obras, não veem se aproximar à queda de suas fortalezas,
de seus muros e o fim da transfusão de sangue fétido que alimenta sua relação
com o Estado. Afora seu protetor, o Estado, não podem se proteger da vingança
das não-pessoas, das crianças de olhares sem luz.
Muros I
Todos os dias saltam do alto das muralhas do medo, restos de
desespero, fantasmas sem grilhões. Feridas rasgadas, sulcando de quente sangue
a pele negra, herança do sofrimento no arame farpado da opressão. Os cães do
ódio ladram e seus dentes cravam na carne suja e apodrecida da escravidão.
A afluente aristocracia – dos eupátridas pós-modernos do
alto de seus palacetes – quer perpetuar seu fausto enfastiado, com máquinas que
não comam, não bebam e não se reproduzam, precisam de criados invisíveis que
não ofendam com sua presença.
Os muros são fronteiras que protegem vós mesmos nos outros,
a vossa humanidade, a obrigação de enxergar o contraste no espelho da exclusão.
Denuncia da consequência da ânsia de acumular necessidades supérfluas, carência
de necessidades reais da multidão zumbi, do lumpen.
Os muros correspondem ao medo de se verem despojados de suas
histórias, construídas dos espólios da guerra fratricida entre a cria mais
forte e a mais fraca da loba do sistema.
O abismo se agiganta, as trevas abatem as crias esquálidas
do proletariado no esgoto da exclusão, embrutecendo suas vontades na voracidade
da vingança, cristalizada no crime, incendiada nos entorpecentes, perdidas na
sarjeta.
Os muros são construídos por todos que os exteriorizam na
força repressiva do representante autoeleito , o Estado, forte diante dos
fracos e fraco diante dos fortes.
É quando o subúrbio se levanta e o morro escorre para a
calçada. O subúrbio clama por empregos e o morro por esperança na forma de pão
e dignidade.
Cada tijolo ensanguentado, por quem é colocado?
Só o dólar e o pó atravessam os muros, se globalizam. As
pessoas estão confinadas em seus pesadelos de consumo, chafurdando no lodo que
transformaram as pátrias violentadas.
Caminham, não, se arrastam nas sombras, atravessam desertos
guiados por coiotes, são espremidas em contêineres, vagam em barcos,
escorraçados em sua esperança, lastros de fantasia, patologia. O não-lugar para
as não-pessoas.
A estátua abre os braços, generosa aos miseráveis do mundo
inteiro, generosidade de pedra, cláusula que esqueceram de gravar em seu
pedestal de bondade:
"desde que tenham dinheiro ou voltem para suas cloacas
do terceiro mundo após o expediente, pobreza terrorista que carregam em seus
corpos...".
Muros represam o mar pútrido da pobreza, da violência, que
agride e alimenta o revide. O muro que engole o berço.
A globalização dos muros erigidos, verdadeiras homenagens ao
Apartheid. Os muros ideológicos derrubados a marretadas em Berlim não
permitiram aos embriagados ver o quão inebriados de ideologia estavam. Outros
muros foram levantados: na Coréia do Norte, em Israel ou na fronteira dos
E.U.A. com o México; outros muros construídos com o imperativo de ocultar a
agressiva presença do outro, o estrangeiro, que quer um lugar à mesa, um lugar
ao sol.
Serviçais sentados à mesa dos patrões com seus modos de
sarjeta, com odores fétidos e roupas sujas, restos devorados por suas próprias
mães.
Wilson Roberto Nogueira 12/04/06
terça-feira, 2 de junho de 2015
F E R N A N D O - JB
Ele tem carteira de identidade
como tantos
ele tem CPF
com muitos números
possui carteira profissional
e muitas profissões
endereço fixo
de papelão
filhos com certidão
e uma companheira
para a vida inteira.
na linguagem dos governos
é um cidadão.
Fernando chegou chorando
olhos verdes congestionados
magro, barba por fazer
pedindo trabalho para viver.
Trazia a angústia da fome
dos filhos
que deixará sem comer
falava da falta de leite
falava de não roubar
o que lhe tinham roubado
desculpava-se por ter chorado
queria limpar banheiro
dizia: qualquer coisa posso fazer
minha sogra me chamou
mas nem ela tinha o que comer.
Fome de trabalho
de respeito
de direitos
Dor de abandono
de vergonha
de incompreensão.
Agonia, angústia e ira
remoem seu peito
em conflito chora.
o choro do
desencanto.
Não percebe Fernando
o peso das correntes
do sistema de opressão
que lhe nega o trabalho
quer lhe tira o leite
que lhe rouba o pão.
No rolar da lágrima
o grito da poesia:
"Prendam o ladrões da cidadania!!!"
Cidade, cimento, falta de emprego
que sofrimento.
Como dói estar só na grande cidade.
NÃO!!! Não quero roubar.
Só peço um pouco de leite
para meus filhos alimentar.
Roubaram-me tudo, menos
a dignidade.
Ainda restam-me lágrimas
e muita sinceridade.
Aqueles que não me compreendem
Que nem o tentem.
"Só compreende a dor da fome, quem a sente"
João Bello
Cara, tá faltando inspiração?
É que tu não foi no fundo ainda.
Lá na carne, no nervo exposto,
no tutano do osso.
Lá onde a esbórnia vira esgoto
e todo herói vira o seu oposto.
Tá faltando transcendência?
É que tu não foi no fundo ainda
desta nossa miserável existência.
E só depois do último círculo do inferno
que se pode aspirar ao céu
(ou a um purgatório decente que seja).
E a fé, amigo, é um dom
que só se concede aos desesperados.
Então, vai, mergulha fundo
no fundo sem fundo do poço,
do fosso, do lodo, do oco do universo.
Morde a carne e rói o osso.
E só depois volte aqui, cara, e faça um verso.
Otto Leopoldo Winck
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Depois da guerra
Nas ruas que serpenteiam o
caminhar dos sorrisos provam o ensanguentado sabor seco da pólvora . driblam crânios os fantasmas que
ora dançam em espiral fumaça o coagulado destino dos ausentes.
Ali ,enquanto o açoite da memória transforma os restos da
morada em masmorra ,urra no coração a vida e a despeito das bombas semeadas e
das vidas ceifadas ,o sorriso das crianças brindam o sol que dissipa as pegadas
das sombras e seus muros florescendo o
aço da determinação pedra por pedra até
novas histórias
tenham como testemunha as paredes de mais uma esperança .
Wilson Roberto Nogueira
A Prisão o humo do ódio
A prisão estraçalha a razão e desconstrói o coração
enterrando na merda a esperança
nas sombras que espreitam à ladrar ferozes à noite esmagando as ruínas ossificadas da alma
A lei pesa mais que a justiça e o som de sua voz uma oração
distante cortando o céu em fatias
presas na grade de uma boca sem palavras num rosto sem face.
No continente de espinhos de aço e lodo apodrece o pergaminho dos dias exalando
estórias de fundas cicatrizes de portos em chamas sem barcos para aproveitar a
maré da humanidade
Wilson Roberto Nogueira
sábado, 23 de maio de 2015
MEA CULPA VÍRGULA
A moral vigente é tão cristã
tão arraigada e cegamente
— cristã
que mesmo entre não-cristãos
usa ela de um eterno mea-culpa-
-merda-maxima-maldade-
-vileza-porcaria-blablá-e-culpa
para autoflegelando-se
esmurrando o peito nu
absolver-se a si mesma.
E destarte adquirir a santidade!
Ora, o homem é mal, o homem é vil
o homem possui em si
o dominó dominante do pecado
original desde Matusalém ou Eva.
Assim eu, que sou apenas um homem
sou concupiscente
sou vaidoso, pecador
me chicoteio, sangro
e confesso: canonizem-me, então!
Amém.
Bem, eu de mim, sou bem o oposto.
Eu sou bom, sou puro de coração,
fiel aos amigos, às amigas
mas cruel, implacável – apolíneo
contra invasores do meu espaço.
Eu sou honesto, caseiro
mato mas não minto (muito).
E sou propenso a orgias de sexo
no meu próprio terreno
onde não dispenso as mais novas
nem sequer as consanguíneas
se o cio vencer-me o siso.
Eu sou sobrevivente, meio chacal.
Orgulhoso, mas covarde se convier.
Enfim: não tenho nada dos profetas
e sou a cara do meu Rottweiller!...
Igor Buys
15 de dezembro de 2010
HAICAI COM GASOLINA
Uns usam porque querem.
Outros proíbem porque querem.
A fogueira das volições está queimando gente viva!
Igor Buys
BAGULHO DOIDO
Enrola o bagulho
na borracha preta,
gasolina, erva
pneu sobre pneu.
Um puxa o fumo
e a pele do outro
estoura; nervo aflora,
ignora o barato, caro.
A gordura fervilha
numa poça, o cheiro
vai longe: folha doce,
banha viva chiando,
fumaças se misturando.
Um queima vivo, treme
outro se arregala, geme.
Poetrix de Igor Buys
14 de dezembro de 2010
ENQUANTO ISSO, NO COMPLEXO DO ALEMÃO...
Vovó, por que ele tá assim?
Porque ele tá descansando.
Descansando?
Sim.
Por que ele tá de olho aberto?
Porque ele descansou rápido demais.
Por a gente tá aqui?
Porque ele era seu pai.
Meu pai?
Sim.
E quem são eles?
Sussurrando: Polícia. Não olha pra eles.
Sussurrando: Por que eles tão bravos?
Porque tão com pressa de ir pra casa.
O que é isso?
Sua foto.
Você botou nele?
Sim.
Por quê?
Porque ele veio conhecer você.
É?
Sim.
Por quê?
Porque é Natal.
Vovó, o que é isso?
Presente, minha filha.
Você deu pra ele?
Sim.
Por quê?
Porque é Natal.
Vovó, por que ele tá rindo?
Parece? Vige, Nossa Mãe...
Por que é Natal?
Sim. Porque é Natal.
Igor Buys
HAICAI DE BOTAS
Homem de preto.
Homem de azul.
Homem de oliva.
De vermelho, a poça.
Botas.
Igor Buys
10 de dezembro de 2010
terça-feira, 19 de maio de 2015
Nem pessoas que gosto cumprimento. Abraço ou dou bom dia . Se
me localizarem na rua ,precisam agir como urso de circo e mesmo assim penso que
não é comigo. Não sei se acomodei a esse casaco surrado que é viver comigo
mesmo que de taciturnos óculos vejo nas sombras o sentimento. Gosto das pessoas
e as pessoas que não gosto não precisam saber , basta continuar a vida pois
nada muda o que de atrofiado pelo desuso
encontra se .Bom , sou Eu e continuo sendo quem sou , penso que a
memória do tempo tenha gravado no papel amarelado da vida o crocitar de
grilhagens de afeto .Compreensão basta, entendimento e não colocar no vazio dos
olhos a luz ou a falta de ninguém. Vivemos
espectros dourados procurando quem nos reconheça o brilho mas continuamos
fantasmas .
Wilson Roberto Nogueira
segunda-feira, 18 de maio de 2015
A criança quer provar ao pai que é macho e provoca o tigre
enjaulado, o tigre quer provar a cria do homem que é fera embora enjaulada e
faminta a fera ameaça e baba enquanto vê seu almoço andando de um lado para
outro; lembra das selvas de Bengala e morde o braço do pequeno Sahib.As presas
do tigre puxam a carne dos ossos do pequeno homenzinho para alegria de seu pai
, agora com a certeza da macheza de seu filhote.
Em torno desse cinema ,desse reality show tiram fotos de
celulares os transeuntes, os mesmos que admiram a natureza morta após acidentes
de trânsito só que nesses eventos ficam tímidos para fotografar.
Depois de uns longos segundos de orgulho o pai lembra que
seu filho está exangue e pede ajuda afirmando que a imprudência do moleque
quase custou-lhe a própria vida - a vida financeira do pai que terá que pagar
por um caro tratamento- As pessoas em volta , depois de tirarem fotos ,
chamaram os guardas do parque e uma ambulância .Gritos de revolta e repulsa ao
comportamento descuidado do pai correram por todos os caminhos das selva de
asfalto e grades do zoo .
Com os nervos da alma queimando de remorso( como do ladrão
que uma vez pego terá que cumprir uma sentença branda no inferno de uma
masmorra brasileira ), colocara contra as grades a própria virilidade; da
criança o espelho truncado projetando sua máscara ocultando o covarde olhando à
distancia a fera a avisar com a urina o seu território . O desconforto do
instinto da fera mostrou que o irracional era o homem.
Wilson Roberto Nogueira
As chamas estavam devorando a casa enquanto a madeira
estalava
na fumaça subiam as sombras das vidas testemunhadas pelas
paredes
nos olhos dos espelhos ou nas pálpebras das janelas da casa
em chamas
a porta deitada no chão sentia o olor dos passos da memória
dançando sobre si
A casa virou nuvem e choveu cinzas sobre as rosas dos
túmulos
brotou da choupana um palácio feito de cinzas dos dias de
ouro nos sonhos
da criança que morreu dormindo.
Wilson Roberto Nogueira
No coração do meu cansaço perdido me encontro no mais
profundo mar.
Busco; enquanto ao torpor acorrentado estou, a chave de
respostas que olvidei
Perguntas que ceifam meus dias tornando abissais os sois de
minhas alvoradas
Nesse repouso indócil agigantam-se sombras como brasas
gélidas de incêndios
incontidos cansaços de batalhas não enfrentadas que sugaram
o sangue dos meus sonhos
Agora a fatura da minha deserção em viver com paixão e luta
a vida que me brindara de desafios
abrira diante de mim esse oceano tal de sal e silêncio no
meu último sepulcro.
No coração acorrentado as chaves são tuas incaroavel Sorte.
Fugidia consorte até tu ó Morte afastara-se em pesadelos dos
meus sonhos de ouro e glória.
Wilson Roberto Nogueira
terça-feira, 12 de maio de 2015
F fall / falls / fast / fell / flog
cabalgar un cavalo morto: que esporte tolo. preferimos vê-lo voar de novo, sem estrias dentro de sua baia, ou na sua falta, antes que caia: bem e vivo. e se ágil, que seja rápido como água, un saco brillante, que levou astucioso, que nenhuma porta o trava antes da fonte, nenhuma regra ou correia para nos deter em nosso trabalho até fazer os cascos de digitalização.
Uljana Wolf/ transcriação Ricardo Pozzo
F fall / falls / fast / fell / flog
to flog a dead horse: vergeblicher sport. wir wollens lieber wieder fliegen sehn, ohne striemen stehn im stall, im herbst, in jedem fall before it fell: well & lebendig. und falls wendig, fast as water: schillerndes fell, wir striegelten faster, dass keiner einen riegel schöbe vor den quell, eine regel, oder riemen, oder was sich sonst hier schindend pflog.
Uljana Wolf
domingo, 10 de maio de 2015
Bagaceira
Troquei meu carro por um tapete voador, vesti meu casaco velho sem valor, quebrei meu único saca-rolha, passei horas com um plastico-bolha, esqueci de mandar aquele bilhete, varreram o lixo para cima do tapete, defecaram na estatua da praça, desgraça pouca não tem graça, comeram o pão que o diabo amassou, ha gente que não vai mas eu sei aonde vou, entupiram o saxofone, aumentaram o preço do Danone, sequestraram o papel higiênico, Putin não e fotogênico, puseram alcool no tanque de gasolina, adoçaram o café com cocaína, passaram manteiga no meu sapato, achataram o pé do pato, estragaram minha pizza com abacaxi, proibiram o bebê de fazer xixi, usaram limão amarelo na caipirinha, chamaram frango de galinha, acreditaram na Rede Globo, ovelha foi namorar lobo, paraquedista pulou de mochila, Francisco agora se chama Camila, fieis flertaram no sermão, evangélico e tudo irmão, dizer bom dia e ofensa, o povo pensa que pensa, ovo batido virou omelete, pisei firme num chiclete, abracei um gamba, nao sei se houve ou se ha, medi a fundura do poco, cobrei pedágio no fosso, catei conchinhas na praia, corri atras dum rabo de saia, escutei o violeiro só tocar por dinheiro, fui pra Franca e ignorei Paris, fechei a torneira do chafariz, dei um pontapé no traseiro do politico, fiz caminhar o paralitico, dei um cascudo num jacare, matei um bicho-de-pe, deixei Dylan sem harmônica, tomei gin sem água tônica, pus o relógio no pulso direito, conjuguei o pretérito mais-que-perfeito, dei um no no rabo do diabo, rebaixei o general para cabo, atirei o colete salva-vidas, esfolei vivo o Rei Midas, voei sobre a Amazônia, casei-me com a insonia, soltei as tiras da Havaiana, descobri o que tinha a bahiana, tomei um gole de cachaça sozinho no banco da praça.
Luigi Contini
sexta-feira, 1 de maio de 2015
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Clandestino na cidade que cresci, por três dias andarilho a deriva, qual vagasse pelas areias das praias de Troia, com as tripas coladas às costas, tragando apenas o hipogástrico alumínio do amargor.
Já exausto, por acaso, uns missionarios de sei lá qual igreja me oferecem a marmita do Jardim das Delícias.
Já exausto, por acaso, uns missionarios de sei lá qual igreja me oferecem a marmita do Jardim das Delícias.
Há tempos, eu e meus desseseis dentes, não éramos tão felizes.
Ricardo Pozzo
Ricardo Pozzo
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Sebastião Salgado
A miséria
Só é bonita
De longe
Ela é linda
Metafisicamente
Acéptica
Na fotografia
Velada
Pelo obturador do artista
Fausto dos Santos
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Em uma Páscoa passada
Três caras pararam o automóvel ao meu lado e saíram gritando:
- Perdeu, playboy! Pode ir passando o dinheiro e o telefone!
Eu, num arroubo de coragem e tentativa de esquiva lírica respondi:
- Playboy nada, rapá! Sou poeta.
Então o porta voz da empreitada tranquilizou-se e disse:
- Ele é poeta, malandrage, então tá com sorte hoje, não vamos mais te roubar, vamo é te bater pra largar mão de ser besta. Onde já se viu poesia ser profissão agora... pra ter este telefoninho de merda...
Aí, possuído de uma dose extra do arroubo, respondi:
- Oras, se vocês são ladrões de profissão, por que não posso ser poeta? Além do mais os poetas também são ladrões, ladrões de fogo, nunca leram Rimbaud?
Respondeu ele:
- Ler não li, mas quando era piá vi todos os filmes dele... tá bom, então pela consideração à camaradage profissional não vamos mais te bater... passa o dinheiro e o telefone...
Ricardo Pozzo
- Perdeu, playboy! Pode ir passando o dinheiro e o telefone!
Eu, num arroubo de coragem e tentativa de esquiva lírica respondi:
- Playboy nada, rapá! Sou poeta.
Então o porta voz da empreitada tranquilizou-se e disse:
- Ele é poeta, malandrage, então tá com sorte hoje, não vamos mais te roubar, vamo é te bater pra largar mão de ser besta. Onde já se viu poesia ser profissão agora... pra ter este telefoninho de merda...
Aí, possuído de uma dose extra do arroubo, respondi:
- Oras, se vocês são ladrões de profissão, por que não posso ser poeta? Além do mais os poetas também são ladrões, ladrões de fogo, nunca leram Rimbaud?
Respondeu ele:
- Ler não li, mas quando era piá vi todos os filmes dele... tá bom, então pela consideração à camaradage profissional não vamos mais te bater... passa o dinheiro e o telefone...
Ricardo Pozzo
terça-feira, 3 de março de 2015
OS GANCHOS DO AÇOUGUEIRO
Um dos suplícios mais usuais da Idade Média consistia em
punçar
a língua dentro da boca com ganchos de açougueiro.
A vítima berrava para o carrasco mouco:
o único consolo dos mortos é não morrer nunca mais.
Ao ousar novas palavras,
o escritor aciona o fracasso do signo em dizer algo do que
é:
o madeiro que me refresca a fronte é galho de limoeiro,
na tigela planto um trevo de quatro folhas para curar o
aziago.
Aprendo com a voz do velho vento que sopra de leve a
cortina:
“Só quem bebe do leque da pavoa
esquece vírgulas e mata a morte”.
Agimos sob a fascinação do impossível:
isto quer dizer que – uma sociedade incapaz de consagrar-se
à ilusão –
está ameaçada de esclerose e de ruína.
Texto: Fernando José Karl
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
No teatro elizatibetano
Para os 121 anos do cerco da Lapa
Estrela da manhã que
sob este fosso
fez teu raio resgatar os prismas
que desencarnaram porque
amaram
às últimas consequências.
Ricardo Pozzo
Estrela da manhã que
sob este fosso
fez teu raio resgatar os prismas
que desencarnaram porque
amaram
às últimas consequências.
Ricardo Pozzo
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Gárgula
Dois haitianos dividem
o cachimbo
com a sinhazinha ecoville
na sarjeta, sob escombros
da senzala;
passo ao lado.
Na real, azumbizados
seduzidos pela pomba
giratória dominante,
vestida em sua melhor pele
cor de leite,
que dos negros jorra
entre seus lábios.
Ricardo Pozzo
o cachimbo
com a sinhazinha ecoville
na sarjeta, sob escombros
da senzala;
passo ao lado.
Na real, azumbizados
seduzidos pela pomba
giratória dominante,
vestida em sua melhor pele
cor de leite,
que dos negros jorra
entre seus lábios.
Ricardo Pozzo
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Pra colher alumínio
No terminal a
fleumática
madame, em inflexão
sexual, paralisa
ao lado de
um haitiano.
Enquanto um
Van Gogh
sertanejo,
tão mais
sofrido
que Descartes,
entra em um
latão que se
arregala
de medo.
Ricardo Pozzo
fleumática
madame, em inflexão
sexual, paralisa
ao lado de
um haitiano.
Enquanto um
Van Gogh
sertanejo,
tão mais
sofrido
que Descartes,
entra em um
latão que se
arregala
de medo.
Ricardo Pozzo
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Nós que ouvimos por sobre
as cabeças o relinchar do morteiro
que lemos o futuro nas tripas
dos nossos
Que cheiramos as latrinas do espírito
que tocamos o tremor da pedra
como a um coração desesperado
Que lambemos o mijado ventre
da terra que persistimos apesar de tudo
e de nós próprios
Somos os que ainda permanecem
em giletes os que ainda têm
pupilas como estilhaços candentes
aqueles que às vezes continuam se
arrastando pela noite
os que ainda sonham
em regressar algum dia
Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo
Nosotros que escuchamos sobre
las cabezas el relincho del mortero
que leímos el porvenir en las tripas
de los nuestros
Nosotros que olimos las letrinas del espíritu
que tocamos el temblor de la piedra
como un corazón desesperado
Nosotros que lamimos el meado vientre
de la tierra que persistimos pese a todo
y a nosotros
Somos los que aún permanecemos
en cuclillas los que todavía tenemos
las pupilas como esquirlas candentes
los que a veces nos seguimos
arrastrando por la noche
los que todavía soñamos
con regresar algún día
Gustavo Caso Rosendi
as cabeças o relinchar do morteiro
que lemos o futuro nas tripas
dos nossos
Que cheiramos as latrinas do espírito
que tocamos o tremor da pedra
como a um coração desesperado
Que lambemos o mijado ventre
da terra que persistimos apesar de tudo
e de nós próprios
Somos os que ainda permanecem
em giletes os que ainda têm
pupilas como estilhaços candentes
aqueles que às vezes continuam se
arrastando pela noite
os que ainda sonham
em regressar algum dia
Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo
Nosotros que escuchamos sobre
las cabezas el relincho del mortero
que leímos el porvenir en las tripas
de los nuestros
Nosotros que olimos las letrinas del espíritu
que tocamos el temblor de la piedra
como un corazón desesperado
Nosotros que lamimos el meado vientre
de la tierra que persistimos pese a todo
y a nosotros
Somos los que aún permanecemos
en cuclillas los que todavía tenemos
las pupilas como esquirlas candentes
los que a veces nos seguimos
arrastrando por la noche
los que todavía soñamos
con regresar algún día
Gustavo Caso Rosendi
ISTO É COISA DE:
gustavo caso rosendi,
ricardo pozzo,
tradução
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
domingo, 23 de novembro de 2014
A Voragem da Vertigem
Austera,
a escaldante face
anti séptica do sol
desperta
a ela
que
das meia verdades
impressas,
costurou a coberta
na desestratégia
de resguardar a si
dos ventos
e seu remordimento,
das estrelas
em deslumbradas
enxurradas,
da fome que encalacra
seu fétido perfume
Ricardo Pozzo
a escaldante face
anti séptica do sol
desperta
a ela
que
das meia verdades
impressas,
costurou a coberta
na desestratégia
de resguardar a si
dos ventos
e seu remordimento,
das estrelas
em deslumbradas
enxurradas,
da fome que encalacra
seu fétido perfume
Ricardo Pozzo
sábado, 11 de outubro de 2014
A quem caberia decifrar a cartografia do acaso?
I.
Elegância, lírios dos detalhes
se rangem vibráteis fibras que
aos pelos eriçam
Zunem asas, aguçam
rútilas quelíceras
e rara pulsa prenha
a peçonha do furor
II.
Intrusa, em sericígena mortalha desfaz-se
qual aurora transfixada por torres de babel,
vítreas lâminas; arranha céus
Ricardo Pozzo
Elegância, lírios dos detalhes
se rangem vibráteis fibras que
aos pelos eriçam
Zunem asas, aguçam
rútilas quelíceras
e rara pulsa prenha
a peçonha do furor
II.
Intrusa, em sericígena mortalha desfaz-se
qual aurora transfixada por torres de babel,
vítreas lâminas; arranha céus
Ricardo Pozzo
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Clamor por Inspiração
Eu me deito, sem sono
E espero que me visites,
Espero que me preenchas
E me pintes com ideias
claras.
Eu me levanto e rodeio
os cômodos
Enquanto aguardo tua
iluminação perene,
Teu lampejo de conforto
Que me ponha útil nesse
ofício sem capital
- a poesia.
Eu te procuro entre
cafés amargos,
Sob estrelas distantes,
entre esferas vagas.
Eu te entrego tudo o que
sou:
Inspiração, desassossego
da carne, jardim bem cuidado...
E espero que me
retribuas em mais mistério.
***
Há angústia e medo se
acumulando pelos cantos;
Há promessa de amor me
atravessando o continente
Regando de desejos essas
esperanças sedentas e sertanejas.
Hérlon
Fernandes Gomes (10/06/1981) é natural de Brejo Santo, uma pacata cidade do sul
cearense, da conhecida região do Cariri, um berço de cultura do estado.Começou
a escrever seus poemas na adolescência, publicando os primeiros textos em jornais
da região e periódicos do curso de Direito da Universidade Regional do Cariri,
de onde obteve o diploma de bacharel, sendo inscrito na Ordem dos Advogados do
Brasil, Subseção Crato. Paralelamente à carreira jurídica, o autor é amante da literatura,
especialmente da poesia, de quem se diz “apenas um instrumento usado para
transportar ao papel as emoções que podem nascer de todos os homens.”Em
2008, publicou seu primeiro livro, intitulado GEMINIANOS – POEMAS DE
DESCOBERTA, de carga confessional, passional, em que o autor disseca,
principalmente, os estágios de gozo e sofrimento do amor. Nesse mesmo ano,
começa a
escrever um blog, intitulado ARQUEOLOGIA DA ALMA (http://arqueologiadaalma.blogspot.com.br/),
espaço dedicado a dar vazão à arte que lhe mina. LÚMEN – ENTRE OS MATIZES DA
ALMA E DO CORAÇÃO é seu segundo livro publicado. Ao longo dos 150 poemas que
compõem a obra, dividida em oito partes temáticas, o autor nos convida a refletir
sobre os horrores de um mundo caótico, povoado pelo terror de guerras reais e
do ego, do artificialismo do ser; mas, sobretudo, nos alerta para que não percamos nossa imorredoura capacidade de se
apaixonar, de amar e de ter esperanças, sempre
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
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