domingo, 5 de agosto de 2012

Paço da Liberdade - Praça Generoso Marques/ Curitiba

CONVERSA COM O LOCADOR ou o silêncio que antecede a mudança


não me diga asneiras
da conta da luz,
da água,
da geladeira estragada

desligada ainda no primeiro mês do contrato
quando descobri que desligada
a diferença em kilowatts resultava em 50 reais

e a bicicleta com o guidon quebrado
é fruto da loucura do próprio cavalo
entediado com os dias de chuva,
e os males da ferrugem

e há dias a história de que sairá um mercado na frente de casa
onde antes era uma igreja,
a ilusão do pão quente atravessando a rua
ou da cerveja gelada, num momento súbito
foi-se embora quando faltou o dinheiro do aluguel

e o animal, antes extinto, em instinto se manifestou na falta

mas agora, seu locador,
não transforme seu locatário num otário,
deixe-me ao menos sair dessa com um ar de personagem pícaro...


Rafael Walter/ inverno 2011

domingo, 29 de julho de 2012

Sujeito à Multa


No princípio era o medo


No princípio era o medo
Então criou-se a máscara
e foi bom.

A seguir, mudaram o foco
e foi suficiente.

Depois vestimos a fantasia
e coube.

Daí em diante confundiu-se tudo
E não se distingue  mais
O que é Treva, o que é Luz.

Quem rasteja, quem voa.
Quem pensa de quem pensa que pensa.

A tecnologia renova e evolui
A vestimenta, a ilusão
porém, não se aproxima do importante,
Continuamos em cavernas.

Solitárias e escuras mentes
Onde no princípio, era o medo.


Deisi Perin

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ação nas ruas de São Paulo com crianças e adolescentes negros/ AfroPress


[...]o espelho é a prisão profunda
de que somos vigias e presos,

condenados e carcereiros.
e no entanto o homem

é observado, triste alimária
de si mesmo. e no entanto

milhões de olhos o observam
atrás deste – de todos – os espelhos.[...]

trecho de: o espelho © Rodrigo Madeira, publicado no livro pássaro ruim, 2009

terça-feira, 24 de julho de 2012


se considerássemos –


se considerássemos o que podemos ver –
as máquinas nos enlouquecendo,
amantes por fim odiando;
este peixe no mercado
olhando fixo pra dentro de nossas mentes;
flores apodrecendo, moscas presas na teia;
tumultos, rugidos de leões enjaulados,
palhaços apaixonados por notas de dinheiro,
nações movendo pessoas como peões;
ladrões à luz do dia da beleza
noturna de esposas e vinhos;
as cadeias lotadas,
os desempregados habituais,
a grama morrendo, fogos baratos;
homens velhos o suficiente para amar a sepultura.

Estas coisas, e outras, em essência
mostram a vida girando sobre um eixo podre.

Mas eles nos deixaram um pouco de música
e um espetáculo estimulante na esquina,
uma dose de uísque, uma gravata azul,
um pequeno livro de poemas de Rimbaud,
um cavalo correndo como se o diabo estivesse
torcendo seu rabo
sobre a grama e gritando, e então,
o amor novamente
como um bonde dobrando a esquina
bem na hora,
a cidade esperando,
o vinho e as flores,
a água caminhando sobre o lago
e verão e inverno e verão e verão
e inverno novamente.


Charles Bukowski/ tradução: Fernando Koproski 

domingo, 22 de julho de 2012

Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Azul
Carnaval de rua de Curitiba - 2011

1

Uma selva de lâminas
acariciava os arbustos
que pequenos dilaceravam muitos
era de se espantar o tamanho dos sustos
que coléricos difamavam os outros
nas entrelinhas de um arvoredo
se via escondida a pequenez atroz
que consumia a grandeza de poucos
era notório o calcular de preces graúdas
que afastariam os desfalques e fobias
pra que gestos servissem de alento
era preciso mais que contentamento
era preciso que a proteção dos cômicos
limpasse o humor de seus assoalhos
e não pisasse no gramado da seriedade
era preciso nostalgia em forma de criança
pra que na infância o amor restituísse a saudade
nos vínculos que unem veículos
estão unidas as lembranças motoras
ninguém esquece de estacionar mais tarde
uma guerra de seda tremula
não espanta dos olhos a leveza
e não deixa de fazer voar a libélula
que esbanja em seu pouso a certeza
que seremos felizes pra sempre
uma serra que corta a cerca
nunca mais prenderá infortúnios
e não salgará o mel das abelhas
pra que mude de gosto a tristeza
que um dia se transformará
em luxúria previa da alegria
pra que num hibernar de luzes
nunca se apague a euforia
é sabedoria absoluta se embrenhar em via
espantar as ruas da agonia
e tilintar pelas mais belas avenidas
uma trégua as campinas
que verdes não amadurecem seus conselhos
e se entregam ao rústico patrimônio das intrigas
devemos espelhar nossos reflexos na montanha
e avistar a serra que se condensa diante das maravilhas

2

Em meio à sombras delirantes
a carniça debruçava suas lastimas
a cabeça debruçava ameaças
e o ombro dissecava-se nas matas
era lisonjeiro o açoitar de corpos
ruminando a esmo
e as incógnitas do tempo
diziam que o amor estava em pedaços
ninguém morria de fato nos campos
ninguém entoava um só pranto
e chorava órbitas e desenganos
era de derramar vitórias
cada gota ininterrupta de fracasso
e a derrota perpetuava nos corações
onde o homem passava horas a fio
num compasso intrigante de idéias
e os tecidos rígidos da lisonja
interrompiam as mortes súbitas
quando havia ainda ar para respirar
os trajetos emoldurados da ira
ofuscavam o sol nascente
e declinavam o poente
eram lindas as cóleras do mundo
as feras gananciosas do lirismo
onde os poetas sanavam dores
e declamavam seus amores
troféus do exílio coletivo
e dos pecados aflitivos
nas selvas intrínsecas do desperdício
haviam ainda almas variando sonhos
catalogando adornos
desperdiçando vidas
e as nuances dos mortos eram obras
intermináveis que não cessavam
formas tetraplégicas de consumo
arquétipos de insensatez e loucura
em meio à câimbras e avarezas
o monstro da fartura devorava decência
e construía uma sociedade arrogante
formada por cartas na manga
trapaça e um punhado de avareza
no fim tudo era incerto e colibri
voando perto da tristeza


Antonio Silva

domingo, 15 de julho de 2012


O Dia


Eu sonho sem ver os sonhos que tenho.
Que angustia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa, na noite que fica.
Fernando Pessoa

Noite, por quem adormeceste?
Viste a lua em suas fases,
Pulsando iluminada ou,
Tornando-te sombria?

Percebeste quantos sóis tornastes visíveis,
Enquanto apenas um a faz sucumbir,
Por fazer-se claro dia?

O que surgiu pela vidraça
Sob o encanto que se parte?
Partes dos meus sonhos
Para a realidade.

Angela Gomes

terça-feira, 10 de julho de 2012

Calçadão da XV - Curitiba

Ninguém Perde Sempre


tive um tio chamado Sol
que era um fracasso completo e
quase todo mundo comentava que ele deveria
ter partido para o vaudeville talvez pois meu Tio Sol podia
cantar McCann He Was A Diver na noite de natal como o Diabo o
que pode ou não explicar o fato de meu Tio

Sol haver se metido na possivelmente mais imperdoável
de todas para usar uma frase pomposa
extravagâncias que é ou para aprender
a fazer criações e cultivos e seja
desnecessariamente acrescentado

a fazenda de meu Tio Sol
fracassou porque as galinhas
comeram as verduras então
meu Tio Sol teve uma
fazenda de galinhas até que
os gambás comessem as galinhas quando

meu Tio Sol
teve uma fazenda de gambás mas
os gambás pegaram gripe e
morreram então
meu Tio Sol imitou os
gambás de uma sutil maneira

ou porque se afogou na cisterna
mas alguém que havia dado ao meu Tio Sol uma Vitrola
Victor e discos enquanto ele era vivo deu-lhe de presente
à auspiciosa ocasião de seu falecimento um
delicioso para não dizer esplêndido funeral com
meninos grandes de luvas negras e flores e tudo mais e

eu lembro que todos choramos como o Missouri
quando o caixão de meu Tio Sol súbito se moveu pois
alguém apertou um botão
(e para baixo se foi
meu tio
Sol

e começou uma fazenda de vermes)


e. e. cummings/ tradução Rodrigo Madeira

segunda-feira, 2 de julho de 2012


princípio da inércia em dias de chuva



e penso que tudo faz parte porque penso,
o céu a grama, os interlocurores
desta conversa adversa, e é quando
não existe porquê, só o tráfego trôfego
adestrado pelas vias, que insistem
na paisagem, mesmo sem destino.

que tudo resiste, e nada se sabe,
só a chuva constante e o vento
─ há quem diga destino, embrulho
do estômago e intestino

nada vezes nada até a alvorada
ilusão pensar que nada é nada
e me digas, é a poesia que
te mantém vivo, ou duvidas disso?

é perigoso levantar-se desta cama
porque o mundo pode estar em chamas
e o céu caindo aos pedaços
e a terra a estourar em estilhaços
a explodir a realidade em nossa cara


Rafael Walter

sábado, 30 de junho de 2012

Richard Burton reads S.T. Coleridge's 'The Rime of the ancient Mariner'

Richard Burton - the mariner
Robert Hardy - the wedding guest
John Neville - narrator

Darker Room by Michael Brook

poem by Dylan Thomas
Recitation: Richard Burton

quinta-feira, 28 de junho de 2012



Erudicídio


São nestas escolas
de sucata
infestadas por traças
e parasitas
que as nossas crianças
se deseducam
e, muito cedo, aprendem
que em terra de rei iletrado
estudar é crime
hediondo

E o que resta é a resignação
do educador
com salário de fome
que tão logo aprende
que erudição
não enche barriga;
e também a desesperança
do estudante
cuja vida ensina
o quão difícil
é preencher a mente
de barriga vazia

E para as gerações vindouras
o que fica
é a consagração
da estupidez:
a tirania da mediocridade
onde as pessoas
são niveladas por baixo
E o pior
não é a prepotência ingênua
do analfabeto funcional
mas o silêncio cínico
e (por que não?) criminosos
dos que sabem qualquer coisa
mas disseminam
impunemente
a ignorância.

E a farda
da escola pública
se transforma
para uma geração de futuro(s
excluídos)
um fardo.



Thomaz Ramalho; Maputo. setembro de 2008

sábado, 23 de junho de 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Jardim Itaqui - Região Metropolitana de Curitiba

sábado, 16 de junho de 2012

Verve



  Estou incógnito
por sob os pés sutis da sombra
cujos pés nessa clara servidão colam-se aos meus

  Estou insólito
em meio às fés em mil deuses
nos quais tem ainda outras fés meu próprio deus

  Estou finito
sobre rés do chão fora dos dias
aos quais sempre volto em rés que julgo jubileus

  Estou aflito
dentro das sés rezando em mim
que é nessas sés que confesso crer mais em ateus

  Estou escrito
entre o quem és tu e teu ler-me
que és lido diário e nos somando somos mais eus.


Davi Araújo


DAVI ARAÚJO (São Paulo, 1979). Poeta, ficcionista e tradutor. Autor dos blogs “Não Fique São” e “Transatravés”, tem poemas publicados em TriploV, Pó&Teias, Diversos Afins e Mallarmagens. Traduziu os ensaios “Natureza”, de Emerson, e “Caminhada”, de Thoreau, pela editora Dracaena. Seu próximo livro será “Ficções paralelas & Visões para lê-las”, coletânea de prosa experimental. Atualmente, conclui dois livros de poemas, continuações da trilogia iniciada com “Livro Ruído” (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal.



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Jardim Itaqui - Região Metropolitana de Curitiba

Reflexão

para Claudia

Sob a suavidade do teu olhar perscrutador
transito pelo inconsciente,
e o peso do passado
rola queimando a face.

Arqueóloga cavando
memórias irreversíveis
fixadas na trajetória do tempo.
Itinerário não cronológico
anotado em parcelas
resgatado em rotas melancólicas
Reciclando névoas confusas e ramificadas.

Inadvertidamente
se teus olhos refletem a mim
também os meus a ti refletem.


Deisi Perin

terça-feira, 12 de junho de 2012

rodrigo madeira/ pássaro ruim

Praça Santos Andrade - Curitiba

armazém
de secos e molhados
na beira
da estradinha
linguiça farinha
cachaça
e uma balconista
super boa praça


Cláudio Bettega

domingo, 10 de junho de 2012

Auditório da Biblioteca Pública do Paraná

terça-feira, 5 de junho de 2012


Lugar Comum


Dói de uma vez, dor, e consome logo
Tua parte de minhas energias.
Tu és tão sem sossego quanto o fogo
Enquanto a madeira não o sacia.

Já incineraste todo o veneno
E carbonizaste inteira a ferida.
Por que ainda queimas o carbono?
Por que não me deixas em pó e cinza?

Enquanto teu calor me estertora
A resposta alvorece devagar
É que no mundo tudo se transforma
E as cinzas também podem transmudar.

Se nada após o fogo é como antes,
Este carvão serão meus diamantes.


Felipe Spack

sábado, 2 de junho de 2012

Reforma da Catedral Matropolitana de Curitiba

Meu lugar
é em lugar algum
Não caibo nos espaços
nem navego no fluxo
Visto tamanho único
Mimetiso
Aspiro fumaça
sem tragar
desisto sem respirar
Camadas de polimento
escondem minha cor
Sorvo ácido e veneno
cruzo as pernas delicadamente
Curvo-me

Ando sem vida
falo sem ser percebida
circulo pela cidade
alta - baixa
Meus pecados
contei-os todos
ao padre
ou à terapeuta
não lembro qual.

Rasgo as vestes
mas sempre sobra
um trapo de culpa.


Deisi Perin

quinta-feira, 31 de maio de 2012


A Petrópolis que ninguém vê

Serras Infectadas

Todo dia se importando
mesmo que eu não faça
ainda continuo
Até quando?
Preso em terra firme
longe do mar
acima o céu, por vezes cinza
um chamado que por ventura sigo

Nunca mais velhos sujos!
colecionadores de desencanto
Aprendi o que não queria cedo, cedo
um pouco... Um pouco
Juntando tudo para não ser todo
Nunca mais velhos sujos!
Só há a lama para encharcar meus pútridos ossos de vinte anos!
O prazer de tangenciar o abismo
O que me faz andar e a outros cair.

Redson Vitorino

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Praça Tiradentes

No Osso


Dias duros, de ser zureta, por cansaço. Homem, em dever de reconstrutor, opera em extremo. Trecho da caveira, avariado, ocupa forças de todas partes. Ouve Bach e muitos. Olha o pé e olha o outro pé, quebrado. A doença fica oculta em pele, carne.

Um dia é de tocar só. Outro, muitas vezes, é igual. Homem toca. E abraça instrumentos e parceiros. Entre estes há máquinas, pássaros, assobiadores, passantes, infindos. É um mistério viver em mistério. Perguntas borbulham em calma. Doença ensina tristeza.

É jubiloso qualquer próximo e passo. Saltitar com par de muletas, dançar assim em três pernas, a ouvir um trecho de uma sonata, perceber-se a dizer, compulsivo, mais e mais e mais e mais: acontece. Tocar é o bom tom. Há cura.


Haroldo Machado

mister g.?


estórias do senhor G.


I

O senhor G. viu o dia bonito nascer e ficou disposto prumas pedaladas, deixando a revolução pra outra hora:

- Depois eu volto, Bolo'Bolo, ironizou o senhor G.

Na calçada, subiu na magrela com intimidade zup!, deu um impulso, fez uma com a campainha, entortou uma árvore e chispou ladeira na quebra do meio fio. Zap! Glin! Lá foi ele, na rapidez oriunda das suas pernas.


Giuliano [Quase] Gimenez

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Catedral Metropolitana de Curitiba 

Paradoxo de Zenão


Aquiles,
o Carl Lewis da Antiguidade, -
Diz a doxa -
Não é capaz
De ultrapassar
Uma tartaruga.
Pois quando Aquiles se aproxima um metro,
A tartaruga avança um centímetro
Quando Aquiles avança um centímetro
A tartaruga já andou um décimo de milímetro
Quando Aquiles anda essa quantia
A tartaruga já deixou para trás mais um décimo de décimo de décimo de milímetro
E assim por diante
Ad infinitum.

Mas todos sabemos que Aquiles, no fim das contas,
Embora não tenha vencido Páris,
Vence a tartaruga.

Só se detém no paradoxo
Quem toma o réptil
Como referência.
Na vida real,
Aquiles não depende da tartaruga
E passa voando sobre o bicho.

Se no meio do caminho
De nossas vidas
Há uma tartaruga
Nossa felicidade não estaria
Em ser capaz
De dizer não
Ao paradoxo de Zenão?


Felipe Spack

sábado, 19 de maio de 2012

Jardim Itaqui - Região Metropolitana de Curitiba

Tanatologia das Relações Humanas [2]


1. Diálogo sobre o fato de que ninguém é perfeito. Ou da insatisfação:


- Olhe, não se pode querer tudo numa pessoa só.

Ligeiro, ele saca:

- Então, por isso que você fica com vários?

Silêncio; ele insiste:

- E, em si? Você não encontra tudo?

Responde, ela;

- Tudo, é sempre muita coisa.


Ricardo Pozzo

quinta-feira, 17 de maio de 2012

[copia, copia ai da gente]

Jardim Itaqui - Região Metropolitana de Curitiba

Homeless

Sequestraram-nos a palavra
Fecharam-nos o microfone à fala
Nós
Que pensávamos estar em casa
Sob o abrigo de um teto
Tivemos que voltar às ruas

Logo agora
Curitiba
Que o inverno se aproxima
E o surrado
Casaco do poeta
Puído
Não convém ao clima
Permeável a tudo
Até a garoa mais fina?


Fausto dos Santos

segunda-feira, 14 de maio de 2012


alma de cozinha


do pé da cadeira quebrada
da xícara lascada da avó morta

em matéria de poesia

até que ando bem,
pois o cérebro ligado ao microondas
faz cada omelete dos meus olhos que eu nem te conto.


Giuliano [Quase] Gimenez

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Jardim Itaqui - Região Metropolitana de Curitiba

ENCHAM-SE os forros da lembrança.
existam!
traia-se à maturidade
a verdura da infância.

a menina é arrancada do chão,
antes da escola,
da igreja, do trabalho,

dos carros e contas
e casamentos,

dos tribunais, asilos
e cemitérios,

como flor guardada
dentro de um livro
– enquanto a outra cresce,
adultescendo
pouco a pouco.

nunca mais a vi.

segurei-a nas palavras o que pude,
com minhas mãos
(as mesmas quando
de manhã na lâmina)
estropiadas
de ternura
            e espanto.

não é apenas saudade,
menina,

é infânsia

Rodrigo Madeira

sexta-feira, 4 de maio de 2012



Ó, minha flor cheia de moscas! Lhe escrevo essas horrendas linhas com o pulso aberto e usando chorume como tinta. Das ratazanas traiçoeiras aos dejetos dos porcos, tudo me remete a você. Da bosta vim mas a bosta não voltarei.Vamos construir um lar de detritos e despojos, onde não nos falte o fel nosso de cada dia. Um urubu esfomeado será nosso bicho de estimação, e mil corvos do lado de fora gritarão: “Nunca mais”. Nunca mais quero sentir a solidão! Na companhia de seus cravos e perebas encontrei a paz - palavra limpinha tal qual privada lavada- que tem sido a razão do meu apodrecer.
Pra você, bruxa pútrida dos meus pesadelos, digo até a vil palavra que rima com fedor e rancor. E me sobra sangue pra escrever: o amor, o amor.

Com tremor e desassossego,
                                    Seu Estrupício das Dores.

        Lucas Jeison - Conspiração Prosa Poética, 2012