quarta-feira, 28 de março de 2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Abrimos o livro como a uma janela

uma pálpebra que se ilumina a novas luzes
e diante do olhar estranhando o familiar
espelhos estilhaçados sob os pés descalços.

Na busca pela identidade passamos por sombras perpétuas
de Hiroshimas íntimas em sopas de cogumelos.

Formas dançarinas da leitura de mundos que sangram
sobre teias elétricas que queimam nosso caminhar.

Fragmentos de cristais sem valor eletrizando o nada dos nossos passos.
andamos a esmo, perdidos nessa leitura.

No barro das palavras tentamos construir nossos ídolos e seguimos adiante.
Pedaços dessa anatomia de Golem se desprendem na tempestade do desencanto .

Palavras paridas de imagens queimam e evolam-se, reencarnando em nuvens que espalham o sêmen translúcido na relva a sorrir e a tudo presencia a pedra da palavra na pele do sonho.

Voltamos a dormir no desconforto do silêncio inundados de dúvidas que se debatem nas nossas entranhas. Mas tudo são meras palavras que voam sem rumo sobre nossas cercas invisíveis de arame farpado.



Wilson Roberto Nogueira

sábado, 24 de março de 2012

contos da esquina

II


aê, garçon, rola uma pindureta?
eu já lhe disse, meu senhor, cê lambe o chão, faz favor.

- Rasgar meu diploma?
- Ué, bicho, seria um ato político. Real, manja.
- Mas, cara, é a única alforria que tenho pra ser um homem civil.
- Larga dessa, mano. Transcenda. Você muito quer o poder, qu'eu sei.
- Vamu trocar de assunto, meu camarada, e beber mais uma?
- Cê paga?

Giuliano Gimenez

quarta-feira, 21 de março de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

Anthropocetáceo

Igual a
personagem
desconfia
do ator
que é,
em voz
e carne,
ao remover
a primeira
camada
de maquilagem,

anthropocetáceo
emerjo,

do frívolo
mar
espesso
das
convenções
sociais.


Ricardo Pozzo

sexta-feira, 16 de março de 2012

ABBA

platônico

ele vive Do Outro Lado do Espelho da Minha Mente, no lugar mais intocável por minhas mãos. traçando labirintos, fazendo vendavais, recitando García Lorca lá onde não faz sol, pois os olhos não alcançam. Lá de onde surgem todos os meus delírios. não entendo como convive com a histeria da confusão de cores e explosões por segundo que ocorrem Do Outro Lado do Espelho da Minha Mente, acredito que nada disso faça muito barulho e que ele seja o causador dessa desordem. enquanto ele fala sobre o mundo inteiro em todos os tempos: presente, presente e presente, a folha branca que era O Outro Lado do Espelho da Minha Mente vira um carnaval que pula aqui pra fora. sem fazer muito barulho pois ele gosta de música. Por isso suporta, por ser uma bagunça histérica que não faz muito barulho. então pode ouvir sua música enquanto bagunça e anima a minha vida.

ele vive Do Outro Lado do Espelho da Minha Mente, no lugar mais intocável por minhas mãos. Mas um dia eu chegarei lá.

Priscila Lira

segunda-feira, 12 de março de 2012

uma espécie de gregor samsa

a noite lá fora é distinta
da noite maníaca e cheirosa dentro da xícara.
mas a aranha a passear os móveis, mas os grilos
que parecem saltar dos meus bolsos  
nivelam (ou não nivelam?) as duas noites.


então imagine que fosse
pó de café a própria terra, insone de insetos,
e que fora coado com terra, inchada de sombras e barulhos,
o café na térmica.


é o mesmo o princípio
da cafeína e dos grilos.


a xícara, com sua borra de açúcar, dorme dorme
profundo
(só quando se quebram
as coisas por um instante despertam).


partido em cacos,
sorvi toda a noite das xícaras:
é bem possível que eu não durma.
vou latejar na madrugada como uma estrela e um inseto.


Rodrigo Madeira
http://rodrigo-madeira.blogspot.com/

quarta-feira, 7 de março de 2012

Carta a Antínoo

Que me importam o império as vilas
as efígies nas moedas se o teu cheiro
ocupa ainda cada canto angular
da arquitetura
mas teu pescoço teus pés teu tórax
já não os habitam
e as águas do Nilo não permitem
que este teu cheiro
agora se evada se exale e me excite ou exalte
uns dizem suspeitar que eu ordenei tua morte
outros que tua influência se tornara indesejável
nunca houve lugar para Eros
entre as intrigas de corte
eu já não me lembro tua morte talvez
a tenha ordenado quiçá tenha sido
castigado por meus inimigos
os mais cruéis sugerem que o ato
fora uma fuga tua dos meus cafunés
das minhas mãos geriátricas
não sei não sei tua lembrança
ocupa o espaço de todo o resto
que eu poderia agora memorizar
ordens execuções missões diplomáticas
a fundação de cidades já não me alegra
se tu já não serás um dos cidadãos
as revoltas de bárbaros tão-só
me entediam
se tu não me acompanhas nas campanhas
divinizar-te é consequência lógica
doravante estarás no panteão
entre aqueles que agora
por um motivo a mais invejo
se teu exercício de natação sem volta
foi mesmo sacrifício ou autoimolação
eu me pergunto que deus te merecia
mais do que eu
dizem as boas bocas pelas ruas de Roma
que eu chorei por ti como uma mulher
como se eles pudessem distinguir o gênero
das águas salinizadas
Pancrates de Alexandria comparara
uma flor-de-lótus a ti e não o contrário
e com isso ganhou meus favores
tu eras o parâmetro
de todos os sistemas da simetria
Antínoo ainda que eu mandasse a Bitínia
ser varrida vasculhada
jamais outro com teu pescoço
teus pés teu tórax
tu eras o príncipe das belugas
Antínoo tu foste meu antinão


Ricardo Domeneck, Berlim - agosto de 2011.

Antínoo (112 - 130) foi o favorito do imperador romano Adriano. Natural da Bitínia (norte da Ásia Menor, hoje na Turquia), é provável que Adriano o tenha conhecido durante uma visita à Bitínia e que o tenha levado consigo. Antínoo era membro do círculo mais próximo do imperador, que era 34 anos mais velho que o rapaz. Em outubro do ano 130, durante uma visita ao Egito, Antínoo morreu afogado no Nilo, mas as circunstâncias em que o evento ocorreu são pouco claras. O imperador mais tarde ordenou a divinização do jovem.
nota do autor


Poema extraído de Ricardo Domeneck, no livro "Ciclo do amante substituível" (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012, com a autorização do autor!

terça-feira, 6 de março de 2012


É com a despedida do sol que os ratos jorram dos bueiros desesperadamente. Não podem mais queimar as patas com o concreto quente, não podem mais ficar cegos com a luz insuportável. Surgem exemplares de várias castas – há os ratos filhos de outros ratos, que apesar da linhagem pura, são os mais sujos, e os bastardos, que podem ser filhos de leões ou cavalos de carga, mas não se intimidam com o ambiente não familiar e vão compartilhar com os outros a dor que é não se encaixar muito bem onde nasceu.

Não há mais aquele holofote gigante para apontar qualquer movimento deselegante. Não há mais as senhoras e famílias com crianças e pessoas decentes lançando seus olhares inquisidores sobre todos os sem padrões. E mesmo que haja, os ratos são mais numerosos. São maiores. A pequena sombra concedid...a miseravelmente pelo sol cresce e toma todas as ruas.

Então o mundo é deles. O opressor agora – Ah, doce vingança! – são eles: os ratos. Bêbados, chapados, trincados, espumando de loucura. Todos em sua própria sintonia, diferentemente dos leões e cavalos. Todos fazendo transparecer seu interior, ao invés de escondê-lo atrás de uma boa aparência, morais e discursos preconceituosos. Esfregam merecidamente sua individualidade na cara da parcela disposta ao lado direito da balança social.

Entram e saem de suas tocas sujas, reviram o lixo, brigam entre si, bebem, fumam, cheiram, trepam, comem qualquer porcaria barata – alguns devoram as baratas propriamente ditas – que conseguem comprar com suas poucas moedas ou acham por aí esquecida no canto de algum poste de luz.

Então a manhã ofusca sua visão, o chão começa a ficar morno, o ar torna a se mostrar cada vez mais careta. É hora de voltar para os esgotos e esperar que a noite chegue mais uma vez. Serão reis novamente.

("Estudo sobre os Ratos")

Matheus A. Quinnan

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ossatura IV

uma bela boca, que carne contra carne apela?
os ombros, que arqueiam ou esquadrinham?
e bundas, barrigas e pernas?
e volumes?
volúpia?
dispamos o pudor
que a gente existe é para revestir os ossos
até que a morte nos convide a despi-los

Luciana Cañete
http://deusdobravel.blogspot.com/

domingo, 19 de fevereiro de 2012

eletro urbe fagocitoz

Gigo, Gigo

.
o tempo se dobra
com humor vítreo
engole o cronômetro
cospe o rolex

há gnose livre pelo ar

o ontem que já foi amanhã
se despe atrás do biombo
como se fosse hoje

bendizemos o chronomancer
batemos os dedos
na pele de seu tambor
em leque

a gnose flutua
gueixa com pavões na seda
de sua face

entre oriente e ocidente
dançamos
com o conde de saint germain & nietzsche

o conde está morto
nietzsche está morto

bang bang bang
fotamecus

ocultista e filósofo
nos sorriem
com suas mandíbulas de pixel

perdemos a hora
na acústica de um flash

espectro de cabala

no ecrã do movimento
poliedro
dos moinhos

há um coringa
no baralho
paralelo & luminoso
dos instantes

subconsciente

com ele
imantamos o jogo do tempo

o colapso na asa de uma mosca volante
é a prece

garbage in, garbage out
amém
.

Andréia Carvalho
http://habitoescarlate.blogspot.com/

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Rua Emiliano Perneta - Curitiba

rua com nome de poeta, e todos os poetas são pernetas.
Eu tenho saudade de Curita; conheço bem essa rua e a atravessei milhares de vezes; saudade de atravessar cada rua daquela cidade como fosse a minha própria cidade!
Curitiba, tambem é Rio de Janeiro.

T.S.
a
branquérrima pele fina
sem pelo do hermafrodita
- ex-homiceta
ex-homigina
ex-laleska -
à POLAQUINHA TRAVECA de utilidade pública
- face fácil para a saliva espessa
do celibato.

Por qué seremos tan perversas, tan mezquinas
(tan derramadas, tan abiertas)
y abriremos la puerta de la calle al
monstruo que mora en las esquinas, o
sea el cielo como una explosión de vaselina
(...)
por qué seremos tan desparratadas, tan obesas
sorbiendo en lentas aspiraciones el zumo de las noches
peligrosas
tan entregadas, tan masoquistas, tan
(...)


Bianca Lafroy

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Rua Duque de Caxias - Largo da Ordem - Curitiba

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

o suspiro da chuva
angustia a manhã.

O sol não se percebe só
sabe da presença pura
e ácida lágrima
amarga da fábrica
sangue translucido da natura.

O pranto seco das mães estéreis
sonham filhos de almas recusadas
acefalia falando aos espíritos
todas as ausências de todas as cores
do sol negro da fábrica a germinar
pastagens de espumas em lagos sulfurosos
em cada fio de fumaça um fantasma
como aquela criança pálida coberta de pústulas
que brinca em sua margem.

O amanhã.

Wilson Roberto Nogueira

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

estudo mineral para uma jóia

carbono elíptico.
único.
puríssimo (a sujeira toda da vida).


                               modo artificial de fabricação:


                               a) carvão
                               b) brasa
                               c) cinzas
        
                               d) o cheiro feroz nas roupas


* a última clivagem é restar,
                                do cheiro feroz,
uma lembrança


2. 


in natura


a gema


(anterior às 58
facetas) não veio


das minas negras de angola
nem arfou nas mãos
de lapidários belgas.


não foi desentocada
meticulosamente das
entranhas da terra;
              
por cuspe de gêiser mais
que fundo de cava,
da entranha das entranhas
     
prorrompeu:
                    


                           3.                            


verruga de
diamante, rastro de lesma,
pingente: lágrima quase invisível
no pescoço infinito
da mulher


Rodrigo Madeira
http://rodrigo-madeira.blogspot.com/

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Centro Cívico - Curitiba

Urbe[m] Samsara

Escatológica cosmogonia
a cada quadra

Urbe[m] Samsara

que pouco você vê
re significada

a cada Cosmo [de]

subjetividade
individualizada!

Ricardo Pozzo

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vila Capanema - Curitiba

Odd Man Out

A Mario Alberto Bautista

Bom. Agora escreverei as palavras para que você se entretenha com o exercício
de sublinhar.

Puncione a ferida no pulso esquerdo.

Vem do coração o sinal, a lenha, com a qual levarei ao ar este sinal
de fumaça.

Solidão amanhecida, manhã solitária, a sanha e nada nada nada nada.
Nada nada.
Nada nada nada nada nada.

Sublinhe a palavra que não corresponda:
nada nada nada nada nada nada tudo.

Sim, sublinhe tudo.
Circule o não circulável.

(O sinal.
A ferida futura no pulso esquerdo. Puncione).

Aqui eu fico.


Eduardo Hidalgo/ tradução Ricardo Pozzo

domingo, 5 de fevereiro de 2012


Incêndio da favela Moinho, região dos Campos Elíseos - São Paulo

Ao mendigo da Travessa da Lapa, que tirei do meio da rua por medo de que fosse pego pelo Biarticulado

Eu queria dizer que te respeito, camarada
Por ter lutado contra a servidão
Por escolher a pinga ao invés da enxada
Pela calçada à linha de produção

Emerson Peretti

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


B.O.

contrabando 
operação pássaro de cinco asas


numa rápida e ligeira atuação da polícia federal, no centro histórico de curitiba, foram apreendidos cem quilos de argumentos falsificados, uma porrada de discursos retóricos vencidos, teses mal fundamentadas, estética parnasiana, um sofista perdido no tempo e mais dois intelectuais da área de ciências humanas com baixa produção acadêmica.



Giuliano Gimenez

sábado, 28 de janeiro de 2012

chuva de verão. o domingo não tem margens. e olha eu aqui ensaiando uma orquestra de beijos, pedindo para dormir na parte de trás de seus joelhos. meu cérebro é um fosso, no fundo dele reside um bando de crocodilos vorazes sem cérebro. fazer o que se tenho a saudade frágil? isso vem da época em que eu tinha miragens nos olhos em vez de pupilas e retinas. chuva. e esse domingo é um péssimo dia para eu estar assim tão católico. francamente... faz muito tempo que não entendo absolutamente nada de nada, e não sei o que é a poesia. só sou um piá de bosta romanticão, meio punk rock meio vanerão, que a todo momento precisa justificar ao seu melhor amigo: ela só pode ser mutante, cada vez que a gente se encontra está mais bonita. devo falar isso fazendo a cara mais estúpida da terra, com a língua de fora e os olhos um pouco vesgos. malditos superpoderes (os que ela tem). tá bom, mais detalhes: ela tem a voz um pouco rouca, não bebe, não fuma (cigarro nem maconha). ela nada três vezes na semana (essa parte talvez seja mentira). ela só lê alta literatura, mas muito lentamente (vai que a cama de uma mulher solteira é a dor dessa mulher solteira). é inteligente e não é pedante. ela não tem um pai (nem irmão) filho da puta (isso ajuda). gosto do seu cheiro e de sua educação desajeitada. talvez ela seja mais doce do que precisaria. ela lembra muito a Penélope Cruz (isso talvez não bata bem). ela não é evangélica, nem santinha. ela é mais assim: seio bonzinho, seio malvado. e fica mais frágil em dias de chuva. bem, não sei mais o que dizer, às vezes acho que ela me ama menos do que ama o seu guarda-chuva (cito). ah, eu não devia escrever essas coisas e correr riscos (minha mão é o meu coração). mas domingo é um dia oco (Clarice, também tenho direito). sei lá, talvez eu seja um merda. talvez eu não seja o seu fodedor. sabe, o que a gente não consegue ser é também muito o que a gente é. talvez eu não passe de um seu cãozinho, seu rex. mas pelo menos hoje meu nome seja relax.


Luiz Felipe Leprevost

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Trabalhador da Prefeitura de Ipanema/ Pr

O Bico do Cisne

Ela queria achar sua tesourinha dourada de ponta de bico de cisne, mas somente achou chaves, umas chavinhas graciosas em um maço de três, dentro de um saco com velhos vidros e jarros, que foram todos para o lixo, e um cadeado vermelho, também com chave e um bichinho de pelúcia que ela mesma fizera, com um olho maior do que o outro. Ela pensou que talvez sua mãe tivesse um jeito mais doce e funcionário público de ser segura do que seu pai liberal e comunista angustiado,  que diferença fazia isso agora ao defrontar os fracassos da vida, mais um será possível, mas o fato é que o suco de mirtilos lhe parecia insuportavelmente artificial.  Tudo lhe parecia artificial.  Um suco colorido, continha anidrido sulfuroso, como ele dissera assim na lata.  Será que isso era uma tinta, uma cor, um gosto, um cheiro, um nada. Unhas passando pelo vidro.  O saco de velhos artesanatos continha vidros de amostras da Deirolle, Paris. Que coisa mais poeirenta e insuportavelmente poética, ela sabia que nunca, jamais poderia se desfazer dos frascos da Deirolle, sob pena de ser amaldiçoada para sempre até cair de vestido dentro de um córrego e morrer afogada com todos os cabelos flutuando ao seu redor.  O vestido era verde. O seu cachorro estava ficando cego mas mesmo assim os vaga-lumes brilhavam no jardim e tentavam entrar pela janela para morrer aos poucos apaixonados pelas lâmpadas elétricas.  Eles tinham o corpo comprido com duas listinhas como tantas sementes de girassol ; todavia, apesar de serem apaixonados pela luz, não brotavam quando plantados, apenas se deixavam ficar em passiva nitidez na estante branca quando ela os achava de manhã, pegava-os na mão e os colocava para fora, agarrados a uma folha da palmeirinha anã. Resignada com a cegueira remelenta, sem muito o que fazer, ela catou os Deirolle de volta da lata de lixo onde jaziam em meio a cascas de abacaxi. Rezando para o que o sol não os esturricasse, mas agora era noite, ora essa que brilhassem. Os vaga-lumes, não os frascos. Por que será que tudo isso era tão difícil as lágrimas iam escorrendo bobamente pelo travesseiro e ela via que as nuvens passavam, passavam na verdade muito rápido e havia as luzes de um avião entre elas, que passavam também, na direção oposta até que o quarto parecia estar voando. O cachorro cego talvez ainda fosse possível salvar, uma impossível dívida na veterinária que lhe dava chocolate na boca, mas os monstros de feltro velhos agora jaziam semi-mortos cheios de traças e nem mesmo a tesoura de ponta de grou ou de qualquer pássaro do bico pontudo ela não conseguira mais achar, para retirar uma etiqueta áspera que lhe agredia a nuca como um beijo de barba crescida. Quem dera. Uma simples amizade perdida. Qualquer lojinha barata de armarinhos resolvia isso em menos de cinco minutos. Era ela que o deixava tonto, ele dissera. A etiqueta raspava e ela jogou a blusa na cesta de roupa para lavar. Pronto.


Cláudia Lopes Bório

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ipanema / Pr

Fizeste bem em sair, Arthur Rimbaud!

Fizeste bem em sair, Arthur Rimbaud! Teus dezoito anos refratários à amizade, à malevolência, à estupidez dos poetas de Paris, assim como o ronronar de abelha estéril de tua família ardenense um pouco louca.  Fizeste bem em lançá-los para longe, colocá-los sob a lâmina de tua guilhotina precoce. Tiveste  razão para mudar o boulevard dos preguiçosos, as tabernas dos mijadores lírios, o inferno das bestas, o comércio dos astutos e o bom-dia dos simples.

Este impulso absurdo de corpo e alma, esta bala de canhão que atinge seu alvo fazendo-o explodir. Sim, a vida de um homem está bem no além! Não se pode, ao deixar a infância, estrangular indefinidamente o próximo. Se os vulcões pouco mudam de lugar, sua lava atravessa o grande vazio do mundo e lhe outorga as virtudes que cantam em suas feridas.

Fizeste bem em sair, Arthur Rimbaud! Nós somos daqueles que acreditam, sem provas, que a felicidade é possível com você.


René Char/ tradução do francês de Mario Bojórquez/ tradução do espanhol Ricardo Pozzo

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Fragmento do caderno poético [Urbe Fago Cito Z] de Ricardo Pozzo, lançado no Vox Urbe do Bar Wonka, janeiro de 2012!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

FICÇÃO - ananse (textos e imagens)


laguinhos brincam de balanço

no crochê de fio de prata

lendo as estórias de Ananse


Texto e foto: Susan Blum de Moura

domingo, 8 de janeiro de 2012

Ipanema - Paraná

sábado, 7 de janeiro de 2012

o silêncio vai raspando a pele  até cortar a veia do sentimento
o sangue verte irrigando  o sofrimento
que germina novas luas
de plácidos rostos em lagoas puras.

Jogo o anzol e só espero o prateado brotar peixe
faminto  não sinto dores nem o clamor da fome
não vejo a lua me olhando triste no fundo do lago
só o peixe  essa moeda da minha angústia.

palavras são foices ou seda, lã ou adaga
em mim elas saem como desespero de peixes
numa lagoa a secar no olhar de prata da lua
O sorriso plácido do silêncio é uma adaga

um sorriso que corta sem saber
corta o ar da gota prateada que se fez peixe
e não sabe por que seu mundo está a secar.
talvez ele já não saiba mais amar.


Wilson Roberto Nogueira

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Dicas para se visitar lugares sem fazer uso de papel moeda ou cartão de crédito

1. Relativizar a distância proposta e escolher entre pegar carona ou o atrevimento de ir caminhando.

2. Vigiar a noite.

3. Repousar de dia.

4. Cuidar para que não roubem seus calçados.

5. Frequentar os melhores restaurantes pela porta dos fundos, de preferência após as 14 horas, para almoçar sobras.

6. Improvisar talheres.

7. Perceber que o que é pouco pode tornar-se suficiente pois até a sobra pode faltar.

8. Usufruir o vento no rosto.

9. Discernir que a sobrevivência é feroz apesar de consistir naquilo que é simples.

10. Abdicar do rigor da higiene.

11. Consequentemente, abdicar do flerte.

12. Não frequentar estabelecimentos comerciais pela porta da frente, a não ser que esteja necessitando de adrenalina, porém aguente consequências.

13. Aguentar consequências.

14. Usar do filtro lúdico ao perceber olhares de estranhamento, pois eles diminuirão na medida em que você se tornará invisível.

15. Contemplar estrelas.

16.  Ao mesmo tempo, aguçar os sentidos frente aos perigos, ou seja, revitalizar o selvagem.

17. Escolher o coletor; abdicar do caçador.

18. Compreender a diferença entre o desprezo, o menosprezo e a compaixão*

19. Destilar as horas, sabendo que só há o hoje, cingido entre duas refeições [se houver sorte] e um lugar seguro para repousar.


Ricardo Pozzo

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

‎''E eu descobri: os portos de madrugada
preservam o exalar da recordação
daqueles que nunca caminharam por suas vielas."

Leandro Vicelli
Só deitando um pouco
no chão frio.
Apenas colando
a cabeça na terra
úmida e com cheiro forte
... de ferro.

Só encostando a alma
nas paredes do inferno,
ouvindo o fogo praguejar:
''não venha,
não chegue perto,
fique bem longe".

Apenas ouvindo
o crepitar
da lareira do mundo.
Cada estalo
é um passo meu
rumo ao infinito.
("Crepitar")

Matheus A. Quinan

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Dois poemas de Rafael Walter


Paisagem

disse-me que só o vagar lhe permitia 
a constância

não queria a certeza
queria a dúvida
expandida em caos e absoluto

a poeira contava o caminho,
não sabia dizer ao certo de onde viera
e  seguia

como poucos centavos no bolso festa ele fazia
dizia que viemos nus ao mundo
e que nada sabemos mesmo
e o resto era infinito

andava torto feito um ponto de interrogação
para endireitar os caminhos
seguia o vento
numa melodia
feito viola pela vida


haikai escatológico

escarro,  porque já não resta nada
e esse vício de saliva,  de esvaziar palavras
e emudecer o solstício ou a alvorada

Rafael Walter