quinta-feira, 12 de junho de 2014


Mosca de Longas Pernas

Para que a civilização possa não submergir
Derrocada em sua grande batalha,
Acalme o cão, amarre o pônei
Em um distante poste;
Nosso mestre César está na tenda
Onde os mapas estão espalhados,
Olhos fixos no nada,
A mão sobre sua cabeça.
Como uma mosca de longas pernas por sobre o córrego
Sua mente move-se por sobre o silêncio.


Para que as insuperáveis torres sejam queimadas
E os homens relembrem daquele rosto,
Mova-se o mais suave possível, se mover-se deve
Neste lugar solitário.
Ela pensa, uma parte mulher, três criança,
Que ninguém a vê; seus pés
Ensaiam um passo de dança
Aprendido na rua.
Como uma mosca de longas pernas por sobre o córrego
Sua mente move-se por sobre o silêncio.


Para que meninas na puberdade possam encontrar
O primeiro Adão, em seu pensamento,
Feche a porta da capela papal,
Mantenha longe essas meninas.
No andaime está reclinado Michelangelo
Sem maior ruído do que os ratos fazem
Sua mão move-se para frente e para trás.
Como uma mosca de longas pernas por sobre o córrego
Sua mente move-se por sobre o silêncio.


William Butler Yeats/ tradução Ricardo Pozzo


Long-Legged Fly

That civilisation may not sink,
Its great battle lost,
Quiet the dog, tehter the pony
To a distant post;
Our master Caesar is in the tent
Where the maps are spread,
His eyes fixed upon nothing,
A hand upon his head.
Like a long-legged fly upon the stream
His mind moves upon silence.


That the topless towers be burnt
And men recall that face,
Move most gently if move you must
In this lonely place.
She thinks, part woman, three parts a child,
That nobody looks; her feet
Practise a tinker shuffle
Picked up on a street.
Like a long-legged fly upon the stream
Her mind moves upon silence.


That girls at puberty may find
The first Adam in their thought,
Shut the door of the Pope's chapel,
Keep those children out.
There on that scaffolding reclines
Michael Angelo.
With no more sound than the mice make
His hand moves to and fro.
Like a long-legged fly upon the stream
His mind moves upon silence.


William Butler Yeats In Last Poems, 1939 (Dublín, 1865 - Francia, 1939)  

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Holocausto dos Livres


Hitlers sonâmbulos jogam vôlei com a lua
Afugentam pássaros, queimam ciprestes
Enquanto pequeninas Franks registram -
No escuro - o belo impregnado de pólvora:
Açucenas atiradas no cais do amanhã
Árias flutuando no esperma dos anjos
A paz silvestre de um beija-flor avelã
A sugar a rosa divina em voo distraído
Franks esmagadas no ar do ódio inócuo
Enquanto mil Hitlers de oco cego ego
Brilham ácidos no altar da prepotência
As pequeninas meninas – Annes
Franks modernas vestidas de lilás -
Escrevem trancadas em armários
Meio a ratos e candelabros de fogo
Uma arca flutuando acima de suas auras
Um graal tecido entre as tranças loiras
Escrevem contra o tempo, suam crisântemos
A ampulheta do escárnio acelerando o fim
O mundo compactua - cego contumaz -
O holocausto da beleza em andamento
Hitlers sádicos a queimar os lírios da paz
A raptar a lua para iluminar seu bacanal

Bárbara Lia


Prêmio Cataratas de Contos e Poesias - 2º Lugar

domingo, 27 de abril de 2014

Os dentes da madrugada curitibana rangem enquanto uma montanha de panos velhos aproxima-se de um apressado pacato burguês e sua sacolinha de remédios."Uma moeda por favor". Sem desviar o rosto da estrada deserta, responde: "Lamento, minha última moeda gastei nos meus remédios". Não perde seu precioso tempo procurando algum rosto entre aqueles trapos ambulantes e levanta o braço mostrando a sacola da farmácia, enquanto com a outra em punho cerrado, aperta a moeda com a efígie do presidente JK. Passos apressados na escuridão sem o farol dos carros ,passa a andar no meio da rua. Como o tempo pode ser tão longo!

Wilson Roberto Nogueira

quinta-feira, 24 de abril de 2014


O último inimigo

Jorge despertava
entre a tempestade de fogo
com essa tosse de bombardeio
que não se ia nunca
e antes do desjejum
se barbeava num pedaço
de espelho que pulsava

Essa manhã beijou
a seus filhos e sua mulher
beijou como o sonho
profundo e suave
beijou de uma maneira
imperdoável e doce

Mais tarde no banheiro de um bar
sacou um revólver e disparou
justo no lugar onde
posicionava-se a tristeza


Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo


El Último Enemigo

Jorge se despertaba
entre la tempestad del fuego
con esa tos de cañoneo
que no se le iba nunca
y antes del desayuno
se afeitaba en un pedazo
de espejo que latía

Esa mañana besó
a sus hijos a su mujer
besó como el sueño
profundo y suave
besó de una manera
imperdonable y dulce

Más tarde en el baño de un bar
sacó un revólver y disparó
justo en el lugar donde
se apostaba la tristeza


Gustavo Caso Rosendi

sábado, 19 de abril de 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

E um dia as estrelas cairão,
como pouco a pouco faz a cabeleira
ensanguentada deste carvalho.
Soubemos crescer, ser tão fortes
quanto uma vela no meio da noite.
E agora que o vento frio
espalha as línguas do verão,
as inervações de seu espírito
transparecem com o sol.
O dia se mostra um pouco cansado.
Uma mulher esconde os mamilos
em um casaco amarelo. O gari
passa a mão por sobre a testa.
Duas crianças correm ao tempo
sem conseguir alcançá-lo. Embora
tempo seja um ancião com uma bengala,
não conseguem. Um cão persegue
a roda de um caminhão;
depois para, agitado.
E um dia as estrelas também o farão
como faz, pouco a pouco
a cabeleira ensanguentada deste carvalho.


Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo


Y un día las estrellas caerán,
como poco a poco lo hace la cabellera
ensangrentada de ese roble.
Supimos crecer, ser tan fuertes
como una vela en plena noche.
Y hoy que el viento fresco
desparrama las lenguas del verano,
las nervaduras de tu espíritu
se transparentan con el sol.
El día se muestra algo cansado.
Una mujer oculta sus pezones
en un abrigo amarillo. El barrendero
pasa una mano por su frente.
Dos niños corren al tiempo
sin conseguir atraparlo. Aunque
el tiempo es un viejo con bastón,
no pueden. Un perro persigue
la rueda de un camión;
luego se detiene, agitado.
Y un día las estrellas también lo harán
como lo hace, poco a poco,
la cabellera ensangrentada de ese roble


Gustavo Caso Rosendi
Você alguma vez viu o rosto
de um soldado morto?
É como se tivesse envelhecido
de repente. Era quase uma criança
enquanto durou. Mas, de imediato,
tornou-se velho.
O rosto dos pais,
que o choraram, não era
tão ancião quanto o rosto desse
mocinho. Depois, sim. Também.
À velocidade da luz.
Alguém apontou certeiro
Em seguida, no momento em que o dedo
se moveu, fechou os olhos. Ambos:
o que efetuou o disparo e aquele soldado,
fecharam os olhos com a diferença
de um segundo. Os pais, não.
Não queriam fechá-los num primeiro momento;
mas logo fizeram-no.
E foi aí que o viram andando
pela primeira vez, balançando,
dando seus primeiros passos,
agarrando-se com força naquele brinquedo
que lhe deu segurança.
Feche os olhos, nada mais. Não tenha
medo, que tudo já é passado.
Verá esse rosto final e o outro
do início. E também verá
o rosto de seus pais; do atirador.
Todos os olhos se fechando.
Eu lhe garanto.

Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo



¿Viste alguna vez la cara
de un soldado muerto?
Es como si hubiera envejecido
de repente. Era casi niño,
mientras duró. Pero de pronto,
se hizo viejo.
Las caras de los padres,
que luego lo lloraron, no eran
tan ancianas como la cara de ese
muchachito. Luego, sí. También.
A la velocidad de la luz.
Alguien apuntó certeramente.
Luego, en el instante en el que el dedo
se movió, cerró los ojos. Ambos:
el que disparó y aquel soldado,
clausuraron su mirada con diferencia
de un segundo. Los padres, no.
No los querían cerrar, al principio;
pero luego lo hicieron.
Y ahí fue que lo vieron caminar,
por primera vez, bamboleándose,
dando sus primeros pasitos,
agarrándose bien fuerte a aquel juguete
que le dio seguridad.
Cerrá tus ojos, nada más. No tengas
miedo, que todo ha pasado.
Verás esa cara del final, y la otra
del comienzo. Y también verás
las caras de sus padres; la del tirador.
Todos los ojos cerrándose.
Te lo aseguro.


Gustavo Caso Rosendi


o espanto degolado da poesia
numa palavra bruta, guerreada
rasgando o corpo pra criar o dia

descasca vida, come madrugada.

Romério Rômulo

terça-feira, 15 de abril de 2014

Está velhinha, morrendo.
É um lenço de luz
ou são seus cabelos grisalhos que protegem
as lembranças de todos?
Há pouco ainda buscava
seu neto. Agora dá voltas
pela praça, na cama do hospital.
Agora, está subindo em um carrossel.
"Está confusa, lhe falha a memória"
- diz a enfermeira à imagem
da outra enfermeira que sempre
está pedindo silêncio, e que,
zangada, coloca o indicador
nos lábios e o morde
enquanto move sua cabeça
para ambos os lados.
Agora a avó é jovem novamente.
Pega entre os braços seu filho,
que estava montado em um cavalinho
de madeira. O filho chora,
quer outra volta. Ela sorri
e o beija. "Amanhã" - diz -
"Amanhã daremos todas as voltas
que você queira." Coloca-o no chão e
o pega pela mão. E enquanto caminham,
ela se revira nos lençóis
e aí está a enfermeira alcançando-lhe
o filho para que amamente
Pela janela do quarto
o céu é o mesmo de sempre.
"Está perdida, lhe falha a memória"
torna a dizer a enfermeira -
enquanto agita o termômetro,
mecanicamente.


Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo



Está viejita, muriéndose.
¿Es un pañuelo de luz
o son sus canas las que protegen
los recuerdos de todos?.
Hace un rato aún buscaba
a su nieto. Ahora da vueltas
por la plaza, en la cama del hospital.
Ahora se está subiendo a una calesita.
"Está perdida, le falla la memoria"
-le dice la enfermera al cuadro
de la otra enfermera que siempre
está pidiendo silencio, y que,
enojada, baja el dedo índice
de sus labios y se los muerde
mientras mueve su cabeza
para ambos lados-.
Ahora la abuela es de nuevo joven.
Toma entre los brazos a su hijo,
que estaba subido en un caballito
de madera. El hijo llora,
quiere otra vuelta. Ella le sonríe
y lo besa. "Mañana" -le dice-.
"Mañana daremos todas las vueltas
que quieras". Lo baja y lo toma
de la mano. Y mientras caminan,
ella se da vuelta entre las sábanas
y ahí está la enfermera alcanzándole
a su niño para que lo amamante.
Por la ventana del cuarto
el cielo es el mismo de siempre.
"Está perdida, pobre, le falla la memoria"
-vuelve a decir la enfermera-
mientras agita el termómetro,
mecánicamente.


Gustavo Caso Rosendi

No Campo dos Espinheirais

Não

ele apenas deu uma gota minúscula do que é estar do outro lado.
Não, o judeu não obrigará o alemão levar outro alemão para dentro de um forno crematório.

Não Fraulein,

ele o judenrat  também não ficará brincando com a pistola estando diante de uma vala comum
com centenas de corpos .

O nazista vai andar a pé até algum gulag na Sibéria ou voltará pra sua Alemanha.
(depende do ano )

ele deve lembrar de Deus e sua santa suástica ,orar para que o oficial soviético e seus soldados
não tenha passado por aldeias onde mulheres e crianças russas, chacinados pelas ss
e a sua gloriosa werchmacht

sua esposa não será a lembrança de mulheres que já não existem mais. Nem a russa ou até mesmo a alemã. Que sorrirá com todos os lábios por um chocolate e um cigarro.

Passará o soldado Nibelungo murmurando que só cumpria ordens e se não tivesse cumprido, seria morto,

Ao som do Tropéu da Cavalgada das Valquírias  um manto de vergonha foi o derradeiro legado de Hitler para a nação alemã.

As vísceras de Dresden e Berlin urram para os céus e não existe uma única fresta para respirar, para ressuscitar dos escombros, das cinzas de Wagner

O soviético tenta não ver vinte milhões de pais, mães, filhas, netos e mesmo assim, judeu que é, não mata o alemão e dá o seu rifle a um fantasma ,que aos poucos retorna do mundo dos mortos e esse alemão viverá para encontrar no meio dos escombros o que restou de luz nos olhos de sua família.

Bom, o oficial do campo e os ss devem estar dependurados dançando por aí enquanto os cossacos tocam harmônica e sua balalaica .

Guerra é arame farpado rasgando a alma , cortando sonhos e abrindo com a dor
outros olhos que jamais verão campos verdes e floridos até brotar alguma criança
no útero estéril de tanto levar chutes de sombras que invadem amanheceres,
uma gota de sangue molhando um sorriso no olhar. Olhos negros, castanhos,
azuis de sonho rasgados de esperanças suando pétalas numa flor tocando o lábio da amante,
esposa que espera no silêncio as sombras dos uivos vazios cansarem de açoitar .


Ela um dia será sol novamente ...


Nada do que é humano me é estranho.



Wilson Roberto Nogueira

domingo, 13 de abril de 2014

Forçando o olhar para encontrar outros símbolos nas letras tortas da folha de sentimentos em branco. A página de papel revela-se espelho do atropelo da alma bêbada que quer cair para ver se ainda é capaz de sentir dor. Quebrou-se e nada sentiu; queimaram-lhe o cabelo e teve que cortá-lo daquele jeito hitlerístico que nada tem de seu. Por isso força os olhos da alma no papel que lhe rejeita.

Procurando ao redor das cadeiras algum papel;
se os restos que encontro é o que procuro,
nos silêncios das folhas rasgadas, documentos
de vozes tortas nas bocas sujas de almas sebosas; leio nos símbolos várias expressões, as quais só explodem por serem disparadas de vigor envenenadas sem direção ou valor organizadas.
Desatino no desalento crispadas nos olhos espadas rasgam a noite: o bando em loucas risadas chutando o vento ignorando espaço e tempo queimando a consciência.
O princípio da responsabilidade surdo e cego, velho, vaga no lamento; enquanto o prazer reina escondendo no útero acéfalo, o feto do futuro.
A semente utopia agora vazia e oca, plena de eco no pesadelo da agonia.
Amanhã a rebeldia polimorta encontrará revolta o retorno à razão, à direção e ao sentido; e aí estaremos de fato perdidos.


Wilson Roberto Nogueira

sábado, 12 de abril de 2014

Carnaval de Curitiba - 2014

Brinde

Subia e descia colinas
até chegar ao soldado Sañisky
Dava-lhe um abraço
colocava entre suas mãos meu maço de Marlboro
este é teu - dizia -
é tudo que tenho
e nos dedicávamos a dar baforadas
igual àqueles orifícios
que repentinamente surgiam
no carvão em brasa como
acne irremediável

Hoje quando nos encontramos
em alguma festa de aniversário
e acendo um cigarro
sentimos que estamos lá novamente
Então meu amigo
- que já não fuma -
coloca entre minhas mãos
uma taça de vinho
e olhamos como correm
nossos filhos
como falam nossas mulheres

E porque ainda perdura
a tristeza é que estamos felizes
e porque sabemos que de alguma
maneira não nos venceram
é que brindamos

Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo


Brindis

Subía y bajaba colinas
hasta llegar al soldado Sañisky
Le daba un abrazo
le ponía entre las manos
mi paquete de Marlboro
esto es tuyo -le decía-
es todo lo que tengo
y nos dedicábamos a echar humo
igual que aquellos agujeros
que de pronto aparecían
en la turba como un
acné irremediable

Hoy cuando nos juntamos
en algún cumpleaños
y enciendo un cigarrillo
sentimos que estamos allá de nuevo
Entonces mi amigo
–que ya no fuma-
me pone en la mano
una copa de vino
y miramos cómo corren
nuestros hijos
cómo hablan nuestras mujeres

Y porque aún nos perdura
la tristeza es que estamos felices
y porque sabemos que de alguna
manera no nos han vencido
es que brindamos


Gustavo Caso Rosendi



o argentino gustavo caso rosendi  (1962, esquel, província de chubut) participou como soldado da guerra das malvinas (1982), um fato marcante na sua poesia dos anos subsequentes, & recebeu a Faja de honor de la sociedad de escritores da província de Buenos Aires, em 1986. publicou 3 livros de poesia: elegía común (1987), bufón fúnebre (1995) & soldados (2009). participou ainda das coletâneas El viento también recuerda,  uma antologia de trabalhos de ex-combatentes, & de Poesía 36 autores.

Guilherme Gontijo Flores

terça-feira, 1 de abril de 2014

Toda nudez será castigada

O teatro de um bêbado

Eu, apenas eu
Pisando na areia úmida e fria
Meus olhos secos e empedrados
Mostravam a chama que nem mesmo ardia

O sol posto nos postes
Exalava soberania
Me era calmo e substancial
Como o tempo que rasgava meus risos
E minhas filosofias

Eu era o espetáculo de uma platéia insignificante e imprópria
De insetos e cães vira-latas
Meu ódio e minha melancolia
Escavavam um buraco em meu próprio olho
Que feito de ego e pedra, resistia

A água que vinha do céu
E o céu que deitava no mar:
O erotismo da natureza
Que como um quadro torto e belo
Fazia arder-me os versos,
Meus cascos, meu drama,
Minha comédia, meu terror.

Minha bipolaridade enferma
Que me dá azia
Minha vida incerta e naufragada
Minha peça de teatro torta
De riso, de choro
Sem roteiro e utopia


Matheus  Forcinetti
Menina de olhos tristes no Carnaval de Curitiba/ 2014

segunda-feira, 24 de março de 2014

não é por vaidade
que se demonstra haver nas coisas
o seu desejo de ver

debruçar os olhos além dos ditames
da forma, talvez

se conhecesse a cadeia de escândalos
na qual uma mulher se abandona ao espelho

profundamente olha
querendo a sucessão

de cada existência, ínfima, que a penetra
é um dardo e que tem por olho a direção

quer fazer de todas as coisas o alvo
e está em todas as coisas

ela mesma, ausente
um palco
catártica e silenciosa

até fazer um furo -
se não refratasse tanto


no escuro, a pupila.


Roberta Tostes Daniel

quinta-feira, 20 de março de 2014

segunda-feira, 17 de março de 2014

o meu licor de agapanto
licores da flor de coentro

eu vou entrar mar adentro
realizar meu espanto
no teu olhar feito vento."

Romério Rômulo

Exercícios de fé (dominical)



i.
Preciso que Deus me guie até o seu paiol
e que do alto dos ocasos
brilhe a pedra fundamental
onde me lavo
em fogo, estrela
bruta e ampla -
crer que meus pés caminham
até a próxima explosão.

ii.
Todo domingo. Uma confissão
de que todo domingo
é uma fraude
sem missais.

iii.
Preciso que o deus venha
áspero, desesperançado
nuns olhos de Clarice.

iv.
Que se redescubra o fogo.

Roberta Tostes Daniel

(2013)

Mocidade Azul

Carnaval de Curitiba/ 2014

O passado assombra desejos

O passado assombra desejos.
A consciência embriagada de culpa
denuncia fraquezas
aponta erros.

As lágrimas escorrem
para dentro
e os olhos secos não veem
a sombra no branco das montanhas
formando tua face.

As nuvens, inutilmente
embaralham tua imagem.
A névoa do talvez
tenta embaçar teu sorriso.

Lanço-me nas trevas
para ver melhor
o brilho das estrelas
e vislumbrar teu espírito delicado
e uma profunda beleza
na tua intensa e misteriosa
forma de preencher minha vida.


Deisi Perin

terça-feira, 4 de março de 2014


Carnaval de Curitiba/ 2014

segunda-feira, 3 de março de 2014



Uma busca desenfreada rumo a lugar algum. Assim começa o inicio do fim. Na esperança do dia finar assassinando qualquer luz. Pulando escuridões como quem salta carniças.

Pressa... pressa e os minutos a escorrer, pingando sangue do nariz; olhos secos. Nada dói tanto quanto o tédio. Os urros do silêncio das pastosas horas diante da caixa de vozes estéreis e imagens nulas a sugar o sumo do cérebro, fazendo brotar, verdes sinistros apodrecimentos na lente entorpecida da memória. Acorrentado à gravidade da cama, serena sepultura que chama para o sono sem sonhos, um cálice de morte sabor de miséria e derrota.

"Sirenes soam lá fora!"

"É só a polícia."

"Tiros!"

"É só mais um assassinato".

Nada tem valor para ser guardado para quem não é ninguém. Pelo menos os vermes e as baratas discordam. Presume-se. Um prato saboroso na sepultura, madeira podre sem ser de lei. Também, nunca obedecera a norma nenhuma, a nenhuma ética.Só a etílica.Bom, não precisou de formol.

(Está exposto no Museu Schadenfreudeutsch de Arte Moderna, plastificado por algum artista pós-moderno da pós-arte ou pós-qualquer coisa. O rosto e as entranhas. A propósito o ingresso custa 30 Euros, serve uma romena )

Wilson Roberto Nogueira



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Ciclos

O pedalar, um ciclo de vai e vem
que apenas
vai
   vão
      vamos
Magia fazemos
com as vindas e chegadas.

Nas idas e partidas, apenas lágrimas
escondidas atrás de um até logo.
A caminhada interrompida não é desistência.
Às vezes precisamos descer
antes do ponto final.

Nesses trajetos aprendemos sequências várias
e até criamos e/ou adaptamos outras tantas.
Percorrer tantas estradas que pensamos conhecer
para mascarar a ignorância diante de si próprio.
Após mapear-nos saberemos quais  monstros nos habitam.
E quais perigos são reais.

A caminhada não é tranquila nem harmônica.
Entediante, só as paradas, a espera.
Seguir a passos lentos.
Correr.

Em ciclos que apenas vão

Deisi Perin
Ocupação Nova Primavera - Curitiba

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Anímico animal



Petrificado pelas sensações.
Um bicho. Transmuta
Dor de si. Calcário,
Prende no rosto da rocha
Um reino de pesar. Pensa
Sob seu magma, sente
A poeira nas formas:
Sedimentária magia.
Requenta um passado
De fome. Um nome
Sublima a meninice do homem.
O anímico animal crava os dentes
No sangue da rosa. O peito
Como o diabo gosta:
Santa candeia de artérias.
Um servo: de querer bem ao corpo;
Um passo: rumo a tudo que varre;
Um sopro: de abismo e de glória.
Poente, um deus que venta o rio.
Senhor de fogo, de frio,
Ferve o eterno.
Verve do querer.

Roberta Tostes Daniel


(2010)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Lava

E, pensei, se têm razão
tanto Heráclito e Parmênides
e lado a lado existam dois mundos,
um tranquilo, outro louco, uma flecha
zune sem reflexão e outra a observa
tolerante: a mesma onda flui e não flui,
os animais nascem e morrem ao mesmo tempo
folhas de bétulas brincam com o vento e, por sua vez,
fenecem na chama ferruginosa e cruel.
A lava mata e perpetua, o coração golpeia
e é golpeado, houve guerra, não houve guerra,
judeus morreram, judeus vivem, cidades arderam,
cidades estão de pé, o amor empalidece o beijo eterno
marrons hão de ser as duas asas do falcão,
você segue comigo, embora já não estejamos,
os navios naufragam, areias cantam e nuvens
vagabundeiam como pedaços de véus nupciais.

Tudo está perdido. Tanta alucinação. As colinas
cautelosamente carregam longas bandeiras do bosque
o bolor sobe a torre de pedra da igreja
e elogia, com seus lábios timidos, o norte.
Ao crepúsculo, jasmins como lâmpadas ferozes
brilham atordoados com seu próprio resplendor.
No museu estreitam-se ante a lona escura
pupilas felinas de alguém. Está consumado.
Cavaleiros galopam seus negros corcéis, o tirano escreve
uma sentença de morte repleta de erros.
A juventude torna-se nada no transcorrer
de um só dia, o rosto das moças torna-se
medalhões, desespero torna-se encanto
os frutos das estrelas crescem no céu
como uvas, a beleza dura, trêmula e impassível,
Deus está e morre, a noite regressa ao nosso lado
a cada entardecer, e é, o arrebol, madreperolado pelo orvalho.


Adam Zagajewski/traduzido da versão em espanhol de Elzbieta Bortkiewic por Ricardo Pozzo

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Contestado é agora!

Natal na ocupação Nova Primavera/ 2013

DNA psicodélico

A dupla hélice
colorida,
arredondada
icônica estrutura
helicoidal

que sobe e desce
pré-determinando
cores e formas
dons e sabedoria
medos e traumas
alma e psique.

Quem sou?
Como sou?

Vida, continuidade
e essência
contida numa complexidade
e singeleza
tão linda
tão colorida

tão dolorida.

Num tempo rumo
ao igual
ao conforme
à padronização

alegra-me saber
que,ao menos,
por dentro
sou um DNA psicodélico


Deisi Perin

sábado, 15 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Submundos em nós



Não conhecia as cores
Vivia num lugar que semeava a escuridão
Era levado por vozes entrecortadas
Sombras dançantes de árvores fossilizadas

Eu descia dos longos troncos das sequoias do norte
E tentava segui-lo de longe, tão longe quanto
estamos agora de nossos pais
Era uma batalha encontrá-lo naquele lugar
Eu gritava pelo seu nome que ecoava em submundos divididos por escolhas

Eu tinha medo das pessoas que pensavam em suicídio e atravessava a rua ao pressenti-las aproximando-se com seu ponto final cravado na pupila

Um dia, finalmente o encontrei e foi a última vez
que nos vimos
Ele havia se tornado um pássaro estranho e o seu
espírito não reconhecia mais com o meu

Separamos as nossas solidões e eu voltei para
as sequoias que sabiam me presentear com todas as cores do sol.

Alexandra Barcellos

É POESIA - BATISTA DE PILAR - CARRO PAPEL HOMEM

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014


Alguns Livros Depois



como se você chamasse,

chamasse, chamasse

todos eles viessem como labaredas

desfiguradas

palavras que como sulcos

percorrem a precisão dos traços -

depois o vento os levanta

na maresia carbonizada, sementes eriçadas

pelo vento, viés:

a elucubração de poema que nasce desse ancoradouro

terra que lavra; o terceiro dia, insurreto

a voz cavando em páginas de um delírio putrefato,

carne para só a carne responder à solidão


arrepio de singrar um nome.


Roberta Tostes Daniel

domingo, 2 de fevereiro de 2014


Sai correndo o som da  sirene a saltar muros
percorrendo grades .

Hora dos mistérios no prato do preso
a premeditar sombras de uma corda só.

Cordas que prendem uma mãe ao filho
que germinou naquela criança abreviada.

O buraco no muro escoa mais uma sombra
nas telas da cidade.


Wilson Roberto Nogueira


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014