quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Boneca entre Manequins


Orí ou o Megajogador

Não sabemos ao certo se, à frente dos brâmanes ou sob tendas no deserto, aqueles que criaram o jogo de xadrez conheciam todas as possíveis analogias contidas no jogo em relação à existência humana.

Dispostas as peças no tabuleiro das probabilidades, nas quais o Real se transmuta em realidades, o xadrez torna-se um semiótico game de intrínseca estrutura.

No jogo, cada peça é limitada por seu próprio movimento, previamente determinado pela regra e, simultaneamente, pelo movimento de cada uma das outras peças. Assim igual, cada lance, limitado pelos lances anteriores.

O cavalo, por exemplo, em seu suntuoso movimento em L, se desenvolve no tabuleiro, conforme a habilidade do enxadrista em compreender e extrair, no limite da regra, qual variante o conduzirá com eficácia ao objetivo.

Quanto mais nos aproximarmos da consciência do Enxadrista Superior, ou o Megajogador, que em  Yorubá chamaríamos de Orí, mais clareza possuiríamos do sincrônico e constante movimento realizado pela espécie humana.


Ricardo Pozzo
Praça Osório

Recreio

Não levarás mais insultos
como tarefa pra casa,
nem dos meninos incultos
a cusparada que abrasa.
Salvo de pagar propinas,
das surras estás ileso.
Não trocarás com as meninas
o apreço pelo desprezo.
Ao notarem teu atraso,
A procurar sem descanso,
vão te encontrar ao acaso
pendurado num balanço.
Deixa um bilhetinho terno:
“Serei bem-vindo no inferno”


Wagner Schadeck
http://wagnerschadeck.blogspot.com.br/

terça-feira, 21 de janeiro de 2014


NAIL ART

Para usar todas as tintas
das colorações que punhas
matinalmente nas unhas
as próprias vísceras pintas.
Talvez nova cor te assalte.
É ela que lhe proporciona
o bálsamo de acetona
bebido em frascos de esmalte.
Conseguiste que tua arte
fosse vista em toda a parte
ao se expor no ateliê?
Se procurarem o preço
dessa pintura ao avesso,
tens a etiqueta no pé.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Pôr do Sol em Pontal do Paraná


Na Misteriosa Atmosfera

Vejo a grande esfera
mas não sei o que fazer
com a percepção que tenho dela...

Sou pura contradição
nessa contramão
de ruas e afetos
riscados a giz e juízos.
Destilo em lágrimas
os gritos de amor seco
afogados em vinho
e sexo ruim feito
sobre camas vazias.
Tento o disfarce,
mas não me reconheço
no ar que respiro,
nem no gozo que dissimulo.
Rego com sorrisos tolos
as violetas floridas
na ferida da minha dor inquieta.
E a vida dos relógios continua
me chamando para festas...
Só noto incêndios e euforias.
Não sinto o calor na fria alegria.
Mesmo assim, minha vida
se multiplica no musgo das pedras
que não plantei no caminho.
Degraus falsos...
Desejos em ganchos...
Destinos duvidosos...
Desvios em enganos...
Assumo a minha humana contradição.
Me vesti de nuvem branca.
Errei o traje do matrimonio.
Sou o noivo viúvo
que uiva nas madrugas
de estrelas sem núpcias.
Sou essa contradição
que crê na docilidade do gesto,
mesmo no amargo do tempo.
Vejo o amor como fruto doce
que dá mel à saliva viva das bocas.
Vejo o amor como gota de orvalho
que se faz micro-universo na folha
em que habita o inseto que louva-deus.
Não tenho como evitar
meus olhos em carretel
nas linhas do mundo
visível e invisível.
Meu coração cego e visionário
atravessa gerações e gerações
de loucos, magos e poetas.
Homens perdidos que se acharam
nas areias dos desertos encantados.
Trago essa contradição desmedida:
Tenho a Alma em amor.
Tenho o Corpo em guerra.
Um Corpo com peso de céu.
Uma Alma com peso de terra.
Quero o encantamento de toda matéria.
Nunca terei o que os profetas chamaram de salvação eterna.
Só posso me salvar agora,na presença do amor e do ar,
que preenchem o espaço dessa terrestre e misteriosa atmosfera.


Alessio Di Pascucci

Banhistas em Morretes/ Paraná

domingo, 19 de janeiro de 2014

Valeu viver mais um dia.

Na calçada caminhavam duas grávidas uma a conduzir um carrinho de bebe, outra carregando uma criança. O sol mordia-lhes de cansaço até que elas encontraram um burguês vestindo roupas surradas aparentando estarem enlutadas de tanto desmazelo; segurava uma pasta e um guarda chuva desconfiado dos humores bipolares do clima curiovano. A mulher que conduzia o carrinho pediu um dinheiro para que pudessem se alimentar, ela contou que veio de Ponta Fina  e não tinha um vintém sequer. Como era conterrâneo o polaco não pestanejou e deu uma onça que certamente se fartou com a fome das duas mais as crias.

Passou um quarteirão e o interiorano seguia arrastando sua corcunda e sua gravidez de três meses de cerveja sob o bafo da manhã, manhã que se perdera do Rio de Janeiro e tropicou por essas quebradas. Ao contrário de outros dias já falecidos na memória (visitas do Alemão nefando!) caminhava feliz pois acredita-se Deus oportunizara o cidadão a estar limpando de impurezas o dinheiro que amealhava na corrida de pangarés. Tão alheio que ao cruzar a canaleta do expresso quase desviveu se espalhando no asfalto ondeado mas naquele zaz o anjo da guarda mostrou ser fura grave.

Ali mais adiante uma casal de carrinheiros passava ao largo; ele o cavalo vapor conduzia a carroça que era um Empire State de caixas papelão e outros que-tais recicláveis. A senhora de olhos verdes que eram tão brancos que parece ter engolido todas as cores numa luz intensa de força e fé andava na calçada a cada passeio mais pergaminosa de tanta estória largada.Mais nós abrimos a conversação falando das modernidades em termos de carrinho de lixo,digo de bens reaproveitáveis. Os pneus de borracha, a estrutura mais leve, tudo pensando na capacidade de se acumularem mais valia.Exploração arretada. O valor da força de trabalho , sempre subvalorizada caindo no bolso de quem dá de comer as hemorróidas. É o polaco era comuna.

A mulher pediu umas moedas para inteirar o dinheiro para que pudessem comprar comida. Não tendo mais papel moeda aceitaram ir até um posto de gasolina onde a loja de conveniência possuía um terminal bancário.Lá chegando encontraram algumas caixas de papelão estocadas as quais puderam pegar. Ela disse que esperaria enquanto o cidadão sacava do caixa o sagui ou mico leão um macaco desses fez e entregou para ela que se derramou em desejos de bem aventuranças ao caipora, digo caipira..

O burguês ridículo que tropeçara na bondade, sentira-se mais leve andando de galochas nas calçadas de poças ocultas nas pedras mal colocadas da cidade,a qual esqueceu seu charme cinza de seus urbanóides escondidos em seus guarda chuvas cortando o ar a facadas. O polaco velho guardou sóis em seu coração no sorriso daquelas gentes simples.

Valeu viver mais um dia.

Wilson Roberto Nogueira


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Ora, quem diria, John Travolta foi parar no DETRAN


Revestida de cinza e brancas rotas vestes
voam plácidos no abismo olhos de luz negra.
Cinzas voam livres e velhas prisões famintas
agora são ossos morada de flores.
flores de pétalas doces.
Janelas em prantos esperam horizontes
cicatrizes costuradas no aço arames são caminhos
veias da liberdade. Bebe a paz no elmo caído da guerra.
Todos nossos ossos secos ao sol são brancos.


Wilson Roberto Nogueira

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O Semeador by © João Zaco Paraná. Foto by © Ricardo Pozzo

Um lugar chamado Nihil

A vida é uma dor tranquila
indivisível
se espalha pelo teu corpo e
engasga de surpresa.

Não para morreres,
para lembrares que é dolorida
indivisível.

A mentira se engole
e te mastiga feito fosses um pedaço de bife
cru

A geografia te arranca pela raiz e
deixa tuas folhas por todas as cidades por onde passaste.
Mesmo que voltes,
não as recuperarás.

A derrota te acompanhará por todos os cantos
rondando-te,
quando menos esperares
ela te engasga
não para morreres,
para lembrares que é dolorida, a vida,
indivisível.

A morte, tu escondes no fim do labirinto da tua cabeça,
mas ela se move e tu não percebes
encontra teus pais no meio do caminho, um filho,
ou mesmo tu, perdido no próprio jardim

Mas é uma dor tranquila, a vida
tu te acostumas
passeias pelo labirinto
a colher plantas e abelhas
dormes, amas, esqueces, traveste-se, deixas a barba crescer,
sorris,lembras-te, com leveza, das folhas perdidas,
encorporas a mentira consigo,
digeres a derrota com um sal de frutas
e caminhas até quando (?)

ela te engasgar de surpresa
para que tu morras
e lembres que é dolorida, a vida,
indivisível.


Priscila Lira

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

domingo, 15 de dezembro de 2013

Ler no braço toda uma história - as placas de gordura, as pelancas, as casquinhas do ressecamento; tudo marcado pelas vírgulas das cicatrizes; cada letra com o devido pingo de sarna. Um pergaminho de deterioração, degeneração a espera do ponto Final.

O olhar perdia-se no opaco enredo de u'a estória de desenganos.

Naquele café esfumaçado bebia a si próprio, a cada gole, enquanto o tempo passava. Impreciso caminhar."Que horas 'serão', será noite ou dia ? Não importava mais, sua juventude se fechara e só restara uma lâmina de luz cortando os pés da porta.

Chegou em sua sórdida morada embora não tenha lembrança de haver caminhado até lá. Pôs-se a descamar-se de suas roupas e a medida que se aliviava delas, não encontrava sinal de si. A sombra que o perseguia, perseguia o sobretudo que ora o cobre de seu derradeiro inverno .

Agora entre o pó e as teias de seu quarto tornara-se o vulto translúcido de seu trincado espelho.


Wilson Roberto Nogueira

domingo, 8 de dezembro de 2013

[Curitiba digere aquele que nela se perde]

Sodoma

Assim explicou-me o anjo sattivo que pousou à cabeça de meu amigo:

"Igual ao petroleiro que preso está, ao cais, pela espia de amarra mas cuja tripulação em delírio esquece de baixar âncora, a partir do momento em que a espécie elegeu o ambiente controlado em oposição ao selvagem, hipervalorizou o simbólico enquanto no Real o Duplo Sapiens sirva, desde então, somente à manutenção inerente ao controle, mesmo que as regras que estabeleçam o controle estejam fundamentadas no simbólico e não no Real. Com isso, quando o poder quer se explicar, usa a lógica do simbólico, que carece de lastro. Quando quer controlar usa a lógica do Real.
Ou seja, fomos organizados para sustentar o surto da espécie, desterrados do Real, iludidos pelo simbólico que varia, conforme a ideologia dominante."


Ricardo Pozzo

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013


Medo do medo

da nuvem escura
do mar revolto
do que fala, do que cala
de ir e do vir
de não saber
de não ser
vento que venta
mente que sabe
morte!

Medo do medo
do tempo que passa
que leva os outros
que esquece
de que forma era
Medo do nada
do chute, do tombo
do espelho, do sonho

Medo do medo
de reconhecê-lo
e na profundidade
arrancá-lo
reconhecendo o tempo perdido.


Deisi Perin

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Praça Eufrásio Côrreia - Curitiba

Estrela da Manhã

Se, segundo Sigmund Freud, foi um golpe de marketing o egípcio Moisés ter se tornado hebreu de nascimento, como não pensar o mesmo da primogenitura entre Caim e Abel? 

Ou seja, Abel é o Neanderthal, Caim é o Duplo Sapiens e não o inverso. Depois de matar, Caim tornou-se temente ao predador e organizou as leis jurídicas.

Diabolos há sido para sempre o ambiente, ao qual por orgulho civilizatório, somos impedidos de aceitar ser impossível domá-lo, sem ferir-nos.

Até que a espécie mature para perceber que É coroado com a coroa, o Cristo, quando de Lúcifer a humildade conquista.


Ricardo Pozzo 

domingo, 24 de novembro de 2013


exercícios banais 2

a mosca pousou sobre o rosto
de um homem já morto. nem o morto
nem a mosca sabem – como nós sabemos,
e como! –  que o homem está morto.
nem o morto nem a mosca sabem
o que é a morte, o que é a vida,
o que é o homem, o que é a mosca.

dormem as moscas? onde dormem e o que sonham?

não é fácil entender uma mosca,
seu motor antiquíssimo, seu terrível
hálito sem cheiro, a febrícula, a alegria maníaca
diante dos restos.

não é fácil entender, enquanto se vela,
a mosca que voa
do rosto baldio, a mesma que pousa
em cima deste canapé.


Rodrigo Madeira, do livro O Latim das Moscas, ainda inédito

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Notas para um Tractatus Lógico -Teológicus em construção:

1. o Real é o Todo que existe.

2. múltiplas são as Verdades, mas cada Verdade para ser, tem como ponto de origem o único Real.

3. igual ao Universo, o Real é Finito, mas Ilimitado.

4.a Realidade não é uma construção individual.


Ricardo Pozzo

segunda-feira, 4 de novembro de 2013


O sofrimento, a sombra escura e inquilina do inconsciente tem medo da luz do consciente. Teme ser descoberto. Sobrevive do medo de descortiná-lo dentro de nós mesmos. E enquanto não conhecermos nossa essência vamos acumulando, alimentando e mantendo energias negativas dentro e em torno de nós.
Sentimentos de infelicidade, irritação, impaciência, desejo de ferir-se ou aos outros, raiva, ira, depressão, até mesmo a necessidade de causar problemas e, também o poético e chique ar sorumbático e sombrio dos excêntricos são sofrimentos que ocupam a mente e o corpo causando doenças.
Sofrimento se alimenta de sofrimento e nos domina a ponto de desejá-lo cada vez mais e espalhá-lo.
A consciência deseja ser feliz, mas essa energia negativa insiste em manter a insanidade do sofrimento.
É uma ilusão e não há como lutar. E nem precisamos.
Olhar para si, enxergar-se é acender a luz e iluminar a energia vital dando-lhe outro padrão.
A consciência de reconhecer-se, abrindo os olhos e a mente destrói a infelicidade e o sofrimento.


Deisi Perin

quinta-feira, 31 de outubro de 2013


Sherdi

A maneira que aprendi
a comer cana no Sanosra:
Uso os meus dentes
Para rasgar o duro chaal exterior
então, arranco tiras
do fibroso coração branco
chupo forte com meus dentes, pressiono
e o caldo derrama.

Manhãs de janeiro
o agricultor corta a tenra cana verde
e traz à nossa porta.
À tarde, quando os anciãos estão dormindo
nos esgueiramos  levando os lisos caules longos.
O sol nos aquece, os cachorros bocejam,
nossos dentes crescem fortes
nossos queixos estão dormentes,
das horas que chupamos o russ, o caldo
grudento sobre toda nossa mão.

Portanto, esta noite
quando você me diz para usar meus dentes
para sugar mais forte, mais forte
então, sinto cheiro de cana-de-açúcar
em seu cabelo
e imagino que você gostaria de ser
sherdi sherdi nos campos
os talos balançam
abrindo um caminho diante de nós.


Sujata Bhatt/ tradução de Luzia Biermann Silveira


Sherdi


The way I learned
to eat sugarcane in Sanosra:
I use my teeth
to tear the outer hard chaal
then, bite off strips
of the white fibrous heart
suck hard with my teeth, press down
and the juice spills out.

January mornings
the farmer cuts tender green sugar-cane
and brings it to our door.
Afternoons, when the elders are asleep
we sneak outside carrying the long smooth stalks.
The sun warms us, the dogs yawn,
our teeth grow strong
our jaws are numb,
for hours we suck out the russ, the juice
sticky all over our hand.

So tonight
when you tell me to use my teeth
to suck harder,harder
then, i smell sugar cane grass
in your hair
and imagine you’d like to be
sherdi sherdi out in the fields
the stalks sway

opening a path before us.


Sujata Bhatt

terça-feira, 29 de outubro de 2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Electra no Caminho de Azaléias

O dia em que você morreu adentrei a terra
Ao hibernáculo mal iluminado
Onde abelhas, listradas em preto e dourado, dormem na nevasca
Como pedras hieráticas, e o chão é duro.
Foi bom por 20 anos, que invernada -
Como se você nunca tivesse existido, como se eu fosse
Gerada por Deus ao mundo desde a barriga de minha mãe:
Seu amplo ventre vestiu a marca de divindade.
Eu não tinha nada a fazer com culpa ou qualquer coisa
Quando rastejando retornei ao coração da minha mãe.

Pequena como uma boneca no meu vestido de inocência
Eu sonhei com sua épica jornada, imagem por imagem.
Ninguém morreu ou murchou no palco.
Tudo aconteceu em uma iluminação durável.
O dia em que despertei, eu acordei em Churchyard Hill.
Encontrei seu nome, seus ossos e tudo
Inscritos em uma pedra e apertados por uma cerca de ferro torta.

Nesta caridosa enfermaria, este albergue, onde a morte
Ronda pé por pé, cabeça por cabeça, nenhuma flor
Rompe o solo. Este é o caminho de Azaleias.
Um campo de bardana abre para o sul.
Seis pés de cascalho amarelo lhe cobrem.
A sálvia artificial vermelha não se mexe
Na cesta de sempre-vivas de plástico que colocam
Na lápide ao lado da sua, nenhuma apodrece,
Embora as chuvas dissolvam uma tintura sangrenta:
As falsas pétalas gotejam, escorre vermelho.

Outro tipo de vermelho me incomoda:
O dia em que sua vela folgada tomou a respiração da minha irmã
O tranquilo púrpuro marítimo igual pano maligno
Que desenrolou minha mãe na sua derradeira volta ao lar.
Eu emprestei os sedimentos de uma tragédia antiga.
A verdade é que, final de outubro, no nascimento do meu pranto
Um escorpião o envenenou a cabeça, e o amaldiçoou;
Minha mãe sonhou com sua face sob mar.

Os atores petrificados posam e pausam para respirar.
Eu trouxe o meu amor ao nascer, e então você morreu.
Foi a gangrena que te comeu até o osso
Minha mãe disse; você morreu como qualquer homem.
Como deveria eu crescer naquele estado de espírito?
Eu sou o fantasma de um suicídio infame,
Minha própria navalha azul enferrujando em minha garganta.
Oh perdoe aquele que pede por perdão em
Seu portão, pai - sua cadela, filha, amiga.

Foi o meu amor que nos fez morrer.


Sylvia Plath/ tradução Luzia Biermann Silveira



Electra on Azalea Path

The day you died I went into the dirt,
Into the lightless hibernaculum
Where bees, striped black and gold, sleep out the blizzard
Like hieratic stones, and the ground is hard.
It was good for twenty years, that wintering—
As if you had never existed, as if I came
God-fathered into the world from my mother's belly:
Her wide bed wore the stain of divinity.
I had nothing to do with guilt or anything
When I wormed back under my mother's heart.

Small as a doll in my dress of innocence
I lay dreaming your epic, image by image.
Nobody died or withered on that stage.
Everything took place in a durable whiteness.
The day I woke, I woke on Churchyard Hill.
I found your name, I found your bones and all
Enlisted in a cramped necropolis,
Your speckled stone askew by an iron fence.

In this charity ward, this poorhouse, where the dead
Crowd foot to foot, head to head, no flower
Breaks the soil. This is Azalea Path.
A field of burdock opens to the south.
Six feet of yellow gravel cover you.
The artificial red sage does not stir
In the basket of plastic evergreens they put
At the headstone next to yours, nor does it rot,
Although the rains dissolve a bloody dye:
The ersatz petals drip, and they drip red.

Another kind of redness bothers me:
The day your slack sail drank my sister's breath
The flat sea purpled like that evil cloth
My mother unrolled at your last homecoming.
I borrow the stilts of an old tragedy.
The truth is, one late October, at my birth-cry
A scorpion stung its head, and ill-starred thing;
My mother dreamed you face down in the sea.

The stony actors poise and pause for breath.
I brought my love to bear, and then you died.
It was the gangrene ate you to the bone
My mother said; you died like any man.
How shall I age into that state of mind?
I am the ghost of an infamous suicide,
My own blue razor rusting in my throat.
O pardon the one who knocks for pardon at
Your gate, father—your hound-bitch, daughter, friend.

It was my love that did us both to death.


Sylvia Plath 

A observação dos pássaros


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Frágil considerariamos a quem, em um mundo de crocodilagem, detivesse sua única arma na retidão da palavra?

Se o Demo rema o redemoinho, Àquele que está sentado á direita do Espírito Santo e à esquerda do Filho, de tudo está à espreita.

Homero, Virgílio, Dante são para quem tem garantido teto e comida no mês. Cultura pra mim é você dividir um dos dois pães que comprou com as míseras moedas do bolso. Arte é ver o sorriso nos olhos do menino.

Neste sertão cujo chão é petit pavê, nestas veredas madrugueiras, forte é o homem que tem na retidão da palavra sua única arma. Um lobo a menos para devorar a cria mas, que ao invés, age para o bem da matilha.


Ricardo Pozzo

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Quem é esse mano que usa roupas tão largas
Com a pele parda
e o sorriso amarelo?

Cara estranho
com o cabelo trançado
deve ser mais um nóia
mais um viciado

Mais quem o conhece
sabe quem ele é
é um cara firmeza
que tem filho e mulher

Faz corre de a pé
pra não gastar o VT
Domingão pega o filho
e sai pra dar um rolê

Não assiste Tv
prefere ler o jornal
acredita no RAP
não na Glock ou na FAL
 
Pra policia ele é
suspeito de tudo
só não sabem os canas
que esse preto tem estudo

Esclarece seu povo
E fala a real
Por isso corre perigo
já decretou o seu final

Foi depois das 10 horas
Que chegaram os carros
Dentro dele estavam
O sargento e três soldados

Esse cara é um problema,
conhece os seus direitos
Disse isso o sargento
antes de acertar
um tiro em seu peito

No outro dia o noticiário,
O acusarão trafico
de ser um salafrário

A verdade mesmo
Nunca foi divulgada
Esse homem morreu
por amor a sua quebrada.


Matheus Dumsch Dutra

domingo, 29 de setembro de 2013

7 de Setembro


Dejaflux

Sete décadas após, - percorro as
mesmas terras de meus antepassados.

Este mesmo povo envelhecido
setenta anos, tem o mesmo
rosto, atualizado, de meus avós.

O mesmo dia a dia, modernizado,
de nossos ascendentes.

Em minhas veias, cartografia
líquida de uma raça mezclada,
feita de ápice & declínio,

estórias (e histórias) reverberam
no eterno cíclico.

Res caldo de memórias
humanas

que por eras erram no quase círculo
vicioso ao redor do Sol[o]


Ricardo Pozzo

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

the multitudinous seas incarnadine

cruzemos os braços
assim cruzando a rua
o teu no meu
como um cordão
que pisoteie as avenidas
até migalhas
qual é o teu partido
alguém pergunta
eles não sabem nada
enquanto toma parte
da situação
quantos são os teus nomes

ou são sorrisos
um olho arde
a noite explode na cidade
ao fim dos rasgos
teu olho arde
é verde ou preto
contra um céu cinzento
e sem catástrofes
meu olho arde
contra o teu
o olho arde
é um cordão

eles só sabem medo
quantos centavos são
eles
e quem são eles
ou quantos somos
eles só sabem medo
porque não cuidamos
não cuidamos de saber
hoje eu te beijaria
você tem nomes
alguém pergunta
a noite explode nas cidades
causando um pânico incendiário
dos telejornais

os braços dados
não será televisionada
os braços dados
quem vai prender
as nossas gargalhadas
os braços
quem contaria as balas de borracha
quem vai prender as nossas gargalhadas
os braços dados
as nossas gargalhadas
por entre evolações
de gás lacrimogêneo


Guilherme Gontijo Flores

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Aracnídea


[o zen noção questiona se/ por quê não, poemas explicar?]


Photo by Antoine D´Agata

Subcutânea
aranha
ferina

introduz,
em veia
bailarina,

poção

contra -
indicada
à cicatrizes

& queimaduras,

e
teu rosto
resplandece
feito Luas,

anti-
eclipse,
razão
erradicada.


Ricardo Pozzo/  poema no RádioKaos da e - paraná

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Alta Cultura

Poeira de estrelas

De entidades simples,
tornamo-nos complexos DNA.
Sem acasos

somos um presente eterno
manifestando percepções
pré-programadas

Unidades carbônicas se formam
e se desfazem
compondo o novo
que decorre do velho.

Livre de interpretações inúteis
a natureza se reproduz e se adapta
porém, apenas humanos sentem culpa.

Sem perder a identidade
trocamos material genético
e a ancestralidade corre
pelas veias
mantendo a energia vital.

E nós, poeira de estrelas
brilhamos feito purpurinas.


Deisi Perin

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Foz do Iguaçu/ Paraná
odisseus vinte anos envelhecido em auto exílio antes que um leviatã furioso decretasse condenação á grave heresia da evasão fiscal purgando banzo de consanguíneos euros enterrados em local desconhecido por necessitar atravessar óticos nervos dos eletrônicos polifemos de aduana - depois de tornar se o maior distribuidor de heroína para comedores de ópio na côte d´azur e conseguir adesão à gangue de circe - depois de surubas homéricas com sereias ninfas & mocréias e outra fuga extraordinária à um cerco da interpol a bordo de um iate phantom 300 codinome calypso - depois de seus sócios terem sido ou presos ou mortos lê no correio de notícias de lisboa ao sol de uma tarde outonal: penélope converteu se acionista majoritária da boate tróia´s em ítaca na qual a maior atração era o show da drag telêmaco amante de eumeu cafetão.


Ricardo Pozzo

sexta-feira, 30 de agosto de 2013



Promessa

“Pássaros voam/pássaros tombados”; Raul Macedo

Todo irrevogável instante.
Mas nada está perdido
desde que tudo se perde
adiante, flui

como pássaro,
revérbero do ar - flauta,
transversa o tempo.
Presente, pressinto.

Sob os braços do vento.


Roberta Tostes Daniel (2012)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013