quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Impressionante desabafo de um cidadão cuja mãe supostamente faleceu após ser mal atendida por uma empresa particular de emergências médicas. R. Brasílio Itiberê/ Curitiba.

À procura da Saudade Uterina


Há um resumo das fases evolutivas
Na solidão da experiência uterina.
Da bactéria ao mamífero
cada espécie sabe suas alterações fisiológicas.
Aos acidentes, ecológicos, alimentares
e atmosféricos bem sucedidos, sobrevivemos.
Incrustados no endométrio
multiplicando células
movemo-nos sem esforço
para explorar o pequeno mundo
que protege e isola de outros mundos.


Acrescentando-se às lembranças ancestrais gravadas,
a placenta permite cheiros, gostos,
perfumes, nicotina, medicamentos.
Sons maternos, ritmo e melodia
embalam a inconsciência do tempo.
Sem filtrar sensações e vibrações barulhentas.
Como reflexo desse patrimônio genético,
por instantes procuramos sem perceber
por aconchego, carinho,
conforto e proteção.

Fechamos os olhos
para sentir cheiros e gostos;
formas e texturas;
penumbra e toque;
pele e maciez
que nos afaste da solidão terrena.

Deisi Perin

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Zona portuária da cidade do Rio de Janeiro.
 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A criança de pernas vesgas

Ao longe, e se aproximando, escutava-se um metal ferindo o chão de madeira numa cadência de passos inseguros.

Quem estava vindo era uma criança de pernas adornadas com um aparelho que parecia ter sido resgatado da Idade Média e que prometia endireitar aquelas pernas vesgas.

A criança tinha, talvez, cinco ou seis anos, e caminhava por uma sala de jantar infinita.

Nela havia uma mesa azul faminta, com panelas vazias e pratos vorazes por uma colherada de comida.

Na amplidão daquela sala, que tocava o horizonte, a criança sentia que não estava só, que havia mais alguém ali. Mas a criança, míope, via apenas olhares, e os olhares não tinham face... apenas olhares!



Felipe Alberti

domingo, 20 de janeiro de 2013




verso à-toa

berrar algo
que lembre o assovio colorido
de flores no vento

inventar a estridente tentação
de ouvir rock
em corredores de convento

Anisio Garcez Homem  jan/2013

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Luz prisioneira


Nas chuvas da tua terra, encontro o teu azul.
E se falasse do sonho, da guerra, da emoção.
Não saberia se era preso ou se era prisão
Um trago governa a intensidade do teu pensar, do teu deus.
Das guerras à luz.
Um som quebranto mexe com tuas emoções,descobres tuas raízes
Infinitamente descobres que não és uma mulher
Es um animal! Que necessitas transformações.
O que lhe atormenta?
O que sangra?
O que mata?
Tua respiração presa, esqueces o passado.
O que sentes?
O que fazes?
Venho até ti como o oprimido de braços abertos.
Pronto para me entregar a tua escultura, ser uma criatura.
Não briga, debate, não me fere com as tuas feridas.
Saia da origem, dos mares, da lama.
Passe, acorde...
Na grama, na cama.
Não me enlouqueças com as tuas loucuras.
Ame com a minha calma.
Quando se for, não olhes para trás, para não dar a impressão de ter esquecido algo.
Um dia benigno, gemido, compositor.
Quero cantar, te invadir de calor.
Quando acordar quero te ver molhado de prazer e suor.
Onde não tenhas mais chaves para que te feches.
Quando estiveres de portas abertas, abra os braços para que eu possa entrar e
invadir o infinito.
Uma água deságua a molhar teus cabelos, teus olhos.
Não os feche, abra-os muito mais.
Liberte, liberte, liberte!
A tua luz prisioneira.

Claudia Belchior

terça-feira, 15 de janeiro de 2013



Quantas vezes tentei localizar-me no mundo
Ao redor, deparava-me com paredes envelhecidas
Quartos abafados
Armários vazios
Geladeiras mofas
Prateleiras cheias de papéis
Esses sempre abundantes
Dicionários amarelos
Clássicos furtados de bibliotecas
Presentes de amigos
Dedicatórias de amores naufragados
Textos honestamente comprados em barganhas nos sebos
Uma vitrola na estante
Discos antigos
Sambas, tangos, blues, jazz, trilhas...
Sons de embalar linhas
Cinzeiros se colecionava
Pedra, vidro, lata, argila
Apareciam simplesmente
Talvez dada sua necessidade
Talvez sua importância
Ou simplesmente sorte
Cafeteiras queimadas
Fogões entupidos
Pias manchadas
Cadeiras mancas
Mesas tortas
Poltronas rasgadas
Pisos rangentes
Litros pelos cantos
Guarda-roupas despedaçados
Sapato furado
Calça larga
Camisa rasgada
A cada janela novo tráfego
Novos transeuntes
Bem como outras vizinhas
Quintais e cocotinhas
Árvores e pardais
Semáforos e buracos
Encheridos
Mulheres
Lençóis
Camas quebradas
Síndicos
Condomínios atrasados
Alugueis por vencer
Jamais tirei a placa de letras garrafais do peito:
“Em obras” cantam as letras
A demolição que vem de dentro

Douglas Lopes

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


Hospital das Clínicas/ Curitiba

esta parede é branca e negra


minha mão não tem mais linhas
não escrevo a palavra sociedade para não estragar o poema
escrevo dadá, da dor ameríndia
à dupla caipora, vou fora
do dito populírico, pular o popular, ir de encontro ao combo
: poeta, pastor e popstar
ler o escombro e o emparedamento
o fragmento, saber de cor o nó
minha mão não tem mais formigas
a usura é o ******* (ilegível) do pound, a estrutura,
porém concreta, na urdidura
do estar, no mundo mesmo
de lama e limo, no povo
não escrevo a palavra povo que estraga o poema
‘fragmentos’ para coriolano,
os micróbios, seu limes
de bicho e estátua,
na praça o poema estraga,
pulo fora da palavra
baixa, encaro a cara,
não diferem, no entanto,
cada uma seu canto
canto

Ricardo Pedrosa Alves

sábado, 5 de janeiro de 2013

Estátua do poeta Tarás Schevtchenko na Praça Ucrânia em Curitiba/ PR

Partidário da Barbárie


ou poema a ser esquecido pela crítica literária brasileira;
ou o porque da perseguição de minha pessoa em âmbito da Biblioteca Pública do Paraná, onde me criei leitor.

p/ todos aqueles que ousam duvidar da veracidade dos fatos,
p/ meus amigos poetas que não se calam.

“Curitiba, sua puta,
Toda aberta para o que vem de fora
quem irá denfendê-la agora?”
Canto Equânime, Adriano Smannioto


vamos papel em branco
contra uma cidade obscura
e cheia de perversidades vitalícias
de putas na esquina
e traficantes de drogas e muambas
vindas do paraguay, da bolívia e da china

cidade filhadaputa
que beija e lambe os pés de são paulo.
fadada a ser, eterna pequena província,
de Dalton e dos arquétipos
da repetição de sempre
que faz o mestre

vamos bater palminhas
mais uma vez em praça pública
para o que vem de fora
e esquecer a arqueologia
de tua poesia
tão desimportante para os teus
e para o resto

vamos nos fingir de burros
bem criados e encilhados,
e não olhar para os lados
esquecer os painéis de Poty despredados
pelos sem memória

que pensam que há algo novo
em pleno século XXI
se não a repetição cíclica
do caos que cria
e ninguém acredita

vamos ler o rascunho
que nunca foi passado a limpo,
mas que carrega os “grandes e bons”
da merda da indústria
do já podre mercado editorial brasileiro,
e não podemos esquecer
das páginas de necrofilia da arte

vamos acreditar no sr. Pereira
que propôs em seu primeiro ato
acabar com o arquivo geral
duvidando da pane,
com a fé cega na virtualidade do sistema,
que pode ir a merda
a qualquer hora

vamos premiar José Roberto Torero
na categoria de Contos
do Prêmio Paraná de Literatura 2012
o mesmo que ministrou oficina de crônicas
na Biblioteca Pública do Paraná em 2012
pobre contista copista da bíblia,
que nunca leu Bhagavad-Gita,
nem o livro Tao
quem dirá Confúcio

cidade pobre porca
que busca merda de fora
pois não digere o próprio alimento
regurgita a tua poesia
de aqui e agora
para bater palminhas mais uma vez
para o que vem de fora

e estender o tapete vermelho
para qualquer asno que venha
de mais de 400 km
para engendrar suas bostas
nas páginas do cândido
tão sujo e podre
que fede a estrume de longe

vergonha de jornal, que não serve
nem para limpar o anús
com sua grossa gramatura
em papel branco
para gastar mais dinheiro dos cofres públicos

vamos dar um diploma de trouxa
ao Pereirinha, pequeno grande mafioso
da nossa amada cidade
chamada Curitiba
que se reduz, ao seu cheiro de cu
como a cara das pessoas que te habitam
e saem as ruas pensando
com um jornal rascunho e cândido
embaixo do sovaco soado
que o mundo é bom em plena segunda-feira
e que vivem na melhor cidade do país

o destino de Curitiba,
é digerir seu próprio alimento
ou morrer intoxicada

Rafael Walter

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O estranho caso de Grace Uei


Aproveito para divulgar UM dos contos que escrevi na antologia Então, é isso?


Grace acordou cega.
Abriu seus olhos como sempre, mas não viu o teto de seu quarto, que era pintado de céu noturno, com aquelas estrelas e planetas que brilham após um tempo de luz incidindo sobre eles. Fechou seus olhos de novo, imaginando que estava ainda em um sonho. Mas quando os abriu novamente, lentamente, a escuridão teimou em fixar-se ao seu redor.
Apavorada, gritou pelos seus pais. Eles a vestiram rapidamente, e a levaram ao hospital de Olhos. Lá, o oftalmologista usou sua lanterninha e verificou que suas pupilas não reagiam à luz.
Fizeram uma anamnese. Descobriram que há algum tempo sua acuidade visual estava piorando. Primeiro sua visão periférica. Ela tinha que voltar seu rosto para poder realmente enxergar o que estava ao lado. Depois a sua eficiência visual foi diminuindo, e ela começou a andar mais devagar, observando mais as coisas para não tropeçar ou cair. Mas só agora estava falando isso. Primeiro porque não queria preocupar os pais, segundo porque achava que era simples stress, e que logo passaria.
Outro dia, enquanto estava na sala de espera e sua mãe havia ido ao banheiro, ela sente um cheiro estranho que se aproxima, e uma mão acaricia seu rosto dizendo: “tudo ficará bem”. Aquela sensação de uma mão estranha permanece em seu rosto.
Marcaram-se novos exames.
Ela voltou para casa, mas sua vida passou a ter novas visões literalmente. Os caminhos tão trilhados, do quarto para a cozinha ou banheiro passaram a ser labirintos obscuros e trincados, cheios de armadilhas. Tomar banho, hábito tão diário e natural, passou a ser um estranhamento constante. Para Grace era como se fosse outra mão que estivesse limpando seu corpo.
Alimentar-se. Beber água. Torturas constantes em que precisava - pessoa tão independente que era - de outros para a ajudarem. Aprendeu o sistema de relógio: arroz às seis, bife às três, batatas meio-dia, feijão às nove. Grace que tinha tanta mania de limpeza e que lavava suas mãos logo ao entrar em casa, agora tinha que enfiar um dedo em seu copo para sentir aonde a água ou suco chegava. Lavar louça! Tanto quebrou que quase pensou em comprar louça de acrílico ou plástico.
Vestir-se. Outro terrorismo da cegueira. As meias são as mesmas? As cores de roupa combinam? Percebeu que certas roupas que usava antes com frequência (segundo a família) lhe eram agora “nojentas” ao tato. Recusava-se a usar aquele vestido tão batido de outrora (hoje tão duro, tão seco, tão arranhoso no corpo). Mas a maciez de outro, que ela nunca usava antes lhe agradou tanto que preferiu usá-lo agora, pois o Sentia abraçando seu corpo, num aconchego que ela tanto necessitava. Uma segunda pele protetora.
Com o tempo ela tenta se lembrar de como é seu rosto, mas percebe que ele se desfocou e permanece como nebulosa incógnita. Desorientada, um pouco apavorada, pede para sua mãe que a descreva.
Grace, seu rosto é gracioso e feminino. Seus olhos amendoados castanho- escuros são doces como mel, suas faces rosadas são maçãs de desejos, há uma marquinha de nascença entre seus olhos -, e o seu rosto vai se desenhando com as palavras de sua mãe.
Os exames médicos foram rareando. Essa doença estranha, tratada apenas como um caso extraordinário. Chamavam-no: “O estranho caso de Grace Uei”. Ou: “a cegueira de Grace Uei”. Psicólogos, oftalmologistas, cientistas, pesquisadores do mundo todo já haviam manuseado (literalmente) Grace durante este escuro ano.
Grace acorda para mais um dia. Abre os olhos e .. surpresa! As estrelas e planetas a saúdam, como se nunca tivessem saído dali. Ou como tivessem apenas feito uma rotação ou translação e tivessem voltado ao ponto de partida. Ela olha, extasiada, suas mãos, seu quarto, o caminho até o banheiro. A alegria de poder rever todas as coisas tanto reconhecidas pelo tato. A surpresa de ver as mudanças na casa... isso tudo foi enchendo Grace de uma graça suprema.
Ao entrar no banheiro corre ao espelho.
E se assusta.
Uma criatura a encara. Uma pessoa com olhos de enxofre.

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(interessou e quer ler meus livros? vendas diretamente comigo)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012


Meu direito, silêncio


Eu não conseguia dormir por causa de tantas brigas. Acordava logo cedo com discussões. Decidi que não iria mais falar. Simples. Sem dramas. Queria paz.  Precisava de silêncio.
Meus pais contrataram uma psicóloga. Coitada, tentava conversar comigo sobre assuntos que não me interessavam. Falava das bonecas que eu não gostava. Das histórias dos contos de fada. Servia um café de mentira em uma xícara de plástico cor-de-rosa. Eu ficava entediada. Sentia falta de silêncio.
A vizinha oferecia brinquedos. Mas eu ouvi os meus pais falando que a minha tia era interesseira e vivia pensando em dinheiro. Aprendi que era errado ser assim, mesmo sem entender direito os motivos. Não seria isso que me faria falar.
Na escola perguntavam se eu não gostava da minha voz. Se eu tinha algum problema. Se eu não tinha língua. Até me faziam abrir a boca e mostrar que estava tudo certo. As outras crianças eram bobas e eu não perdia tempo tentando explicar que perdi a vontade de falar. Elas não atendiam aos pedidos de silêncio.
A professora nunca brigava comigo. Quando fazia a chamada, sabia que eu era a única a levantar a mão. Respeitava.
Em uma aula, pediu para eu buscar um material na  secretaria. A funcionária perguntou o meu nome. Eu mostrei o meu crachá. Ela insistiu. Mostrei o crachá novamente. Fiquei em dúvida se ela sabia ler, porque as letras eram grandes. Ela disse que eu deveria falar. Eu não sentia necessidade.  Mostrei o meu crachá mais algumas vezes. Ela não me deixou sair da sala enquanto não ouviu a minha voz. Por isso, perdi a aula inteira. 
Ao bater o sinal, a fome e a vontade de ir para casa foram mais fortes. Então eu falei. Ela me fez prometer que conversaria com as outras pessoas. Foi a primeira promessa que fiz contra a minha vontade. Prometi porque queria ir embora. E se corresse, conseguia comprar um lanche na saída, antes da cantina fechar.
Quando fui buscar a bolsa, a professora perguntou o que houve e eu disse: ela não respeita o meu direito ao silêncio. Não perguntou mais nada, passou a lição e fomos embora.
Depois, ainda fui obrigada a consultar com outra psicóloga. Durante uma hora ela me perguntou:
- O que você procura na minha sala? Parece que você sente falta de alguma coisa.
Silêncio.

Patricia Ortiz

sábado, 8 de dezembro de 2012

Teatro Paiol - Curitiba
As pessoas são frágeis. Os mais frágeis perdem o caráter humano e se tornam fonte de mal aos outros. Acreditam assim, conseguirem alguma imunização. Os conscientes, dessa engrenagem sórdida, surtam. São tratados por aqueles que acham normal que a vida siga desse modo. Mas é esse absurdo que nos destrói.

Ricardo Pozzo
Rua Presidente Faria - Curitiba
Dos jogos de sedução me resta a gentileza, da ânsia o desdém, e das estratégias o tédio. Não posso mentir nem sequer enganar-me, sou o reflexo invisível de minha sombra e não renuncio às minhas fugas secretas nem aos meus incessantes suicídios. Meu ofício é ser Eu e, nesse exercício perigoso, aprendi alguns truques que jamais usarei. Minha solidão é sobre humana, está além do medo ou da dor previsível e por isso amo e por isso eu danço, baby. Por isso eu danço.

Efraim Medina Reyes/ tradução Ricardo Pozzo


De los juegos de seducción me queda la gentileza, del ansia el desdén, de las estrategias el hastío. No puedo mentir y ni siquiera engañarme, soy el reflejo invisible de mi sombra y no renuncio a mis secretas fugas y mis incesantes suicidios. Mi oficio es ser yo y en el peligroso ejercicio de serlo aún más he aprendido algunos trucos que jamás usaré. Mi soledad es sobrehumana, está más allá del miedo o el previsible dolor y por eso amo y por eso bailo, nena. Por eso bailo.

Efraim Medina Reyes

sábado, 24 de novembro de 2012


Pérolas aos Procos

Por que tentais, pois, "alargar" a mente? Requintai-a. 
                                                       Herman Melville

Intelectuais &
artistas
trafegando
entre a
Paula Gomes
& Trajano
qual reunidos
à tripulação
do Pequod,
ávidos ao caçar
leviatãs rosáceos,
lançam
roll mops
na garganta
dos que
desafiam
a histriônica
estética
da Augusti 
Follia
babilônica.

Enquanto eu,
que não posso
agregar-me
o rótulo,
nem de
intelectual,
nem de
artista,
há quarenta
anos
remoendo o
talásso
dos
paralelepípedos
com minha
perna
de marfim
e meu
cachimbo,
estou farto
de tentar
encontrar
Maria
Rosa
entre
Helenas
traiçoeiras.

Quem se
importará com
hecatombes
realizadas em
honra
ao deus
vampiro
do Anhangava,
se a arroba da
carne
frouxa
despenca
com a
variação
do dólar?

Ricardo Pozzo

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Foz. Foto © by Maria Teresa de Arruda

quinta-feira, 15 de novembro de 2012


calhar - como


como jefe um falso amigo, como cocinero nos trens da bessie: um buraco, amore, é tudo que resta. amor aqui se entiende por donut, también conocido por: tu no debes partir. o yo me dano. o así sigue. a canção, entre estômagos, tripas. manos granadas nem pintaram por aqui. os homens se chamavam grão e señor, como sabían abrir una ostra. sobre sus otras artes galleteras mejor calhar, o zumbir com a boca toda a su cara da.

When I eat his donut, all I leave is a hole.
Bessie Smith


Uljana Wolf/  tradução Guilherme Gontijo Flores 



clam - chef

als boss ein falscher freund, als kitchen man in bessies tross: ein loch, love, ist alles, was blieb. liebe hier gemeint als donut, also known as: du not go. or i'll go nuts. or so it goes. die lieder, durch mägen, küchen. klamme hände kamen darin nicht vor. die männer hießen sam, and lord, how they could open clam. von ihren anderen kooky künsten wollen wir lieber schweigen, oder summen, mit zuckrig vollem mund.


Uljana Wolf

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sabará




Quem disse que não somos descendentes diretos dos esquizocarpos com as esquizofíceas?

Evolução pressupõe desenvolvimento progressivo, seja de idéias ou fatos; movimentos regulares e harmônicos; processo ou transformação para algo mais complexo. E ninguém duvida que realmente estamos cada dia mais complexos.
Nossos cinco sentidos, sentidos, alimentam-se cada vez mais de complexas energias eletromagnéticas e baterias devidamente saborosas e atrativamente coloridas, e conservadas com corantes e aditivos. Tudo interconectados num macro-micro-universo tão infinito quanto finito.
Duvido de exames periódicos, mas creio na doença una, divisível e onipresente na saúde.
Reflito, durante os flashes de minhas memórias holográficas, em qual dimensão me encontro e quão quânticamente relativa sou.


Deisi Perin

terça-feira, 13 de novembro de 2012


aos cães de kreisau


ai pequenas matilhas de cães de vila: falsos
rabos patas parcas focinhos sobre a cerca

a rua é sua junto ao pó na orla do asfalto
é sua a noite que ecoa no vale adormecido

cada eco é seu: a repercussão contorcida
do som dos montes do rosnar hierárquico

das ondas ladrantes: primeiro hercúleo então gigan
tesco no ressoar quase só uma galinha sabe:

aqui quem não brada nem baba é tomado
pelo bando em gargantas em chama perde o lugar

feito lobo etc. vocês medem o mundo na baixada
dominam cada estrada cada estranho e a mim –

é sua a minha trilha o meu passo sem compasso
a minha panturrilha
enfim fora da vila


Uljana Wolf/ tradução Guilherme Gontijo Flores


an die kreisauer hunde

o der dorfhunde klein gescheckte schar: schummel
schwänze stummelbeine zähe schnauzen am zaun

euch gehört die straße der staub am asphalt saum
euch die widerhallende nacht im schlafenden tal

jedes echo gehört euch: der zuckende rückstoß
von klang an den hügeln hierarchisches knurren

und bellen in wellen: heraklisch erst dann hünen
haft im abklang fast nur ein hühnchen das weiß:

wer hier nicht laut und geifer gibt den greift sich
die meute in lauffeuer kehlen verliert sich der ort

so mordio etc. vermesst ihr die welt in der senke
beherrscht jeden weg jeden fremden und mich –

euch gehört meine fährte mein tapferes stapfen
euch meine waden
dorfauswärts zuletzt


Uljana Wolf

quinta-feira, 8 de novembro de 2012



Vamos vender a nossa alma?
Se tomaram-na sempre de todos
de nosso povo com suas mortes arbitrárias
por motivos vãos e persistentes.
Vamos vender as nossas almas
é um gesto ameaçador para aqueles resistentes
que são sempre ameaçados, por se juntar com os seus
Vale seguramente manter as posições da alma
pois os vivos não se foram mais vivem sem suas almas
e sem suas identidades negadas.

 Kin Con Chan

terça-feira, 6 de novembro de 2012

oil




 A  filosofia dá intestinos à escrita ou em desatinos
desossam na cripta a palavra precisa?
 Embaçada janela da alma onde  
encontro o tropeço na pedra do erro
jogada a esmo  na palavra viva que sangra .
 O olhar que seco não dança mais.
sem pernas, sem asas nos pés da palavra
 voam correntes. Dentes devoram
os intestinos dos sonhos nas nuvens de sangue
brotam punhais
folhas de entardeceres sobre o arame farpado
dorme a esperança.

Wilson Roberto Nogueira

sábado, 3 de novembro de 2012

Baleia ou Canis et Circenses.


(z)et - (z)oo - (z)u


señor, que estuvímos no zoo, porém estava cerrado. entreter nossos dentes ao ar livre. estudar o longo vocalize para dublar as zebras, porque todo en si mismo es distinto. assim é uma vez, vez outra é zoo. finalmente, cerca a la cerca, descobrimos desesperados lagartos por nós chamados ginger y fred. aparentemente, disse você, por eles o todo no nombrado. para ter saudades de casa, eso suficiente fué.

Uljana Wolf/ tradução Ricardo Pozzo e Gunnar Thiessen; revisão Aída Arrue

mister, we’ve been to the zoo, but it was closed. wir wollten die entblößung unserer zähne trainieren, studieren das stimmhafte sehnen zum beispiel der zebras, weil alles zueinander anders sagt, mal so und mal zoo. zuletzt entdeckten wir, verzagt am zaun, ein echsenset. wir nannten sie ginger und fred. it seems, you said, they never called the whole thing off. das gab uns reichlich stoff für den heimweg.

Uljana Wolf

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Contestado é Agora! Ocupação Nova Primavera CIC / Sabará


Quanto tempo esteve muda


e cega
atrás do véu, da mordaça,
sem poder sequer sorrir em sua vastidão de céu!
Até que rasgaram o seu luto,
e escapou essa luz
que voava e voava...

Luiz Alberto Crespo/ tradução Guilherme Gontijo Flores



¡Cuánto tiempo estuvo muda

y ciega,
tras el velo, la mordaza,
sin poder siquiera holgarse en su vastedad de cielo!
Hasta que rasgaron su enlutaimento
y se escapó esa luz
que volaba y volaba...

Luiz Alberto Crespo

quarta-feira, 10 de outubro de 2012