terça-feira, 3 de março de 2015

Alvéolos de Petit Pavé


OS GANCHOS DO AÇOUGUEIRO


Um dos suplícios mais usuais da Idade Média consistia em punçar
a língua dentro da boca com ganchos de açougueiro.
A vítima berrava para o carrasco mouco:
o único consolo dos mortos é não morrer nunca mais.
Ao ousar novas palavras,
o escritor aciona o fracasso do signo em dizer algo do que é:
o madeiro que me refresca a fronte é galho de limoeiro,
na tigela planto um trevo de quatro folhas para curar o aziago.
Aprendo com a voz do velho vento que sopra de leve a cortina:
“Só quem bebe do leque da pavoa
esquece vírgulas e mata a morte”.
Agimos sob a fascinação do impossível:
isto quer dizer que – uma sociedade incapaz de consagrar-se à ilusão –
está ameaçada de esclerose e de ruína.


Texto: Fernando José Karl

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Lapa - Pr

No teatro elizatibetano

Para os 121 anos do cerco da Lapa

Estrela da manhã que
sob este fosso
fez teu raio resgatar os prismas
que desencarnaram porque
amaram
às últimas consequências.


Ricardo Pozzo
Lapa- Pr

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Gárgula

Dois haitianos dividem
o cachimbo
com a sinhazinha ecoville
na sarjeta, sob escombros
da senzala;

passo ao lado.

Na real, azumbizados
seduzidos pela pomba
giratória dominante,
vestida em sua melhor pele
cor de leite,
que dos negros jorra

entre seus lábios.


Ricardo Pozzo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Pra colher alumínio

No terminal a
fleumática
madame, em inflexão
sexual, paralisa
ao lado de
um haitiano.

Enquanto um
Van Gogh
sertanejo,
tão mais
sofrido
que Descartes,
entra em um
latão que se
arregala
de medo.

Ricardo Pozzo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Contestado é Agora!

Ocupação Nova Primavera/ Curitiba
Pássaros de asas mutiladas despencam em variáveis toneladas
por sobre a indigente face dos agrestes.

E vão-se aos ares vidas, entre paredes carcomidas no interior
de sépticos casebres.


Ricardo Pozzo

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O Contestado é Agora

Ocupação Nova Primavera/ primórdios
Nós que ouvimos por sobre
as cabeças o relinchar do morteiro
que lemos o futuro nas tripas
dos nossos
Que cheiramos as latrinas do espírito
que tocamos o tremor da pedra
como a um coração desesperado
Que lambemos o mijado ventre
da terra que persistimos apesar de tudo
e de nós próprios
Somos os que ainda permanecem
em giletes os que ainda têm
pupilas como estilhaços candentes
aqueles que às vezes continuam se
arrastando pela noite
os que ainda sonham
em regressar algum dia


Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo


Nosotros que escuchamos sobre
las cabezas el relincho del mortero
que leímos el porvenir en las tripas
de los nuestros
Nosotros que olimos las letrinas del espíritu
que tocamos el temblor de la piedra
como un corazón desesperado
Nosotros que lamimos el meado vientre
de la tierra que persistimos pese a todo
y a nosotros
Somos los que aún permanecemos
en cuclillas los que todavía tenemos
las pupilas como esquirlas candentes
los que a veces nos seguimos
arrastrando por la noche
los que todavía soñamos
con regresar algún día


Gustavo Caso Rosendi

domingo, 23 de novembro de 2014

Repontual by Adriano Esturilho


A Voragem da Vertigem

Austera,
a escaldante face
anti séptica do sol
desperta
a ela

que
das meia verdades
impressas,
costurou a coberta

na desestratégia
de resguardar a si

dos ventos
e seu remordimento,

das estrelas
em deslumbradas
enxurradas,

da fome que encalacra
seu fétido perfume


Ricardo Pozzo

sábado, 11 de outubro de 2014

Pássaros Ruins/ Alexandre França


A quem caberia decifrar a cartografia do acaso?

I.

Elegância, lírios dos detalhes
se rangem vibráteis fibras que
aos pelos eriçam

Zunem asas, aguçam
rútilas quelíceras

e rara pulsa prenha
a peçonha do furor

II.

Intrusa, em sericígena mortalha desfaz-se
qual aurora transfixada por torres de babel,

vítreas lâminas; arranha céus


Ricardo Pozzo

Pássaros Ruins/ Luciana Cañete

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Clamor por Inspiração

Eu me deito, sem sono
E espero que me visites,
Espero que me preenchas
E me pintes com ideias claras.

Eu me levanto e rodeio os cômodos
Enquanto aguardo tua iluminação perene,
Teu lampejo de conforto
Que me ponha útil nesse ofício sem capital

- a poesia.

Eu te procuro entre cafés amargos,
Sob estrelas distantes, entre esferas vagas.
Eu te entrego tudo o que sou:
Inspiração, desassossego da carne, jardim bem cuidado...

E espero que me retribuas em mais mistério.

***

Há angústia e medo se acumulando pelos cantos;
Há promessa de amor me atravessando o continente
Regando de desejos essas esperanças sedentas e sertanejas.



Hérlon Fernandes Gomes (10/06/1981) é natural de Brejo Santo, uma pacata cidade do sul cearense, da conhecida região do Cariri, um berço de cultura do estado.Começou a escrever seus poemas na adolescência, publicando os primeiros textos em jornais da região e periódicos do curso de Direito da Universidade Regional do Cariri, de onde obteve o diploma de bacharel, sendo inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Subseção Crato. Paralelamente à carreira jurídica, o autor é amante da literatura, especialmente da poesia, de quem se diz “apenas um instrumento usado para transportar ao papel as emoções que podem nascer de todos os homens.”Em 2008, publicou seu primeiro livro, intitulado GEMINIANOS – POEMAS DE DESCOBERTA, de carga confessional, passional, em que o autor disseca, principalmente, os estágios de gozo e sofrimento do amor. Nesse mesmo ano, começa a escrever um blog, intitulado ARQUEOLOGIA DA ALMA (http://arqueologiadaalma.blogspot.com.br/), espaço dedicado a dar vazão à arte que lhe mina. LÚMEN – ENTRE OS MATIZES DA ALMA E DO CORAÇÃO é seu segundo livro publicado. Ao longo dos 150 poemas que compõem a obra, dividida em oito partes temáticas, o autor nos convida a refletir sobre os horrores de um mundo caótico, povoado pelo terror de guerras reais e do ego, do artificialismo do ser; mas, sobretudo, nos alerta para que não percamos nossa imorredoura capacidade de se apaixonar, de amar e de ter esperanças, sempre

domingo, 17 de agosto de 2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Que nível de pureza e sabedoria devemos atingir para aniquilar o embalsamento da alma?
Mantê-la divina e imortal sem carregar o peso tirânico da efemeridade, livre dos erros da ignorância, dos receios e das paixões do corpo.
O quê devemos escolher, até onde podemos ir para encontrar um equilíbrio entre o visível e o invisível, para que não haja um dominador e um escravo?
Parece-me certo privilegiar o simples, o indissolúvel, o imutável; e refrear os prazeres de sensível que se dissolve, se desfaz, do que se corrompe em cadáver.
Devo afastar-me de todo e qualquer vício, de tudo que embriaga a alma fazendo crer que nada existe além de físico, do que se pode ver ou tocar.
Uma alma assim mescla-se ao corpóreo e se afasta do obscuro e divino, e o corpo será um invólucro pesado que a carregará ao mundo terrestre, perdendo a liberdade e a pureza que lhe é natural e íntima, seguindo caminhos ilusórios que são percebidos pelos olhos, ouvidos e outros sentidos.
Da voluptuosidade dos prazeres e tristezas, dos desejos e medos, vem as enfermidades e misérias.
E cada satisfação e tristeza fixa a alma ao corpo e a torna material, fazendo-a crer na ignorância e na escravidão do vício.
Devo manter as paixões em perfeito equilíbrio e ter a razão como guia. Manter o divino e o imutável para me libertar dos males que atormentam a natureza humana.
Assim não serei dissolvida por crenças vulgares, nem corrompida pela mediocridade de pensamentos destituídos de valores, de solidez, que se preocupam em impor a própria opinião ao invés de aprender.
É necessário convencer a mim, e não aos outros!


Deisi Jaguatirica

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Frenética CWB

Babilônicos sedentos,
comedida alforria
terapias diversas,
impostora alegria

Vidas cinzentas
empoladas magentas;
Vísceras devoradas
esquecidas na alvorada

Frenesi e morte
edificam a epopeia,
a noite é o Habeas Corpus
da medusa europeia.


Gisele Borges

quinta-feira, 24 de julho de 2014


Criança

Criança dos ancestrais,
Deusa, deuses,
reis e rainhas,

criança onírica,
mito & sabedoria,
pirâmides, pedra por
pedra,
criança de visionários
reis poetas,
Sor Juana,

criança de contadores de estórias
e cantores, Octavio
Paz, Rosario Castellanos,
criança de perfeita
beleza, Frida Kahlo,
Diego Rivera, na
cédula de 500 pesos,

criança de Quetzalcoatl
e Xochiquetzal, la
madre Coatlique,
grande Ixchel,

criança do Sol e
da Lua, cada estrela,
nascida da Terra/Céu,

criança em farrapos de roupas
desgastadas, com sujos sapatos,
e dedos expostos, tentando
vender um inútil
bilhete,
o brilhante,
supermercado abundante, a
loira balança
cabeça com ojeriza,
você implora, olhos
em súplica,

desejando, conforto, banho,
roupas limpas, alguma
segurança, amor até,
o adolescente com olhos de falcão
observa o
com escárnio

mas ele continua
suplicando, implorando,
com seu inútil
bilhete,
sua parda
mão imunda

criança dos ancestrais​​
gostaria que o grande poeta
rei, Nezahualcoyotl,
cantasse um poema para

você, filho do
desespero e
da fome, do lixo,
seus olhos ainda
sombreados pela

inocência.


Alma Luz Villanueva/ tradução Ricardo Pozzo


Child

Child of the ancestors,
Goddess, Gods,
queens and kings,

child of dreaming,
myth, wisdom,
pyramids, stone by
stone,
child of visionary
poet kings,
Sor Juana,

child of storytellers
and singers, Octavio
Paz, Rosario Castellanos,
child of perfect
beauty, Frida Kahlo, 
Diego Rivera, on the
500 peso bill,

child of Quetzalcoatl
and Xochiquetzal, la
madre Coatlique, 
great IxChel,

child of Sun and
Moon, every Star,
born to Earth/Sky,

child in tattered clothing,
worn, dirty shoes,
toes exposed, trying to
sell a useless
coupon,
the shiny, abundant
super market, the
blonde woman shakes
her head in disgust,
you beg, eyes
pleading,

hunger, comfort, bath,
clean clothes, some
safety, even love, a
hawk-eyed teen
watches you,
bullies you,

not to stop
begging, pleading,
your useless
coupon,
your brown
dirty hand, 

child of the ancestors, 
would the great poet
king, Nezahualcoyotl,
sing a poem to

you, child of 
despair and
hunger, filth,
your eyes still
shadowed with 

innocence.


Alma Luz Villanueva


http://www.almaluzvillanueva.blogspot.co.uk/

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sangue de Bruxa

poder do meu sangue, seu segredo
envolto em línguas antigas
faladas por homens que se proclamavam
deuses e sacerdotes e oráculos - fizeram
rituais elaborados
cânticos secretos e ciclos exaltaram,
chamando as mulheres de impuras.
os homens mataram
fizeram a guerra
para fluir o sangue, de modo tão natural
qual mulher
uma vez por mês
homens vagaram pela terra para encontrar
a paciência da gravidez
a alegria do nascimento-
a renovação do sangue.
(o terrível e sangrento segredo: Ó mulher
ouse nascer
de si mesma)
me chamem bruxa
me chamem harpia
me chamem feiticeira
me chamem louca
me chamem mulher. Não
me chamem deusa.
não quero essa posição.

Eu prefiro olhar maravilhada, uma vez por
mês meu
sangue de bruxa.

Alma Luz Villanueva/ tradução Ricardo Pozzo

Witches' Blood

power of my blood, your secret 
wrapped in ancient tongues
spoken by men who claimed themselves
gods and priests and oracles – they 
made elaborate rituals
secret chants and extolled the cycles,
calling women unclean.
men have killed
made war
for blood to flow, as naturally
as a woman’s
once a month– 
men have roamed the earth to find
the patience of pregnancy
the joy of birth–
the renewal of blood.
(the awful, bloody secret: O woman
you dare birth
yourself)
call me witch
call me hag
call me sorceress
call me mad
call me woman. Do not
call me goddess.
I do not want that position.

I prefer to gaze in wonder, once
a month at my
witches’ blood.

Alma Luz Villanueva
As casas flamejam porque partiremos
para não voltar jamais.
Guillaume Apollinaire


Surgem a cada noite
uniformizados de musgo
desde a terra parturiente
Olham as luzes do cais
e ainda sonham
em regressar algum dia
Cheirar de novo o bairro
e correr até a porta
da casa mais triste
e entrar como entram
os raios solares
pela janela
na qual ninguém mais
se detém a olhar
onde já ninguém
espera a alegria.


Gustavo Caso Rosendi/ tradução Ricardo Pozzo


Las casas flamean porque partiremos
para no volver jamás.
Guillaume Apollinaire


Se asoman cada noche
uniformados de musgo
desde la tierra parturienta
Miran las luces del muelle
y todavía sueñan
con regresar algún día
Oler de nuevo el barrio
y correr hacia la puerta
de la casa más triste
y entrar como entran
los rayos del sol
por la ventana
en la que ya nadie
se detiene a mirar
donde ya nadie
espera la alegría


Gustavo Caso Rosendi

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Conselho

E se cada gota de sangue
derramada
pelos fuzis e metralhadoras
automáticas
mísseis de longa distância
veículos e aeronaves
tripulados remotamente
espirrasse
na face
de quem aperta o botão?

E se os espasmos de convulsão
das crianças feridas
pelas balas perdidas
fossem reproduzidos
nos tapetes das salas
de visitas
dos senhores da guerra?

E se a terra que cobre
as valas coletivas
dos cadáveres denominados
de efeitos colaterais
fosse depositada
nos fundos dos quintais
dos que financiam
com impostos e apoio
político-midiático
este circo
de infinitos horrores?

E se todos os esqueletos
das tantas guerras injustas
e justas
ficassem expostos
permanentemente
em Versalhes
Westminster
na Praça Vermelha
da Paz Celestial
ou no salão oval
da Casa Branca?

E se os lamentos das mães
que perderam seus filhos
nos genocídios
fossem o despertador
diário
dos líderes sentados
irresponsavelmente
nos assentos confortáveis
e permanentes
do Conselho de Segurança?


Thomaz Ramalho (Buenos Aires, março/2014)

sexta-feira, 4 de julho de 2014

desiderium

como quem vê no céu

que estrelas faltam

achar em cada falta

                        o seu desejo

& assim deliberadamente

                                          desastrá-lo


Guilherme Gontijo Flores

terça-feira, 1 de julho de 2014


News that stay news

Há 12.700 milhões
de anos uma estrela explodiu
numa autoaniquilação translucinada
partida em dois rastros
que então correram
quase na velocidade da luz
no seu fim brilhou tanto
que ofuscou toda uma galáxia
mas acabou por ilustrá-la
tanto que hoje astrônomos
munidos dos telescópios
mais inutilmente poderosos
estudam nessa luz arcaica
a por assim dizer
infância do universo
segundo especialistas
enquanto eu poderia
neste instante e noutra distância
arriscar-me ínfimo
tentar tocar a tua mão
ou roubar qualquer sorriso
fundando e fundindo-me no sol


Guilherme Gontijo Flores

segunda-feira, 30 de junho de 2014


Vai Ter Copa Sim

eu sempre quis
que o futebol se fodesse,
que os corinthianos
e o palmeirenses
e os tricolores, todos
se fodessem, inclusive eu
torcedor do santos
só em final do paulistão;
não sou patriota
e copa do mundo pra mim
é desculpa pra encher a cara
com os amigos na casa
de alguma boa alma
que goste de limpar
sujeira dos outros;
meu patriotismo tá nisso,
só nisso
se estourasse uma guerra
eu ia ser o primeiro a dizer
"fuck brazil" e fugir
pro meio do mato;
mas esse ano como é
que eu vou fazer amanhã
na hora de sentar e abrir
a primeira gelada?
tanto parceiro levando
chumbo e porrada,
sem nem poder dizer
que a FIFA é a culpada,
essa anarquia maluca
nos grandes centros
e a pobreza
maquiada pra gringo
achar que favela é
bonita e que por aqui
só se fala de
globeleza;
desejo que os blocks
com seus molotovs
quebrem tudo
pra honrar o
verde & amarelo,
que as pessoas
não se calem
e que o metrô pare;
um grito
em uníssono
pro mundo inteiro
ver que o brasileiro
tá sendo enrabado
com strap on
sem vaselina;
infelizmente não vou
poder chegar junto
e isso me entristece,
mas não tem
problema;
vou acompanhar
tudo pelo pecê
e meu brinde amanhã
companheiros
será pra vocês!

Guilherme Ziggy

Armadilha das Trevas

Levou sua Alma
Carregou princípios e valores
Clamei Mãe Terra!
Clamei Pai Celestial!

Luz no seu caminho.
Libertem seu corpo
Libertem sua mente
Libertem seu espírito sagrado.


Jussara Nascimento

Estes também Beberam. Da fonte del Caballo que; Vuela!


quinta-feira, 12 de junho de 2014


Mosca de Longas Pernas

Para que a civilização possa não submergir
Derrocada em sua grande batalha,
Acalme o cão, amarre o pônei
Em um distante poste;
Nosso mestre César está na tenda
Onde os mapas estão espalhados,
Olhos fixos no nada,
A mão sobre sua cabeça.
Como uma mosca de longas pernas por sobre o córrego
Sua mente move-se por sobre o silêncio.


Para que as insuperáveis torres sejam queimadas
E os homens relembrem daquele rosto,
Mova-se o mais suave possível, se mover-se deve
Neste lugar solitário.
Ela pensa, uma parte mulher, três criança,
Que ninguém a vê; seus pés
Ensaiam um passo de dança
Aprendido na rua.
Como uma mosca de longas pernas por sobre o córrego
Sua mente move-se por sobre o silêncio.


Para que meninas na puberdade possam encontrar
O primeiro Adão, em seu pensamento,
Feche a porta da capela papal,
Mantenha longe essas meninas.
No andaime está reclinado Michelangelo
Sem maior ruído do que os ratos fazem
Sua mão move-se para frente e para trás.
Como uma mosca de longas pernas por sobre o córrego
Sua mente move-se por sobre o silêncio.


William Butler Yeats/ tradução Ricardo Pozzo


Long-Legged Fly

That civilisation may not sink,
Its great battle lost,
Quiet the dog, tehter the pony
To a distant post;
Our master Caesar is in the tent
Where the maps are spread,
His eyes fixed upon nothing,
A hand upon his head.
Like a long-legged fly upon the stream
His mind moves upon silence.


That the topless towers be burnt
And men recall that face,
Move most gently if move you must
In this lonely place.
She thinks, part woman, three parts a child,
That nobody looks; her feet
Practise a tinker shuffle
Picked up on a street.
Like a long-legged fly upon the stream
Her mind moves upon silence.


That girls at puberty may find
The first Adam in their thought,
Shut the door of the Pope's chapel,
Keep those children out.
There on that scaffolding reclines
Michael Angelo.
With no more sound than the mice make
His hand moves to and fro.
Like a long-legged fly upon the stream
His mind moves upon silence.


William Butler Yeats In Last Poems, 1939 (Dublín, 1865 - Francia, 1939)  

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Holocausto dos Livres


Hitlers sonâmbulos jogam vôlei com a lua
Afugentam pássaros, queimam ciprestes
Enquanto pequeninas Franks registram -
No escuro - o belo impregnado de pólvora:
Açucenas atiradas no cais do amanhã
Árias flutuando no esperma dos anjos
A paz silvestre de um beija-flor avelã
A sugar a rosa divina em voo distraído
Franks esmagadas no ar do ódio inócuo
Enquanto mil Hitlers de oco cego ego
Brilham ácidos no altar da prepotência
As pequeninas meninas – Annes
Franks modernas vestidas de lilás -
Escrevem trancadas em armários
Meio a ratos e candelabros de fogo
Uma arca flutuando acima de suas auras
Um graal tecido entre as tranças loiras
Escrevem contra o tempo, suam crisântemos
A ampulheta do escárnio acelerando o fim
O mundo compactua - cego contumaz -
O holocausto da beleza em andamento
Hitlers sádicos a queimar os lírios da paz
A raptar a lua para iluminar seu bacanal

Bárbara Lia


Prêmio Cataratas de Contos e Poesias - 2º Lugar

domingo, 27 de abril de 2014

Os dentes da madrugada curitibana rangem enquanto uma montanha de panos velhos aproxima-se de um apressado pacato burguês e sua sacolinha de remédios."Uma moeda por favor". Sem desviar o rosto da estrada deserta, responde: "Lamento, minha última moeda gastei nos meus remédios". Não perde seu precioso tempo procurando algum rosto entre aqueles trapos ambulantes e levanta o braço mostrando a sacola da farmácia, enquanto com a outra em punho cerrado, aperta a moeda com a efígie do presidente JK. Passos apressados na escuridão sem o farol dos carros ,passa a andar no meio da rua. Como o tempo pode ser tão longo!

Wilson Roberto Nogueira

quinta-feira, 24 de abril de 2014