terça-feira, 12 de julho de 2016

Artemporal


Gravado na fronte
Da fronte do tempo,
Em segredo, sagrado de cores.
Perpetuando homens e animais...
Grafismos idiossincráticos, virtuais.
Observando olhares.
Subvertendo paisagens.
Transgredindo, movimentos e imagens.
Nas rochas, poesias atemporais.

Angela Gomes

Apesar


Apesar de o sol
ser a estrela do centro do Sistema Solar,
na fraca faixa de luz
através do céu noturno, habitamos.
Entre estrelas e nebulosas
passeamos os dias na Via Láctea
e preferimos astros artificiais
e luzes frias e solitárias.
Giramos em meio à poeira cósmica
sem atingir o núcleo.
Apenas conhecimentos elípticos
à velocidade do som
nos aproximam das constelações.
E quase sentimos
Os hemisférios juntarem-se.
Mas a composição atmosférica
Não tem energia suficiente para interagir.
Então emitimos
Fracos raios espectrais sem cor, nem calor.
E brilhamos pouco e sozinhos
Em nossas próprias estrelas.

Deisi Perin


Ser



Crânio e face.
Corpo e alma.
Protegidos por ossos e cinto de segurança
Da cintura escapular até a pélvica.
Braços, mãos e tórax
sustentados por coxas, pernas e pés.
Unidos por articulações e cartilagens.
Seguindo o fluxo das sinapses
e das substâncias branca e cinzenta.
Humano e desumano.
Anjo e demônio,

contradições de uma matéria em decomposição.

Deisi Perin

Galo


Em cima do telhado
apontando para o Norte,
está o galo sossegado.
Não liga para mim
nem para a sorte.
Passa dia, passa ano
e o galo ali parado
sempre tão altivo e forte.
Às vezes a vida se torna
vazia e solitária.
E o galo pensa na morte.
Ele que parecia tão decidido
ensandeceu.
Virou repentinamente para o Sul
Duvidando dos ventos.
Será que este galo
Está tão perdido quanto eu?

Deisi Perin


Agricultura



Arei sulquei
Cavei adubei.

A semente era eu
Plantada no tempo.
Cortei as raízes,
Nasceram asas.

Mas ainda
não aprendi

a voar.

Deisi Perin

A luz de velas


Universo de espuma.
Água fresca
banho e limpeza.
Roupas jogadas
úmidas de suor.
Sobras do jantar
a luz de velas.
Taças de vinho tinto
xícaras de café.

Pilhas de pratos e panelas
limpeza e arrumação.
Quem dera um
jantar romântico.
Mas
apenas
faltou luz.

Deisi Perin


Miscelânea

  
Miscelânea de sementes.
Entranhas em trabalho de parto.
Estranho ambiente inteiro.
Nada de metade,
de meio
só o do caminho.

Simbiose,
seiva viscosa
Em vísceras.

Vôo, vacilo.Vida. 

Deisi Perin

Rapel



Enfrentamento
perante um espelho
sem entrelinhas.
Cordinhas daqui e dali
prendem sua vida
que pende rumo ao chão.
Perder-se em sensações
sem olhar para um
mundo caduco
que não sobe, nem desce.
Não chove, nem molha.
Seco de lágrimas,
seco de sentimentos
cheio de receios e dedos.
Máscaras que não saem jamais
incorporadas às almas
gêmeas de nada.

Deisi Perin


Era uma vida


                              Escrito na mesma hora em que meu pai corria para outra vida

Era uma vida
que corria para o mar
Era uma vida
sem hora marcada
Era uma vida
feita de terra, ar e areia
Era uma vida
onde havia de tudo
emoções e sentimentos
sombras e luzes
Flutuavam vontades
Lá e cá
Um desejo não fala com o outro
não se olham
e confundem a vida
um acredita
outro desmente
um é atento
outro, aventura
um é lenha
outro, fogueira
um é sol
outro, lua
um cochila
outro, desperta
Qual aparece ao sol?
Qual prefere a lua?

Era uma vida
com muitos desejos


Deisi Perin
A morte costuma flertar 
mas com ela não vou me casar 
A não ser que Papai do céu 
ali, atrás dela com seu trabuco, assim exija 
depois de ter com ela me deitado. 
de uns amassos nos mansos ossos 

e carne a cair com ela vou sair. 

Wilson Roberto Nogueira 
eu nos teus olhos me escondo 
me escoro no negror do teu mirar 
e me banho nas tuas pupilas. 
Tu se  cobre com meu corpo 
mas sou eu que me aqueço. 
Só um sopro e tu desapareces 
quando desaba bêbada a manhã. 
Foi um sonho sonhado a dois
eu e a loira gelada.
Tudo que vive em mim está morto 
na pálida lembrança de uma fêmea 
fumando falo com porra e sangue; 
aspirando a fumaça do que sobrou 
do homem mirando o vazio ao procurar 
a  si dentro do útero da morte.  
A vida dançava viciada 
no olhar pálido do desejo 
mascarado no teatro do sangue 
aquecido na chama fria sobre a cama 
-platéia silenciosa das representações a represar 
dores antigas nas âncoras dos olhares ausentes.  
Trepar, não pude, pois estava morto antes como agora 
só ela respirou na boca do músculo bêbado de pecado. 

"Se beber não transe." 

Wilson Roberto Nogueira 
 Ora é só uma louca com a camisola suja de coco .
A pele desbotada e os olhos desancorados de si,
Olhos  imensos e azuis presos no desamparo
procuram , assim como suas mãos , e braços abraçando o vazio ,
o  filho que está à porta do manicômio,ajoelhado,chorando porque 
não  pode entrar.
O céu está colorido  mas a criança esqueceu a língua das cores.
A vida é um presságio
Cobra ágio
da alma que nela não mergulha.
A vida é uma agulha cujo olho um lago olha.

Cega a lua vida que bebe de si o Fel .

Wilson Roberto Nogueira 
Pego um livro e leio nas bordas outras vidas ,
em letras ora miúdas como mexilhão no coral ,
ora  octopode  oculto na tinta de seu corpo evaporado na fuga
e me pergunto se velhos fantasmas
transaram no silêncio dos sonhos ;
outras vozes em mares revoltos ou na calmaria,
onde barcos pensam
outros destinos em outros mundos,  portos a conhecer.
Veias  em alva pele, macia ou já amarelada, não importa ;
continentes ocultos que lançam sombras luminosas
na orla da praia das sensações .
Uma simples leitura mergulha em mares profundos,
onde em cada nível, novas leituras são possíveis.
Quando o fôlego não deserta para deixar ao sol,
nosso cadáver naufrago.
O que respondo à flor dourada de pétalas prateadas
meu caule de carvalho velho curvou-se ao seu olor
Quão breve brisa soprou alento ao tronco enrugado
dores de juventude hoje não pesam na nova morada
amores de esquilos na alma inquieta
tronco  grávido de felicidade na madeira velha
a qual não se curva ante a tempestade...

Wilson Roberto Nogueira

Bataclânicas


Caminhar entre altos prédios 
preparar cada passo solene 
avenidas vazias. 
O poder é solitário 
o simples funcionário 
sai da repartição e para todos 
os fantasmas atrás dos números 
é um tirano ; ele sabe-se escravo. 
caminha solene sobre as formigas 
enquanto a sombra da repartição 
bebe-lhe o sol dos dias. 
prédios cinzentos almas em cinzas 
o vento sopra para longe 
O dever cumprido 
dores nas costas 
não mais.  

Wilson Roberto Nogueira


sábado, 26 de março de 2016

SACRILÉGIO


Me aproximo de ti
como quem se aproxima da polpa do silêncio:
com gestos pausados e passos medrosos.
O mundo lá fora é muito grande,
os caminhos tão numerosos e loucos
que será inevitável o adeus.
Quando chove, contemplo as vidraças
e vejo teu rosto: envelheceste – penso em dizer-te.
Mas as palavras frequentemente são duras
e resta sempre uma paisagem vazia
onde nossos sonhos deixaram sulcos.
Me aproximo de ti
como quem se aproxima do nome de Deus:
com gestos medidos e passos de dança.
Se eu gritasse, sei que ninguém me ouviria.
Se eu dançasse, o universo implodiria.
Estive dentro dos pesadelos dos homens
e descobri que tudo é sagrado.
Menos o medo que tenho de ti.

Otto Leopoldo Winck
A poesia
é o que sobra
quando tudo acaba:
a amor,
a vida,
a obra.
Como a rosa
quando seca.
O que fica
não é seu cheiro,
sua cor,
sua forma...
O que fica
é o seu nome
-- rosa --
em toda sua fragilidade
nua,
concreta.

Otto Leopoldo Winck

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

SINAL


Há um mar
revolto
que ressoa em volta,
e aqui dentro
um oceano
insone,
onde,
entre insignificados,
desencontrado,
me estranho.
Há um barco inerte
em qualquer parte,
uma rota incerta,
um princípio de canto,
não de pássaro
ou sereia,
mas de espanto
diante do sinal
da lua cheia.

Otto Leopoldo Winck

SINAL - II


Há por um lado
o universo,
recurvo, controverso,
e por outro
meu verso,
incapaz de penetrar
a névoa
e contemplar o sol
a olho nu,
verso cativo,
insignificante,
porém rebelde ao esquecimento.
Há também
uma lástima,
a lembrança de uma tarde,
um látego, uma bátega,
uma lágrima,
e no entanto
um canto
em qualquer canto,
um rumor de onda,
significativo,
guardado no interior
de
alguma
concha.

Otto Leopoldo Winck

jura secreta 140


para o Mar que mora em mim
o enigma não está propriamente
na meta física da metáfora
mar de carne e osso
se eu não falasse ou não dissesse
esse relógio trágico
com seus ponteiros mágicos
arrastando segundo por segundo
tudo o que não passa tudo o que não cessa
o fluxo em tua boca de vênus - minhas unhas
só o céu é testemunha
desse instante único
em que passeio em tua pele
como uma flor de lótus
flor de cactos flor de lírios
ou mesmo sexo sendo flor
ou faca fosse mar de tanta espuma
com minha língua de espera
vou te mergulhar

Artur Gomes


http:artur-gomes.tumbrl.com

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Dura lição. Menina palestina desenha um tanque de guerra em quadro negro de escola em Gaza: livros didáticos ajudam a aprofundar o abismo entre árabes e judeus - Mohammed Abed/AFP/21-11-2012
Antipatias pessoais tornam-se odores pútridos a consumir o cérebro de inocentes educandos .

Como quer o professor, com suas roupas puídas e seu ar esquisito a  exalar  sentimento ocre e pesado de uma autoridade a qual já não mais lhe arma  a investidura .A índole autoritária de um saber encouraçado, agora não mais lhe cobre as vergonhas.Por traz do óculos não mais mira o firmamento , está cego no abismo de si mesmo  e mesmo assim , trôpego ,exige que o sigam pelo caminho dos desfiladeiros do conhecimento cultivado no cárcere da sala de aula .

Um tirano assassino do lazer o professor cobre de pranto o sorriso do corcel desimbestado da juventude .

O Trabalho de quebrar as pedras da ignorância liberta, mais o escravo do gozo quer se manter preso a escuridão das luzes das festas que o cegaram.Aquela escola que o Quasimodo de jaleco quer transformar num Campo de extermínio da preguiça mental, conquanto na verdade , para além daquela barata burocrática kafkiana, é um clube, onde vivem felizes os cegos de consciência na mais inimputável anomia.

O ácido da permissividade vai espraiando a corrosiva leniência , mas a fachada,a máscara burocrática se mantém de  pé.

A sala de aula uma pipeta com reagentes químicos instáveis na mão de um chimpanzé ;segue qual a saga de um roto jaleco a busca de um professor que saiba construir horizontes onde só encontra cristais quebrados , vidros cobertos de limo e quando encontra uma luz, ela só se mostrará um sol bem longe daquelas paredes , daquela porta sem trinco da cinzenta sala do pantagruélico saber desertor .Do cobarde professor que encolheu sob o pesado  jaleco que o sufoca.

A faminta necessidade de devorar o sol os corações só trouxeram tempestades em ímpetos de perpétuos presentes no signo da juventude .Almas livres voam até se estatelarem , enquanto voam voam até o sol, se sobreviverem aprenderam.Campos de trabalho mental forçado , salas de tortura , professores carrascos livrai-nos !Eles são o para -raio , a âncora ,o farol mas são apenas o papel das provas com símbolos indecifráveis ,o papel deixado no chão da sala ao gazearem a última aula.

O sabor do saber como hasabi  tempera a alma ,afasta as certezas que tranquilizam e nos fazem dormir depois das baladas.O aprendizado é árduo e a consciência um travesseiro de seixos .

Aquela caneta estourada não tinha mais como escrever mais um parágrafo que não fosse Adeus.


Wilson Roberto Nogueira 

Astronaut Neil Armstrong photographed on moon as mission commander for the Apollo 11 moon landing on 20 July 1969
As ruidosas rugas do muro no
silêncio de um céu árido
clama por justiça;
por Pão e paz,
por  terra e trabalho
na testemunha do sangue anônimo
assinado em sua pele.


Wilson roberto Nogueira
A Via Láctea vista a partir da Terra ESO

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Antipatias pessoais tornam-se odores pútridos a consumir o cérebro de inocentes educandos .

Como quer o professor, com suas roupas puídas e seu ar esquisito a  exalar  sentimento ocre e pesado de uma autoridade a qual já não mais lhe arma  a investidura .A índole autoritária de um saber encouraçado, agora não mais lhe cobre as vergonhas.Por traz do óculos não mais mira o firmamento , está cego no abismo de si mesmo  e mesmo assim , trôpego ,exige que o sigam pelo caminho dos desfiladeiros do conhecimento cultivado no cárcere da sala de aula .

Um tirano assassino do lazer o professor cobre de pranto o sorriso do corcel desimbestado da juventude .

O Trabalho de quebrar as pedras da ignorância liberta, mais o escravo do gozo quer se manter preso a escuridão das luzes das festas que o cegaram.Aquela escola que o Quasimodo de jaleco quer transformar num Campo de extermínio da preguiça mental, conquanto na verdade , para além daquela barata burocrática kafkiana, é um clube, onde vivem felizes os cegos de consciência na mais inimputável anomia.

O ácido da permissividade vai espraiando a corrosiva leniência , mas a fachada,a máscara burocrática se mantém de  pé.

A sala de aula uma pipeta com reagentes químicos instáveis na mão de um chimpanzé ;segue qual a saga de um roto jaleco a busca de um professor que saiba construir horizontes onde só encontra cristais quebrados , vidros cobertos de limo e quando encontra uma luz, ela só se mostrará um sol bem longe daquelas paredes , daquela porta sem trinco da cinzenta sala do pantagruélico saber desertor .Do cobarde professor que encolheu sob o pesado  jaleco que o sufoca.

A faminta necessidade de devorar o sol os corações só trouxeram tempestades em ímpetos de perpétuos presentes no signo da juventude .Almas livres voam até se estatelarem , enquanto voam voam até o sol, se sobreviverem aprenderam.Campos de trabalho mental forçado , salas de tortura , professores carrascos livrai-nos !Eles são o para -raio , a âncora ,o farol mas são apenas o papel das provas com símbolos indecifráveis ,o papel deixado no chão da sala ao gazearem a última aula.

O sabor do saber como hasabi  tempera a alma ,afasta as certezas que tranquilizam e nos fazem dormir depois das baladas.O aprendizado é árduo e a consciência um travesseiro de seixos .

Aquela caneta estourada não tinha mais como escrever mais um parágrafo que não fosse Adeus.

Wilson Roberto Nogueira 



domingo, 6 de setembro de 2015

Soa a sirene
O muro clama a chama da palavra
Antes o silêncio
Um cartaz sorridente mascara a fome da palavra
Agora só
Dorme o sem teto acorrentado na sombra
a imensidão
bradando a bandeira de sonho
A revolução.
Acordou em chamas.
Cinzas da luta de classe.

Wilson Roberto Nogueira .
As ruidosas rugas do muro no
 silêncio de um céu árido
clama por justiça;
por Pão e paz ,
por  terra e trabalho
na testemunha do sangue anônimo
assinado  em sua pele.


Wilson roberto Nogueira 
Sob o lençol de jornais embriagados sonhos repousam na cama de papelão.
Entre assassinatos, estupros e corrupção dorme o súdito da escravidão
Correntes pesadas como o ar que não consegue tragar
quando corre trôpego em seus sonhos de liberdade
ao morrer   a cada céu sem estrelas como essa noite
noite  que só não corta com lâminas de gelo porque os papeis
das lágrimas das almas dos anjos sem paradeiros
Tornaram-se um cobertor pesado
a amarelada e  suja mercadoria .


Wilson Roberto Nogueira

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

I° Guerra Mundial
Na Galaxia onde só havia um mundo um imundo ser dourado salgou o sonho doce do mar de alguma lua que sonhou ser planeta planta com uma medida diretiva do Altíssimo Estais Reprovado! Nota Zero!


Wilson Roberto Nogueira
Sala de redação do jornal O Estado de São Paulo, 1918
Na repartição o esporte apreciado era a ironia venenosa; a cooptação de almas pela compra não fiduciária de projetos de ocasião. A adesão á mesquinharia fazendo do cotidiano uma escalada estéril de micro-poderes ilusórios. Esgrimas de necrófagos sob a névoa... Dentro de cavernas em tribulações compulsórias arrastam-se escravos de pesadas correntes a mirar espadas sob suas cabeças comprimidas.


Wilson Roberto Nogueira
Isaac Asimov
Um grande exorcista dos meus demônios é uma folha de papel. Entrei na morada com móveis velhos revirados.A disputa pela mobília uma vida de conflitos. Velhos baús de uma vida de retalhos à desnudar se na nevasca. ela usou os retalhos de sua alma para a(s)cender a sua alma uma fogueira que a pudesse aquecer do seu útero um feto que exalasse as ruínas de seus pesadelos .


Wilson Roberto Nogueira

sentimentos estalam  nos ossos
dos cinzas dos ossos
um cinzeiro cheiro  de sentimentos
soprados para longe num suspiro
só sentimentos em pó de asas invisíveis.
Só ossos que sonharam na força da carne
Sentimentos sem palavras
Restam lavras de ossos sob o sol
Só o sal e o sal nos ossos
Animais provam de seu sabor
Ossos estalam sob o sol
Só a salobra poesia na areia
Acariciando o vazio dos olhos

Da caveira.



Wilson Roberto Nogueira
Sir Richard Francis Burton

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

no zoológico

no zoológico
ao ver que o tigre filhote
engasgou perigosamente
com o suculento pedaço
de carne do almoço
a mulher não pensou duas vezes
pulou a grade entrou no fosso
foi de encontro ao animalzinho
que então jazia inconsciente
e nele fez a respiração
a respiração boca a boca
o tigre pai por sua vez
não sabendo como agradecer
mas tentando tentando
ficou engasgado
com a suculência da mulher

Luiz Felipe leprevost


quarta-feira, 22 de julho de 2015

SUPERNOVA


da madeira o fogo
do jogo o ar:
as sentinelas ao avesso
sem dono
e sem cessar
do querer o canto
num só canto da lua
ela e eu mesma
a janela
o fogo
e o ar e a resma
da centelha
às terras escuras
Morfeu em seu hangar
ao querer ela nua
a noite farta
de madeixas
sem lugar
logos fartos
nas curvas vermelhas
e longas
e os fatos
a voar
nas alturas
do amorfo formato
centelhas de cobre
cobrem-me de luar
no calor do arremesso
a voz há de cantar
o fogo teu
eu amarei o ar
o meu amor
do fogo à madeira
do calor
até a luz
do teu brilhar

Samantha B. S.
Um grande exorcista dos meus demônios é uma alva folha de papel.
A porta onde entrei na casa de móveis virados carcomidos miravam conflitos .
Velhos baús onde sepultos velhos retalhos sonhavam sonhos de sangue
Sob a mesa o leito de insepultos desejos alimentando correntes de angústias
Vidas nuas nadando sem asas  nas nuvens sem  acarinhar formas só sombras
Nuvens em nevascas logo fechando portas aos  passos que não brotavam mais
ruínas de incêndios  contando nas labaredas do silêncio  a lágrima da alma..

Wilson Roberto Nogueira

ADEUS


O adeus que não lhe dei
seria em forma
de uma viola
cidade onde eu morei
a sua e a minha morte se completam
numa canção de vento
e canavial
carros de boi
berrantes nas tardes quentes
tudo mastigado e só
vontade louca de amar
por suas ruas
maceradas de solidão
seara seca do cérebro
toda a saudade depositada
numa urna que não se abre
cerrando para sempre
minha alma distante
vazia de mim


-Bruno Junger Mafra

em "A Valsa Esquecida" , p. 99

domingo, 12 de julho de 2015

Andy Warhol photographed by Evelyn Hofer in his studio (1962)

O Jovem que pedi a Deus

Boa educação,
sensível, revoltado,
senso de justiça apurado.
A idade vai,
você fica.
Em nosso relacionamento
eu mando,
mas você não crê
não cria nem faz.
Patina.
Neurônios, vontades
eu no comando.
Todo mundo vê.
Menos você.
Em meio a densa
fumaça verde
pais, irmãos e filhos
pra quê?

Altamente contagiante
atinjo a todos,
tragando ou não.
Marche para mim.
Marche para mim.
Meu grilhão é doce.
Meu efeito é bom.
Quem não gosta
que se esfume.
A dor me alegra,
matar e morrer.
Quando você partir,
acharei outro
jovem que pedi,
adeus!


Deisi Perin

domingo, 5 de julho de 2015

Meu tio avô


De passagem pelo interior de São Paulo,, cidade de Avaré, onde meu tio avô foi morador, procurei saber de algumas historias do meu antepassado, para recontar aqui. Pela boca dos antigos corre que meu tio avô, , era solidário, uma pessoa generosa ao ponto de dividir seu prato de refeição, caso não tivesse mais na panela para servir aos andarilhos que passavam famintos em frente da sua casa, porém sempre que percebia que o viajante fazia cara de mau gosto ao provar o tempero da comida, meu tio avô matava o pobre coitado com um tiro na boca. Foram trinta e cinco refeições não terminadas.
Desse modo, não me falaram, mas creio que meio tio avô amava demais minha tia avó, e ela cozinhava mal pra caramba!

JDamasio

Rascunho

quarta-feira, 17 de junho de 2015

keygross.wordpress.com

Moira

   O olhar vidrado no risco trincado do vidro da janela, risco trincado do vidro que corria até a parede confluindo na rachadura dela, rachadura da parede que seguia até o chão e continuava no risco da madeira do assoalho , risco da madeira do assoalho que subia pelo pé riscado da mesa , pé riscado da mesa que  encontrava o fio da toalha de crochet desfiada, fio desfiado da toalha de crochet que encontrava um filete vermelho no tampo da mesa, filete vermelho de onde surgia um novo encontro, encontro com a linha da mão - a chamada do destino - linha que estava quase escondida pelo fio da navalha .

Susan Blum
Novelos Nada Exemplares.Londrina , Pr: Amplexo Editora, 2010. p 79

Irene inteligente

Para os poetas M.B.

Irene não pede licença, pois sabe de seus direitos.
Irene não xinga e entra à força, pois sabe de seus direitos.
Irene preta, Irene boa, nem sempre de bom humor, Irene humana.
Irene estudou, Irene conhece as leis 9459/97  e  7716/89.
Irene ...Apenas uma mulher querendo entrar...


Susan Blum
Novelos Nada Exemplares .Londrina , Pr: Amplexo Editora, 2010. p 107

Marés Curitibanas



Endomingado no pântano das saudades daquele sol senegalesco, desfolhando, empilhando essências de volúpias e arrebatamentos. Nada como o verão para tomar o vinho das ânforas, fêmeas mais suculentas e lânguidos seus movimentos, convidativos seus olhares. Sol queimando corpos e refrescando de suor, revelando contornos velados em seda sorridente de transparências, vontades.

Janela suada imagem de sonho, abre o oceano, ela corre e pára, olha com olhos de oceano. Está como sempre esteve, Eva no Paraíso, vestida de suor e sorriso. Atravessa a cidade a pé, a pé nos caminhos pluviais, rios-artérias-urbanas, afogadas, afogadas de prazer sereia, de uma sereia curitibana.

Tu és a benção e o perdão deste clima niñes de monção atrapalhado, fala o bengali brasileiro que ama a água, como ama o amor que o pensamento leva, olhando aquela lótus que conduz ao Kama Sutra. Vapores enevoados de sonho despertado no coaxar de um sapo infeliz, perdido no charco ao desmaiar da noite preguiçosa, que não quer chegar.

E há quem prefira os becos escuros, dos excrementos da cidade, seu pus e náusea, suas secreções e odores de cloaca e morgue macróbia, onde a brisa faz a curva para não parar diante de um muro de farrapos e arames, hera e pesadelo.

A Curitiba do caminhante não é um esgoto a céu aberto, onde famílias-gabirus se apinham em cavernas de papelão, onde a vida vale a viagem de uma pedra.

Sonha os marés e arrecifes da bela cachopa molhada. Não a cotidiana realidade que sangra todos os dias de lamento a mãe que perdera o filho em um incêndio, porque tinha que trabalhar para alimentá-lo e não tinha com quem deixá-lo, deixou nas mãos de Deus que preferiu jogar dados na areia humana.

Que futilidade deitar emoções – vivas pequenas histórias a cada sutil movimento, se o Tsunami arrasta da terra bibliotecas vivas contidas nas cores, vozes, cheiros e temperos de povos inteiros retornando do inferno marinho só cinzas e cascas, cinzas junto aos restos dos condenados a sobreviverem aos seus entes queridos.
Um camaleão agarra com a língua uma libélula.

A cidade continua sendo construída e desconstruída no caleidoscópio da memória de um sonho, no trôpego caminhar de alguém que pensa estar acordado, caindo e caindo como em todas as manhãs, mergulhando no abismo.

Qual a finalidade da vida, além da dor, da mãe urrando sob o cadáver do filho ou é a completa ausência de si, como aquela que defeca a prole na privada. Um lapso, uma fronteira de papel separando instinto de razão, natural e social, a dor de uma só é mais profunda, mais próxima do que açúcares diluídos na água, estatísticas, meros números, alguém vê atrás dos números, rostos, sentimentos, histórias?

Continua em Curitiba, caminhando, o sapato já se dissolveu em mais uma lagoa entre a calçada e a rua-rio, em uma cidade que foi projetada para a civilização do automóvel, mesmo havendo eficiente rede de transporte urbano, lá está a horda de carros com uma única pessoa, afinal o carro representa status e poder sobre os sem-automóveis, poder de matá-los como moscas ou a eles próprios nos rachas. A propósito dependendo da carruagem pode-se pescar cada peixe-gata!

E mais um banho de graça no passar do rodante.

O catador de papel, homem-cavalo, puxa o carrinho, dentro uma criança no meio do lixo reciclável, ela segura uns vira-latas, nada mais Chapliniano, nada mais ilustrativo.

A chuva para, e pensa. A calmaria sem força, desfalecida dorme e uma parcela de si morre um pouco, sexo rápido da natureza com a cidade. Tsunami foi o sexo de uma ninfomaníaca com um estuprador, o homem estuprou a natureza e a natureza o matou de tanto fazer amor. A água é nosso berço primal, o líquido amniótico é o nosso quente mar onde os humores do afeto nos chegarem vibrações acariciantes ou em ondas revoltas dependendo da mãe terra onde estamos germinando. Assim é entre a Lua e os mares, do oceano e de nossas formosas fêmeas.
Chega que estou ficando diabético.
Para comer uma portuguesa lá na esquina o caminhante pára, e o pizzaiolo sem precisar que o freguês solicite, já sabe e diz: “- É pra já doutor em dez minutos a pizza portuguesa com borda recheada de catupiry estará pronta”. Ouve, porque ouvir não pede licença, a voz das ruas, uma esganiçada, outra, que exigiu toneladas de nicotina para produzir aquela voz cancerosa que causa arrepios nas cordas da harpa sensível de Grisette.

Nada como uma catástrofe colossal para que se extraia do ser humano o que ele tem de melhor, e de pior, praticamente toda a grande potência se mobilizaram para levantar recursos aos países afetados pelo “Tsunamis”, os artistas, o Schumacher endinheirado, os povos do planeta estão fazendo doações até o Timor, que é um país pobre doou o que não tinha, proporcionalmente doou mais do que os sovinas EUA do Bush, que prefere gastar para destruir, matar e saquear, deixe quieto, os americanos verão cortes na previdência, ensino público mas continuaram votando na quadrilha dele, porque quem elege nos EUA é o capital, que comanda a economia dos estados mais poderosos, com mais votos no colégio eleitoral deles, nos pequenos estados ele também tem voto, lá também tem os grotões como aqui, com mentalidade pré era da razão. Os Estados Unidos percebeu que perderia a corrida para japoneses, alemães e britânicos o quanto não lucrariam reconstruindo os resorts, abrindo financiamentos e de quebra puxando o tapete da influência chinesa, cada vez mais percebida como superpotência emergente, mas vieram os caipiras canadenses e atravessaram o samba com uma ideia estapafúrdia, de perdão da divida dos países como Sri-Lanka, Índia, Indonésia, Tailândia, Maldivas, Seychelles. De vagar com o andor, os banqueiros achariam esbanjamento de bondade, uma moratória de cinco anos, e claro haverá compensações para os tubarões e não só aos cevados tubarões do Índico, àqueles de Nova Iorque, Londres, Zurich.

Banqueiros não fazem caridade e o Tio Sam se apressou em declarar que não haverá um Plano Marshall para a região (nem um Plano Colombo como houve para o Japão). O Brasil mostrou presença e a ponte aérea da FAB levou o coração do nosso povo fraterno para minorar os sofrimentos dos flagelados, nossos irmãos asiáticos, doando remédios, alimentos não perecíveis, água potável, roupas e é claro de contrabando algumas urnas para os votos dos sul-asiáticos para as pretensões do Brasil ao assento no Conselho de Segurança da Onu, o que supostamente nos conferiria um status de potencia com direito de vos e vez através do veto. Pena que não tínhamos aviões suficientes para levar os mantimentos, isso requereria algo além do discurso, para sermos uma potência precisamos nos impor também com o que temos para não pagarmos mico. Tomara que sobre uma oportunidade de negócios para a Petrobrás, Odebrecht, Gerdau.
O vizinho da mesa não só tem de podre o hálito, cuja fumaça chega ate aqui, invisível e nauseante, mas o quanto de falso há no que disse?

Finalmente a gostosa chega e dá-lhe Gallo. E a noite chega com um choro soluçado de uma garotinha de olhos verdes afogados em lágrimas, com a mão suplicando uma moeda, o desconhecido deu um pedaço de pizza para ela e embrulhou outro em um guardanapo para que ela o levasse para casa, ela coçou o nariz deu um sorriso e foi embora, apareceu um guri e ela deu o outro pedaço para ele.

Pensou. Chaplin outra vez, a cidade tem sua canção, sua poesia basta ter olhos para ver, pena que haja tanto tempo escasso em pressas viciantes de escravos voluntários. Pressa que consome uma vida objetivada em coisa, em máquina o homem, peça de uma engrenagem sem finalidade, estéril semeadura de clônica mediocridade cotidiana.

Falou o filósofo, do que uma vodka não é capaz. O álcool abre a porteira para a boiada do imaginado, do irrefreado adquirir substância no real sem fronteiras dos atos valentes na verborragia cachoeira de grunhidos gritados como orquestra de um homem só, desafinado e desafiador desalinho e abandono de si como aquela garrafa voando ou aquele que dorme em meio aos produtos de seus intestinos extrovertidos a cantar. 

Enfrentar sóbria a vida requer fibra e coragem o que não é fácil. A vida ela própria age como uma mãe bêbada ou um pai, progenitor que violenta a filha como se quisesse fazer-lhe um carinho mas a marca para o resto da vida.

 O caminhante com seus passos tropeças em suas próprias pegadas, se perde e perde-se  nas sendas, nas clareiras enganosas da floresta que pensou transpor, segue intuindo o caminho na confiança cega de um rio, que mais uns metros dentro da escuridão seca, secando a esperança de sair dali. Dorme na madrugada eterna nem um pio de coruja ou uivar de lobos, nada além do silêncio. Está morto, a morte é o vazio onde ele permanece na escuridão. Será o inferno ou ele estará no sonho de alguém, estará ele sonhando?

Caindo, caindo a queda sem fim, escuridão, onde estará, um eco seco na garganta, angustias, uma súplica ao sorriso da sorte, de encontrar enfim o fundo, o fim, que seja agora, mas apenas a vertigem eterna dos condenados, pesadelo, qual é a saída, e, sair do que, do vazio.

- Você já acordou com a sensação de se estar caindo? Fugindo do inferno de existir, voando por cima de si olhando a carcaça apodrecer.


Wilson Roberto Nogueira