quarta-feira, 17 de junho de 2015


Muros II



Países abandonados canibalizam suas populações expurgando cada fibra humana, empilhando em pesadelo seus restos transformados em diamantes, urânio, ouro, petróleo, mais além de seus rins, fígados pulmões e sangue, o sangue verde de sua pujante riqueza tropical, da biblioteca contida em suas raízes culturais, na tradição de seus autóctones patenteados, que jamais terão suas moléstias curadas em prol da saúde e a prosperidade das fortalezas setentrionais.

Aos pés dos muros, fugitivos da angústia, expropriados de seus órgãos, de suas famílias famélicas se arremessam à luz esfumaçada da França, Espanha, Itália e são devidamente expelidos após serem usados. Caem aos montes, às moscas da carniça de seus sonhos, a desilusão, o sonho de fazer a América, que quer braços e não bocas sobram presídios cinco estrelas para aqueles que não terão vaga nesse arame farpado estendido no alto dos arranha-céus onde as feras do desemprego fazem suas vítimas.

Muros onde cada tijolo é um auto-engano da boa sociedade burguesa, hipócrita, purgando suas consciências, dando esmolas, atuando no teatro paternalista de medidas paliativas, de politiqueiros de plantão, na cordialidade estudada de preconceitos velados, manifestos no vidro de seu caviar, se espraiando dos incluídos nas calçadas, ignorando o direito de ir e vir da massa amorfa e pútrida das não pessoas.
A elite nos países desmoronando tal o peso de seus muros sociais, econômicos, psíquicos.

Os construtores das barragens para conter a barbárie não se veem bárbaros, sua autofagia virótica, porque anular no outro o resultado do flagelo que provocam, escondem no sótão o quadro purulento de seus excessos, o poder produzido através do acúmulo pela expropriação, pela concentração das riquezas a partir da contração de oportunidades, sem olhos para ver a luta ciclópica, caminham para o suicídio, atentam contra o seu próprio status e privilégios no arrancar da esperança da massa, tão estupefata em suas delícias, tão delirantes em suas obras, não veem se aproximar à queda de suas fortalezas, de seus muros e o fim da transfusão de sangue fétido que alimenta sua relação com o Estado. Afora seu protetor, o Estado, não podem se proteger da vingança das não-pessoas, das crianças de olhares sem luz.


Wilson Roberto Nogueira



Muros I


Todos os dias saltam do alto das muralhas do medo, restos de desespero, fantasmas sem grilhões. Feridas rasgadas, sulcando de quente sangue a pele negra, herança do sofrimento no arame farpado da opressão. Os cães do ódio ladram e seus dentes cravam na carne suja e apodrecida da escravidão.
A afluente aristocracia – dos eupátridas pós-modernos do alto de seus palacetes – quer perpetuar seu fausto enfastiado, com máquinas que não comam, não bebam e não se reproduzam, precisam de criados invisíveis que não ofendam com sua presença.

Os muros são fronteiras que protegem vós mesmos nos outros, a vossa humanidade, a obrigação de enxergar o contraste no espelho da exclusão. Denuncia da consequência da ânsia de acumular necessidades supérfluas, carência de necessidades reais da multidão zumbi, do lumpen.

Os muros correspondem ao medo de se verem despojados de suas histórias, construídas dos espólios da guerra fratricida entre a cria mais forte e a mais fraca da loba do sistema.

O abismo se agiganta, as trevas abatem as crias esquálidas do proletariado no esgoto da exclusão, embrutecendo suas vontades na voracidade da vingança, cristalizada no crime, incendiada nos entorpecentes, perdidas na sarjeta.

Os muros são construídos por todos que os exteriorizam na força repressiva do representante autoeleito , o Estado, forte diante dos fracos e fraco diante dos fortes.

É quando o subúrbio se levanta e o morro escorre para a calçada. O subúrbio clama por empregos e o morro por esperança na forma de pão e dignidade.

Cada tijolo ensanguentado, por quem é colocado?

Só o dólar e o pó atravessam os muros, se globalizam. As pessoas estão confinadas em seus pesadelos de consumo, chafurdando no lodo que transformaram as pátrias violentadas.
Caminham, não, se arrastam nas sombras, atravessam desertos guiados por coiotes, são espremidas em contêineres, vagam em barcos, escorraçados em sua esperança, lastros de fantasia, patologia. O não-lugar para as não-pessoas.

A estátua abre os braços, generosa aos miseráveis do mundo inteiro, generosidade de pedra, cláusula que esqueceram de gravar em seu pedestal de bondade:

"desde que tenham dinheiro ou voltem para suas cloacas do terceiro mundo após o expediente, pobreza terrorista que carregam em seus corpos...".

Muros represam o mar pútrido da pobreza, da violência, que agride e alimenta o revide. O muro que engole o berço.

A globalização dos muros erigidos, verdadeiras homenagens ao Apartheid. Os muros ideológicos derrubados a marretadas em Berlim não permitiram aos embriagados ver o quão inebriados de ideologia estavam. Outros muros foram levantados: na Coréia do Norte, em Israel ou na fronteira dos E.U.A. com o México; outros muros construídos com o imperativo de ocultar a agressiva presença do outro, o estrangeiro, que quer um lugar à mesa, um lugar ao sol.

Serviçais sentados à mesa dos patrões com seus modos de sarjeta, com odores fétidos e roupas sujas, restos devorados por suas próprias mães.


Wilson Roberto Nogueira 12/04/06

terça-feira, 2 de junho de 2015

F E R N A N D O - JB



Ele tem carteira de identidade
como tantos
ele tem CPF
com muitos números
possui carteira profissional
e muitas profissões
endereço fixo
de papelão
filhos com certidão
e uma companheira
para a vida inteira.
na linguagem dos governos
é um cidadão.
Fernando chegou chorando
olhos verdes congestionados
magro, barba por fazer
pedindo trabalho para viver.
Trazia a angústia da fome
dos filhos
que deixará sem comer
falava da falta de leite
falava de não roubar
o que lhe tinham roubado
desculpava-se por ter chorado
queria limpar banheiro
dizia: qualquer coisa posso fazer
minha sogra me chamou
mas nem ela tinha o que comer.
Fome de trabalho
de respeito
de direitos
Dor de abandono
de vergonha
de incompreensão.
Agonia, angústia e ira
remoem seu peito
em conflito chora.
o choro do
desencanto.
Não percebe Fernando
o peso das correntes
do sistema de opressão
que lhe nega o trabalho
quer lhe tira o leite
que lhe rouba o pão.
No rolar da lágrima
o grito da poesia:
"Prendam o ladrões da cidadania!!!"
Cidade, cimento, falta de emprego
que sofrimento.
Como dói estar só na grande cidade.
NÃO!!! Não quero roubar.
Só peço um pouco de leite
para meus filhos alimentar.
Roubaram-me tudo, menos
a dignidade.
Ainda restam-me lágrimas
e muita sinceridade.
Aqueles que não me compreendem
Que nem o tentem.
"Só compreende a dor da fome, quem a sente"


João Bello
fantasma que sombra faz seu presente coma passado. nas mãos apertadas nós avivam tortura. preso arrasta cego de amarras ludibriado julgar. deita comigo vestindo orgia em vasto pesar...


Flavia D'Angelo. In trapézio sem rede

Cara, tá faltando inspiração?


É que tu não foi no fundo ainda.
Lá na carne, no nervo exposto,
no tutano do osso.
Lá onde a esbórnia vira esgoto
e todo herói vira o seu oposto.
Tá faltando transcendência?
É que tu não foi no fundo ainda
desta nossa miserável existência.
E só depois do último círculo do inferno
que se pode aspirar ao céu
(ou a um purgatório decente que seja).
E a fé, amigo, é um dom
que só se concede aos desesperados.
Então, vai, mergulha fundo
no fundo sem fundo do poço,
do fosso, do lodo, do oco do universo.
Morde a carne e rói o osso.
E só depois volte aqui, cara, e faça um verso.

Otto Leopoldo Winck

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Depois da guerra


Nas ruas que serpenteiam o  caminhar dos  sorrisos provam  o ensanguentado sabor seco da  pólvora . driblam crânios os fantasmas que ora dançam em espiral fumaça o coagulado destino dos ausentes.
Ali ,enquanto o açoite da memória transforma os restos da morada em masmorra ,urra no coração a vida e a despeito das bombas semeadas e das vidas ceifadas ,o sorriso das crianças brindam o sol que dissipa as pegadas das sombras e seus  muros florescendo o aço da determinação  pedra por pedra até novas histórias
tenham como testemunha as paredes de mais uma esperança .


Wilson Roberto Nogueira

A Prisão o humo do ódio


A prisão estraçalha a razão e desconstrói o coração enterrando na merda a esperança
nas sombras que espreitam à ladrar ferozes à noite   esmagando as ruínas ossificadas da alma
A lei pesa mais que a justiça e o som de sua voz uma oração distante cortando o céu em fatias
presas na grade de uma boca sem palavras num rosto sem face.
No continente de espinhos de aço e lodo  apodrece o pergaminho dos dias exalando estórias de fundas cicatrizes de portos em chamas sem barcos para aproveitar a maré da humanidade


Wilson Roberto Nogueira

sábado, 23 de maio de 2015

MEA CULPA VÍRGULA


A moral vigente é tão cristã
tão arraigada e cegamente       
— cristã
que mesmo entre não-cristãos
usa ela de um eterno mea-culpa-
-merda-maxima-maldade-
-vileza-porcaria-blablá-e-culpa
para autoflegelando-se
esmurrando o peito nu
absolver-se a si mesma.
E destarte adquirir a santidade!

Ora, o homem é mal, o homem é vil
o homem possui em si
o dominó dominante do pecado
original desde Matusalém ou Eva.
Assim eu, que sou apenas um homem
sou concupiscente
sou vaidoso, pecador
me chicoteio, sangro
e confesso: canonizem-me, então!
Amém.

Bem, eu de mim, sou bem o oposto.
Eu sou bom, sou puro de coração,
fiel aos amigos, às amigas
mas cruel, implacável – apolíneo
contra invasores do meu espaço.
Eu sou honesto, caseiro
mato mas não minto (muito).
E sou propenso a orgias de sexo
no meu próprio terreno
onde não dispenso as mais novas
nem sequer as consanguíneas
se o cio vencer-me o siso.
Eu sou sobrevivente, meio chacal.
Orgulhoso, mas covarde se convier.

Enfim: não tenho nada dos profetas
e sou a cara do meu Rottweiller!...


Igor Buys

15 de dezembro de 2010

HAICAI COM GASOLINA


Uns usam porque querem.
Outros proíbem porque querem.

A fogueira das volições está queimando gente viva!


Igor Buys

BAGULHO DOIDO


Enrola o bagulho
na borracha preta,
gasolina, erva
pneu sobre pneu.
Um puxa o fumo
e a pele do outro
estoura; nervo aflora,
ignora o barato, caro.
A gordura fervilha
numa poça, o cheiro
vai longe: folha doce,
banha viva chiando,
fumaças se misturando.

Um queima vivo, treme
outro se arregala, geme.


Poetrix de Igor Buys

14 de dezembro de 2010

ENQUANTO ISSO, NO COMPLEXO DO ALEMÃO...


Vovó, por que ele tá assim?
Porque ele tá descansando.
Descansando?
Sim.
Por que ele tá de olho aberto?
Porque ele descansou rápido demais.
Por a gente tá aqui?
Porque ele era seu pai.
Meu pai?
Sim.
E quem são eles?
Sussurrando: Polícia. Não olha pra eles.
Sussurrando: Por que eles tão bravos?
Porque tão com pressa de ir pra casa.
O que é isso?
Sua foto.
Você botou nele?
Sim.
Por quê?
Porque ele veio conhecer você.
É?
Sim.
Por quê?
Porque é Natal.
Vovó, o que é isso?
Presente, minha filha.
Você deu pra ele?
Sim.
Por quê?
Porque é Natal.
Vovó, por que ele tá rindo?
Parece? Vige, Nossa Mãe...
Por que é Natal?
Sim. Porque é Natal.


Igor Buys

HAICAI DE BOTAS


Homem de preto.
Homem de azul.
Homem de oliva.

De vermelho, a poça.
Botas.


Igor Buys

10 de dezembro de 2010

terça-feira, 19 de maio de 2015

Nem pessoas que gosto cumprimento. Abraço ou dou bom dia . Se me localizarem na rua ,precisam agir como urso de circo e mesmo assim penso que não é comigo. Não sei se acomodei a esse casaco surrado que é viver comigo mesmo que de taciturnos óculos vejo nas sombras o sentimento. Gosto das pessoas e as pessoas que não gosto não precisam saber , basta continuar a vida pois nada muda o que de atrofiado pelo desuso  encontra se .Bom , sou Eu e continuo sendo quem sou , penso que a memória do tempo tenha gravado no papel amarelado da vida o crocitar de grilhagens de afeto .Compreensão basta, entendimento e não colocar no vazio dos olhos a luz ou a falta de  ninguém. Vivemos espectros dourados procurando quem nos reconheça o brilho mas continuamos fantasmas .


Wilson Roberto Nogueira

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A criança quer provar ao pai que é macho e provoca o tigre enjaulado, o tigre quer provar a cria do homem que é fera embora enjaulada e faminta a fera ameaça e baba enquanto vê seu almoço andando de um lado para outro; lembra das selvas de Bengala e morde o braço do pequeno Sahib.As presas do tigre puxam a carne dos ossos do pequeno homenzinho para alegria de seu pai , agora com a certeza da macheza de seu filhote.
Em torno desse cinema ,desse reality show tiram fotos de celulares os transeuntes, os mesmos que admiram a natureza morta após acidentes de trânsito só que nesses eventos ficam tímidos para fotografar.
Depois de uns longos segundos de orgulho o pai lembra que seu filho está exangue e pede ajuda afirmando que a imprudência do moleque quase custou-lhe a própria vida - a vida financeira do pai que terá que pagar por um caro tratamento- As pessoas em volta , depois de tirarem fotos , chamaram os guardas do parque e uma ambulância .Gritos de revolta e repulsa ao comportamento descuidado do pai correram por todos os caminhos das selva de asfalto e grades do zoo .
Com os nervos da alma queimando de remorso( como do ladrão que uma vez pego terá que cumprir uma sentença branda no inferno de uma masmorra brasileira ), colocara contra as grades a própria virilidade; da criança o espelho truncado projetando sua máscara ocultando o covarde olhando à distancia a fera a avisar com a urina o seu território . O desconforto do instinto da fera mostrou que o irracional era o homem.


Wilson Roberto Nogueira
As chamas estavam devorando a casa enquanto a madeira estalava
na fumaça subiam as sombras das vidas testemunhadas pelas paredes
nos olhos dos espelhos ou nas pálpebras das janelas da casa em chamas
a porta deitada no chão sentia o olor dos passos da memória dançando sobre si
A casa virou nuvem e choveu cinzas sobre as rosas dos túmulos
brotou da choupana um palácio feito de cinzas dos dias de ouro nos sonhos
da criança que morreu dormindo.


Wilson Roberto Nogueira
No coração do meu cansaço perdido me encontro no mais profundo mar.
Busco; enquanto ao torpor acorrentado estou, a chave de respostas que olvidei
Perguntas que ceifam meus dias tornando abissais os sois de minhas alvoradas
Nesse repouso indócil agigantam-se sombras como brasas gélidas de incêndios
incontidos cansaços de batalhas não enfrentadas que sugaram o sangue dos meus sonhos
Agora a fatura da minha deserção em viver com paixão e luta a vida que me brindara de desafios
abrira diante de mim esse oceano tal de sal e silêncio no meu último sepulcro.
No coração acorrentado as chaves são tuas incaroavel Sorte.
Fugidia consorte até tu ó Morte afastara-se em pesadelos dos meus sonhos de ouro e glória.


Wilson Roberto Nogueira
O rosto era um só sorriso preenchido por dois olhos de cristal
cristais onde  uma bailarina torcera os tornozelos
dançava triste aprisionada no ensolescido e árido coração
no rosto de mármore morava uma esfinge onde cortava um sorriso
sangrando histórias de véus e sombras.


Wilson Roberto Nogueira

terça-feira, 12 de maio de 2015


F fall / falls / fast / fell / flog

cabalgar un cavalo morto: que esporte tolo. preferimos vê-lo voar de novo, sem estrias dentro de sua baia, ou na sua falta, antes que caia: bem e vivo. e se ágil, que seja rápido como água, un saco brillante, que levou astucioso, que nenhuma porta o trava antes da fonte, nenhuma regra ou correia para nos deter em nosso trabalho até fazer os cascos de digitalização.


Uljana Wolf/ transcriação Ricardo Pozzo


F     fall / falls / fast / fell / flog

to flog a dead horse: vergeblicher sport. wir wollens lieber wieder fliegen sehn, ohne striemen stehn im stall, im herbst, in jedem fall before it fell: well & lebendig. und falls wendig, fast as water: schillerndes fell, wir striegelten faster, dass keiner einen riegel schöbe vor den quell, eine regel, oder riemen, oder was sich sonst hier schindend pflog. 


Uljana Wolf
O poeta e tradutor, doutor em literatura pela UFPR, Ivan Justen, no SarauBeat!

domingo, 10 de maio de 2015

Bagaceira

Troquei meu carro por um tapete voador, vesti meu casaco velho sem valor, quebrei meu único saca-rolha, passei horas com um plastico-bolha, esqueci de mandar aquele bilhete, varreram o lixo para cima do tapete, defecaram na estatua da praça, desgraça pouca não tem graça, comeram o pão que o diabo amassou, ha gente que não vai mas eu sei aonde vou, entupiram o saxofone, aumentaram o preço do Danone, sequestraram o papel higiênico, Putin não e fotogênico, puseram alcool no tanque de gasolina, adoçaram o café com cocaína, passaram manteiga no meu sapato, achataram o pé do pato, estragaram minha pizza com abacaxi, proibiram o bebê de fazer xixi, usaram limão amarelo na caipirinha, chamaram frango de galinha, acreditaram na Rede Globo, ovelha foi namorar lobo, paraquedista pulou de mochila, Francisco agora se chama Camila, fieis flertaram no sermão, evangélico e tudo irmão, dizer bom dia e ofensa, o povo pensa que pensa, ovo batido virou omelete, pisei firme num chiclete, abracei um gamba, nao sei se houve ou se ha, medi a fundura do poco, cobrei pedágio no fosso, catei conchinhas na praia, corri atras dum rabo de saia, escutei o violeiro só tocar por dinheiro, fui pra Franca e ignorei Paris, fechei a torneira do chafariz, dei um pontapé no traseiro do politico, fiz caminhar o paralitico, dei um cascudo num jacare, matei um bicho-de-pe, deixei Dylan sem harmônica, tomei gin sem água tônica, pus o relógio no pulso direito, conjuguei o pretérito mais-que-perfeito, dei um no no rabo do diabo, rebaixei o general para cabo, atirei o colete salva-vidas, esfolei vivo o Rei Midas, voei sobre a Amazônia, casei-me com a insonia, soltei as tiras da Havaiana, descobri o que tinha a bahiana, tomei um gole de cachaça sozinho no banco da praça.


Luigi Contini

sexta-feira, 1 de maio de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Clandestino na cidade que cresci, por três dias andarilho a deriva, qual vagasse pelas areias das praias de Troia, com as tripas coladas às costas, tragando apenas o hipogástrico alumínio do amargor.
Já exausto, por acaso, uns missionarios de sei lá qual igreja me oferecem a marmita do Jardim das Delícias. 

Há tempos, eu e meus desseseis dentes, não éramos tão felizes.


Ricardo Pozzo

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Nova Primavera


Sebastião Salgado

A miséria
Só é bonita
De longe
Ela é linda
Metafisicamente
Acéptica
Na fotografia
Velada
Pelo obturador do artista


Fausto dos Santos

Nova Primavera


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Em uma Páscoa passada

Três caras pararam o automóvel ao meu lado e saíram gritando:
- Perdeu, playboy! Pode ir passando o dinheiro e o telefone!
Eu, num arroubo de coragem e tentativa de esquiva lírica respondi:
- Playboy nada, rapá! Sou poeta.
Então o porta voz da empreitada tranquilizou-se e disse:
- Ele é poeta, malandrage, então tá com sorte hoje, não vamos mais te roubar, vamo é te bater pra largar mão de ser besta. Onde já se viu poesia ser profissão agora... pra ter este telefoninho de merda...
Aí, possuído de uma dose extra do arroubo, respondi:
- Oras, se vocês são ladrões de profissão, por que não posso ser poeta? Além do mais os poetas também são ladrões, ladrões de fogo, nunca leram Rimbaud?
Respondeu ele:
- Ler não li, mas quando era piá vi todos os filmes dele... tá bom, então pela consideração à camaradage profissional não vamos mais te bater... passa o dinheiro e o telefone...


Ricardo Pozzo

terça-feira, 3 de março de 2015

Alvéolos de Petit Pavé


OS GANCHOS DO AÇOUGUEIRO


Um dos suplícios mais usuais da Idade Média consistia em punçar
a língua dentro da boca com ganchos de açougueiro.
A vítima berrava para o carrasco mouco:
o único consolo dos mortos é não morrer nunca mais.
Ao ousar novas palavras,
o escritor aciona o fracasso do signo em dizer algo do que é:
o madeiro que me refresca a fronte é galho de limoeiro,
na tigela planto um trevo de quatro folhas para curar o aziago.
Aprendo com a voz do velho vento que sopra de leve a cortina:
“Só quem bebe do leque da pavoa
esquece vírgulas e mata a morte”.
Agimos sob a fascinação do impossível:
isto quer dizer que – uma sociedade incapaz de consagrar-se à ilusão –
está ameaçada de esclerose e de ruína.


Texto: Fernando José Karl

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Lapa - Pr

No teatro elizatibetano

Para os 121 anos do cerco da Lapa

Estrela da manhã que
sob este fosso
fez teu raio resgatar os prismas
que desencarnaram porque
amaram
às últimas consequências.


Ricardo Pozzo
Lapa- Pr

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Gárgula

Dois haitianos dividem
o cachimbo
com a sinhazinha ecoville
na sarjeta, sob escombros
da senzala;

passo ao lado.

Na real, azumbizados
seduzidos pela pomba
giratória dominante,
vestida em sua melhor pele
cor de leite,
que dos negros jorra

entre seus lábios.


Ricardo Pozzo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Pra colher alumínio

No terminal a
fleumática
madame, em inflexão
sexual, paralisa
ao lado de
um haitiano.

Enquanto um
Van Gogh
sertanejo,
tão mais
sofrido
que Descartes,
entra em um
latão que se
arregala
de medo.

Ricardo Pozzo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Contestado é Agora!

Ocupação Nova Primavera/ Curitiba
Pássaros de asas mutiladas despencam em variáveis toneladas
por sobre a indigente face dos agrestes.

E vão-se aos ares vidas, entre paredes carcomidas no interior
de sépticos casebres.


Ricardo Pozzo

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O Contestado é Agora

Ocupação Nova Primavera/ primórdios
Nós que ouvimos por sobre
as cabeças o relinchar do morteiro
que lemos o futuro nas tripas
dos nossos
Que cheiramos as latrinas do espírito
que tocamos o tremor da pedra
como a um coração desesperado
Que lambemos o mijado ventre
da terra que persistimos apesar de tudo
e de nós próprios
Somos os que ainda permanecem
em giletes os que ainda têm
pupilas como estilhaços candentes
aqueles que às vezes continuam se
arrastando pela noite
os que ainda sonham
em regressar algum dia


Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo


Nosotros que escuchamos sobre
las cabezas el relincho del mortero
que leímos el porvenir en las tripas
de los nuestros
Nosotros que olimos las letrinas del espíritu
que tocamos el temblor de la piedra
como un corazón desesperado
Nosotros que lamimos el meado vientre
de la tierra que persistimos pese a todo
y a nosotros
Somos los que aún permanecemos
en cuclillas los que todavía tenemos
las pupilas como esquirlas candentes
los que a veces nos seguimos
arrastrando por la noche
los que todavía soñamos
con regresar algún día


Gustavo Caso Rosendi

domingo, 23 de novembro de 2014

Repontual by Adriano Esturilho


A Voragem da Vertigem

Austera,
a escaldante face
anti séptica do sol
desperta
a ela

que
das meia verdades
impressas,
costurou a coberta

na desestratégia
de resguardar a si

dos ventos
e seu remordimento,

das estrelas
em deslumbradas
enxurradas,

da fome que encalacra
seu fétido perfume


Ricardo Pozzo

sábado, 11 de outubro de 2014

Pássaros Ruins/ Alexandre França


A quem caberia decifrar a cartografia do acaso?

I.

Elegância, lírios dos detalhes
se rangem vibráteis fibras que
aos pelos eriçam

Zunem asas, aguçam
rútilas quelíceras

e rara pulsa prenha
a peçonha do furor

II.

Intrusa, em sericígena mortalha desfaz-se
qual aurora transfixada por torres de babel,

vítreas lâminas; arranha céus


Ricardo Pozzo

Pássaros Ruins/ Luciana Cañete

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Clamor por Inspiração

Eu me deito, sem sono
E espero que me visites,
Espero que me preenchas
E me pintes com ideias claras.

Eu me levanto e rodeio os cômodos
Enquanto aguardo tua iluminação perene,
Teu lampejo de conforto
Que me ponha útil nesse ofício sem capital

- a poesia.

Eu te procuro entre cafés amargos,
Sob estrelas distantes, entre esferas vagas.
Eu te entrego tudo o que sou:
Inspiração, desassossego da carne, jardim bem cuidado...

E espero que me retribuas em mais mistério.

***

Há angústia e medo se acumulando pelos cantos;
Há promessa de amor me atravessando o continente
Regando de desejos essas esperanças sedentas e sertanejas.



Hérlon Fernandes Gomes (10/06/1981) é natural de Brejo Santo, uma pacata cidade do sul cearense, da conhecida região do Cariri, um berço de cultura do estado.Começou a escrever seus poemas na adolescência, publicando os primeiros textos em jornais da região e periódicos do curso de Direito da Universidade Regional do Cariri, de onde obteve o diploma de bacharel, sendo inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Subseção Crato. Paralelamente à carreira jurídica, o autor é amante da literatura, especialmente da poesia, de quem se diz “apenas um instrumento usado para transportar ao papel as emoções que podem nascer de todos os homens.”Em 2008, publicou seu primeiro livro, intitulado GEMINIANOS – POEMAS DE DESCOBERTA, de carga confessional, passional, em que o autor disseca, principalmente, os estágios de gozo e sofrimento do amor. Nesse mesmo ano, começa a escrever um blog, intitulado ARQUEOLOGIA DA ALMA (http://arqueologiadaalma.blogspot.com.br/), espaço dedicado a dar vazão à arte que lhe mina. LÚMEN – ENTRE OS MATIZES DA ALMA E DO CORAÇÃO é seu segundo livro publicado. Ao longo dos 150 poemas que compõem a obra, dividida em oito partes temáticas, o autor nos convida a refletir sobre os horrores de um mundo caótico, povoado pelo terror de guerras reais e do ego, do artificialismo do ser; mas, sobretudo, nos alerta para que não percamos nossa imorredoura capacidade de se apaixonar, de amar e de ter esperanças, sempre